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terça-feira, maio 12, 2026

A grande expectativa para o leilão de Zé Teixeira

Com a presença de Ronaldo Caiado no leilão do deputado Zé Teixeira, Expoagro transforma os tradicionais remates de gado em vitrine simultânea de negócios, articulação política e movimentações antecipadas para 2026

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Valfrido Silva

Na essência, toda grande feira agropecuária brasileira possui dois ambientes simultâneos. O primeiro é o oficial, visível ao público, feito de máquinas reluzentes, genética animal, tecnologia, negócios e discursos otimistas sobre produtividade. O segundo, mais silencioso e frequentemente mais importante, acontece ao redor dos leilões de gado, onde o agronegócio deixa de ser apenas atividade econômica e reassume sua velha condição de espaço de articulação política, afirmação social e construção de poder. Em Dourados, na histórica 60ª edição da Expoagro, esse segundo ambiente promete ganhar dimensão ainda mais simbólica.

Tradicionalmente tratados como ponto alto dos negócios da feira, os leilões sempre funcionaram muito mais do que simples eventos comerciais. São espaços de convivência da elite produtora regional, ambiente onde alianças se consolidam, prestígios são medidos e recados políticos circulam com naturalidade entre um lance e outro. E talvez exatamente por isso o encerramento da programação deste ano carregue um significado especial: pela primeira vez, o deputado estadual Zé Teixeira, figura histórica da política sul-mato-grossense e nome profundamente ligado ao agronegócio regional, deixará de ser apenas expositor para assumir o protagonismo direto de um grande leilão.

O chamado 1º Leilão Produção Fazenda Santa Claudina, marcado para o dia 16, às 19h, fecha oficialmente a agenda de remates da Expoagro e já nasce cercado de simbolismos políticos. Não apenas pelo peso histórico de Zé Teixeira dentro da classe produtora, mas sobretudo pelo prestígio nacional que o evento começa a atrair. A presença confirmada do ex-governador de Goiás e presidenciável Ronaldo Caiado transforma o leilão em algo muito maior do que um simples encontro pecuário.

Caiado não chega a Dourados apenas como visitante ocasional. Seu nome carrega uma biografia que se confunde com a própria organização política do agronegócio brasileiro moderno. Fundador da União Democrática Ruralista, a histórica UDR, ainda nos anos mais tensos dos conflitos fundiários nacionais, o governador goiano construiu sua trajetória como uma das vozes mais identificadas com o conservadorismo rural brasileiro. Sua presença no leilão de Zé Teixeira, portanto, possui leitura inevitavelmente política — ainda mais em um momento em que seu nome começa a circular com mais intensidade dentro do campo conservador como alternativa presidencial para 2026.

E há outro detalhe relevante nessa composição de cenário: Caiado desembarca trazendo ao lado o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, personagem que simboliza uma das rupturas mais emblemáticas do bolsonarismo durante a pandemia. O encontro dos dois, no coração do agronegócio sul-mato-grossense, reforça a percepção de que a Expoagro deste ano ultrapassa o caráter econômico e assume também dimensão de prévia política do que poderá ser a reorganização da direita brasileira nos próximos anos.

A abertura oficial dos leilões, realizada neste sábado, já deu sinais claros dessa mistura entre pecuária e poder. O governador Eduardo Riedel participou da cerimônia acompanhado de lideranças importantes, entre elas os senadores Nelsinho Trad e Tereza Cristina — esta última também ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e uma das figuras mais respeitadas do agronegócio nacional, especialmente pelo papel desempenhado internacionalmente na defesa da imagem do agro brasileiro durante os anos mais delicados da pressão ambiental externa.

Enquanto isso, o Sindicato Rural trata de reforçar o discurso tradicional da importância econômica e simbólica dos leilões. O presidente da entidade, Gino Ferreira, destaca que os remates representam não apenas negócios e qualidade genética dos animais, mas também “união e congraçamento da classe produtora”. E, de fato, talvez seja exatamente essa combinação que explique a força duradoura desses eventos dentro da cultura agropecuária brasileira.

A programação deste ano ajuda a dimensionar essa importância. Os remates começaram neste sábado com o tradicional 32º Leilão 4R, realizado pela Nelore Kito e Nelore MRA. Na sequência vêm o Leilão Mulheres do Conesul e Amigos, o Fazenda e Haras Continental, o Nelore Pintado, o Especial 60 anos Ribalta, o Brangus MS e, finalmente, o fechamento com a estreia da Fazenda Santa Claudina no circuito dos grandes leilões da Expoagro.

No fundo, porém, talvez a grande particularidade da Expoagro 2026 esteja justamente nessa sobreposição quase perfeita entre arena econômica e palco político. Porque, em Mato Grosso do Sul, o agronegócio raramente se limita à produção rural. Ele também produz influência, constrói lideranças, organiza alianças e antecipa movimentos eleitorais.

E poucas vezes isso ficou tão evidente quanto agora, quando um leilão de gado passa a reunir, no mesmo curral simbólico, governadores, senadores, presidenciáveis e alguns dos personagens mais influentes da política regional. Na Expoagro, afinal, nem todo lance acontece apenas dentro da pista.

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