Valfrido Silva
Nem sempre o pontapé inicial de uma campanha presidencial se dá onde a liturgia política recomenda, com palanque armado, bandeiras ao vento e discursos calibrados para consumo imediato. Às vezes, ele acontece onde o poder se move com mais naturalidade, sem roteiro explícito, entre currais, martelos de leilão e conversas que não pedem microfone, apenas presença. É nesse ambiente, menos performático, mas não menos estratégico, que Dourados vai assistir, no próximo dia 16 de maio, a um movimento que diz mais do que aparenta, quando o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta desembarca na cidade trazendo consigo o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, para prestigiar o leilão de gado do deputado estadual Zé Teixeira, dentro da programação da Expoagro. A informação foi confirmada pelo próprio Mandetta ao Contraponto/MS em telefonema neste final de semana, carregando o peso típico das notícias que não gritam, mas ecoam.
É que não se trata apenas de mais uma visita institucional, nem de cortesia entre figuras públicas. Zé Teixeira, anfitrião do evento, não ocupa esse lugar por acaso. Aliado histórico do ex-governador Reinaldo Azambuja, que recentemente deixou o PSDB para se alinhar ao PL com pretensões claras de disputar o Senado, reposicionando-se dentro de um tabuleiro que, a cada movimento, revela menos fidelidade partidária e mais cálculo eleitoral. Seu leilão, dentro da maior feira agropecuária do interior do Estado, não será apenas espaço de negócios, mas de articulação, de reconhecimento mútuo entre atores que sabem que política, no “interiorzão” do Brasil, se faz tanto no discurso quanto na convivência. E é exatamente nesse palco que Caiado escolhe aparecer, não para ser apresentado, porque já é bastante conhecido por aqui, onde tem muitos aliados políticos, como o ex-vice-governador Murilo Zauith.
Não é um nome qualquer. Médico, pecuarista, fundador da União Democrática Ruralista, a UDR, ainda nos tempos em que o embate ideológico no campo era travado sem filtros, Caiado foi candidato à Presidência da República em 1989, na primeira eleição direta após a redemocratização, dividindo o cenário com figuras que ajudaram a moldar o país que emergia daquele período: Collor, Lula, Brizola, Ulysses, entre outros. Desde então, percorreu o caminho clássico da política nacional, passando pela Câmara, pelo Senado e, por último, pelo governo de Goiás, estado onde o agronegócio não é apenas força econômica, mas identidade política. O que muda, agora, não é sua biografia, mas o contexto que a reposiciona.
Isto porque Caiado passa a ser enxergado como algo que o bolsonarismo ainda não resolveu internamente: uma alternativa. Não de ruptura completa, mas de acomodação possível para um campo político que se divide entre a fidelidade ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a necessidade pragmática de encontrar um nome que dialogue com setores que já não se sentem representados pelo tom mais radical e personalista que marcou os últimos anos. Caiado, nesse cenário, aparece como o conservador que fala a língua do agro, mantém firmeza no discurso, mas não depende do confronto permanente para existir politicamente.
E é nesse ponto que a presença de Mandetta deixa de ser detalhe e passa a ser elemento central da narrativa. Ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, demitido justamente por se opor ao negacionismo durante a pandemia da COVID — episódio que muitos identificam como marco inicial da derrocada do então presidente —, Mandetta carrega consigo o simbolismo da ruptura dentro do próprio campo conservador. Ao trazê-lo a Dourados, não apenas legitima sua presença local, mas constrói uma imagem que, para quem observa com atenção, diz muito: a de uma direita que tenta se reorganizar fora da sombra direta do bolsonarismo mais radical.
Nos bastidores, esse movimento não é lido com neutralidade. Ao contrário, provoca inquietação. Porque, enquanto há um esforço claro de setores ligados ao ex-presidente em consolidar o nome de Flávio Bolsonaro como herdeiro político, a entrada em cena de Caiado, ainda que de forma indireta, abre uma fissura que pode se ampliar. Especialmente em um Estado como Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio não apenas vota, mas influencia, orienta e, em muitos casos, decide.
A comparação, inevitável, surge quase como ironia pronta. Em sua passagem recente pela Expogrande, em Campo Grande, Flávio Bolsonaro buscou proximidade com esse mesmo público, mas acabou gerando mais ruído do que identificação ao protagonizar uma cena que rapidamente ganhou contornos simbólicos: ao montar em um cavalo diante do público, foi associado, com a rapidez típica das metáforas políticas, ao chamado “cavalo paraguaio” — aquele que larga bem, empolga no início, mas não sustenta o ritmo até o fim. Pode parecer detalhe, mas, na política, imagens se fixam com mais força do que discursos.
Tudo isso se desenrola dentro da Expoagro, que chega à sua 60ª edição consolidada como uma das maiores vitrines do agronegócio brasileiro e a principal do interior sul-mato-grossense, reunindo durante dez dias produtores, empresas, instituições e um público estimado em mais de 150 mil pessoas, com expectativa de movimentar acima de R$ 500 milhões em negócios. Mais do que números, é um espaço onde o campo se reconhece e se organiza, onde tecnologia, tradição e poder caminham lado a lado, e onde a política, mesmo quando não se anuncia, está sempre presente.
Talvez por isso o movimento faça tanto sentido. Porque, no Brasil real, campanhas não começam necessariamente quando a legislação permite, mas quando os sinais começam a ser emitidos — e, principalmente, captados. E o que se vê, nesse caso, é um desses sinais: discreto na forma, mas eloquente no conteúdo. A eleição presidencial que ainda não começou oficialmente já encontra, no coração do agronegócio, seus primeiros ensaios de disputa. E, como sempre, quem percebe antes, larga na frente.
