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segunda-feira, maio 11, 2026

Gino abre espaço para a história, na Expoagro

Ao homenagear Quito Andrade e Walter Carneiro, o presidente do Sindicato Rural resgata personagens que ajudaram a construir a identidade econômica, política e afetiva da Expoagro

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Valfrido Silva

Às vezes a história entra discretamente pela porteira da memória, sem precisar de discurso inflamado, números grandiosos ou previsões apocalípticas sobre o futuro do agronegócio. E talvez um dos momentos mais bonitos — e mais humanos — desta 60ª Expoagro tenha acontecido justamente quando o presidente do Sindicato Rural de Dourados, Gino Ferreira, resolveu interromper por alguns instantes o peso das discussões econômicas e políticas para abrir espaço à delicadeza da lembrança. Ao homenagear duas figuras históricas do agronegócio e da vida pública regional — o pecuarista Marcos Rezende de Andrade, o Quito, e o médico veterinário e ex-presidente da Assembleia Legislativa Walter Benedito Carneiro —, Gino revelou uma sensibilidade quase oceânica, surpreendente sobretudo para quem, minutos depois, protagonizaria um dos discursos mais duros já ouvidos durante toda a história de abertura oficial da feira agropecuária.

Ali não havia crise, tensão fundiária, narrativa de cerco nem combate ideológico. Havia apenas memória. E memória da boa. Daquelas que carregam cheiro de curral molhado, poeira vermelha grudada na bota e o tempo em que a Exposição Agropecuária de Dourados ainda, ainda na Cabeceira Alegre, ajudava a forjar personagens que se confundiriam com a própria identidade econômica e social do sul de Mato Grosso uno — antes mesmo da divisão do Estado.

Walter Benedito Carneiro pertence exatamente a essa geração pioneira. Gente que praticamente construiu sua trajetória profissional, empresarial e pública ao redor da Expoagro, quando os estábulos da feira ainda exibiam placas que hoje funcionam quase como um museu afetivo da elite produtora sul-mato-grossense. Médico veterinário e juiz da ABCZ — a poderosa Associação Brasileira dos Criadores de Zebu —, ajudou a moldar uma época em que os julgamentos de pista ainda dependiam menos da tecnologia e mais da autoridade técnica, da tradição e do olhar treinado de quem entendia de genética bovina muito antes da existência desse “VAR rural” informal que hoje cerca os grandes campeonatos pecuários nacionais.

Era o tempo de expositores icônicos, como Rachid Saldanha Dérzi, Li Teixeira, Yasuo Morishita, Gustavo Adolfo Pável, Ariovaldo Corrêa, João Humberto de Carvalho, Quito Andrade, Célio Vilela de Andrade e o inesquecível Vilelão — personagem daqueles que parecem maiores do que a própria época em que viveram. Foi justamente Vilelão quem protagonizou um dos episódios mais pitorescos da velha Expoagro ao trazer para Dourados, entre compradores e negócios de gado, ninguém menos que o ator Tarcísio Meira, transformando a feira agropecuária numa improvável mistura de curral, celebridade e espetáculo nacional numa época em que o interior ainda se permitia certos encantamentos.

Tudo isso quando os irmãos Guaritá (Waltinho e Wander) sequer imaginarem a criação da Leiloboi, empresa que anos depois revolucionaria o mercado de leilões televisivos no Estado e ajudaria a profissionalizar ainda mais a pecuária regional. A Expoagro daquele tempo talvez fosse menos tecnológica, menos milionária e menos politizada do que a atual, mas possuía uma espécie de romantismo rural que sobrevivia no convívio quase familiar entre expositores, veterinários, pecuaristas e visitantes.

E talvez nenhum dos homenageados represente tão bem esse espírito quanto Quito. Mineiro de nascimento, formado pela USP e herdeiro de uma linhagem de pecuaristas, Marcos Rezende de Andrade chegou a Dourados quando o asfalto ainda terminava em Rio Brilhante e o futuro do sul do Estado era mais promessa do que realidade. Mas enxergou longe. Muito longe. Não apenas ajudou a impulsionar a instalação do Frigorífico Matel, símbolo do avanço econômico regional, como trouxe para a pecuária sul-mato-grossense, ainda na década de 70, técnicas de genética avançada e o uso do nitrogênio num tempo em que modernização rural ainda parecia assunto restrito aos grandes centros.

Sua ligação com o Sindicato Rural de Dourados ultrapassou largamente o aspecto institucional. Durante 18 anos, Quito ajudou literalmente a erguer parte da estrutura física e simbólica da Expoagro moderna. Forneceu projetos, participou da construção da Casa do Nelore e da Casa do Criador e ajudou a transformar o Parque João Humberto de Carvalho em referência nacional da elite pecuária brasileira.

Walter Benedito Carneiro, por sua vez, construiu uma trajetória igualmente singular. Médico veterinário formado nos duros anos de chumbo no Rio de Janeiro, chegou a Dourados em 1968 e rapidamente se tornou uma das grandes referências técnicas do melhoramento genético do gado Zebu na região. Mas sua atuação jamais se limitou aos currais. Esportista apaixonado, presidiu o tradicional Ubiratan Esporte Clube, o velho Leão da Fronteira, antes de mergulhar definitivamente na vida pública.

E foi justamente na política que protagonizou um dos episódios mais emblemáticos da história recente de Mato Grosso do Sul. Deputado estadual constituinte e único douradense a presidir a Assembleia Legislativa, Walter Carneiro eternizou-se como autor, praticamente artesanal, da emenda escrita à mão que criou a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, a UEMS, instalada em Dourados e transformada décadas depois numa das principais instituições públicas de ensino superior do Estado. Uma decisão histórica tomada literalmente no calor da sessão constituinte, em folha simples, movida muito mais por visão de futuro do que por cálculo político.

Talvez tenha sido exatamente essa memória que Gino Ferreira resolveu resgatar ao homenagear Quito e Walter Carneiro. E talvez esteja aí uma das maiores forças simbólicas da Expoagro aos 60 anos: sua capacidade de funcionar simultaneamente como vitrine do futuro e arquivo sentimental de um Mato Grosso do Sul que nasceu praticamente ao redor da pecuária.

Até porque, antes de ser palco de presidenciáveis, discursos ideológicos, disputas narrativas e grandes negócios, a Expoagro foi sobretudo um lugar de encontros humanos. Um espaço onde gerações inteiras aprenderam a negociar, conviver, trabalhar e construir uma identidade rural que ainda hoje molda boa parte da cultura política e econômica do Estado.

E talvez por isso essa homenagem tenha produzido um contraste tão interessante. O mesmo Gino Ferreira que minutos depois falaria sobre crises, ameaças e inseguranças do presente foi capaz de devolver à feira um raro instante de ternura histórica. Como se lembrasse, ainda que involuntariamente, que nenhum apocalipse resiste por muito tempo diante da força tranquila da memória.

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