Valfrido Silva
As pesquisas qualitativas são muito mais importantes para as campanhas modernas do que os tradicionais levantamentos quantitativos divulgados publicamente quase como placares esportivos da política. Enquanto a pesquisa quantitativa mede fotografia momentânea de intenção de voto, a qualitativa busca algo muito mais profundo — compreender sentimentos, rejeições, percepções emocionais, capacidade de crescimento e espaço narrativo de cada candidato dentro do imaginário do eleitor. Em outras palavras: a quantitativa mostra quem pode estar na frente hoje; a qualitativa tenta identificar quem possui melhores condições de crescer amanhã.
E é exatamente isso que chama atenção num questionário produzido por um instituto sediado em Tallahassee, na Flórida, nos Estados Unidos, onde o senador Nelsinho Trad aparece como o grande favorito nas próximas eleições para o Senado. O material faz referência ao endereço “420 East Jefferson Street, Tallahassee, FL”, embora o documento compartilhado não identifique claramente o nome da empresa responsável pela análise. O estudo tem caráter claramente estratégico e prospectivo, voltado muito mais à construção de campanha, posicionamento digital e percepção pública do que propriamente à divulgação eleitoral tradicional.

Ainda assim, o gráfico apresentado no relatório produz inevitável repercussão política em Mato Grosso do Sul. Segundo a análise qualitativa, Nelsinho Trad aparece hoje com maior “potencial de crescimento eleitoral” entre os principais nomes cotados para a disputa ao Senado em 2026, superando inclusive o ex-governador Reinaldo Azambuja, apontado há meses nos bastidores como favorito natural para uma das vagas, lembrando que são duas que estão em disputa. E talvez isso revele algo importante sobre o atual momento político.
Azambuja continua sendo uma das figuras mais fortes e organizadas da política estadual. Possui recall administrativo consolidado, trânsito privilegiado no agronegócio, musculatura partidária e forte identificação com setores conservadores do eleitorado. Mas carrega também um fenômeno típico das lideranças muito marcadas ideologicamente: dificuldade de expansão para além do núcleo político já consolidado. Embora dialogue bem com a direita tradicional e com parcelas do bolsonarismo, não ocupa necessariamente o espaço do eleitor moderado cansado da polarização permanente entre lulismo e bolsonarismo. E é justamente nesse vazio que Nelsinho Trad aparece cada vez mais consolidado.
O senador do PSD surge no estudo como o candidato de menor rejeição, alguém capaz de transitar com relativa naturalidade entre campos políticos distintos sem provocar antagonismos radicais. Médico, ex-vereador, deputado estadual, prefeito de Campo Grande por dois mandatos bem avaliados e atualmente senador, construiu trajetória muito mais ligada à gestão, articulação política e capacidade administrativa do que às guerras ideológicas que passaram a dominar parte da política brasileira nos últimos anos.
Talvez por isso o estudo valorize tanto elementos como presença digital, percepção pública, capacidade de mobilização e adaptabilidade às novas linguagens eleitorais. A pesquisa qualitativa não tenta apenas medir votos. Ela tenta identificar quais personagens conseguem dialogar com diferentes segmentos do eleitorado sem carregar níveis elevados de desgaste emocional.
E há outro fator que ajuda a explicar o posicionamento de Nelsinho nesse cenário: a força histórica do sobrenome Trad dentro da política sul-mato-grossense. As eleições de 2026 podem recolocar simultaneamente três integrantes da família na mesma disputa eleitoral. Enquanto Nelsinho busca a reeleição ao Senado, o ex-deputado Fábio Trad aparece como possível candidato ao governo dentro do campo progressista ligado ao PT, e Marquinhos Trad tenta reconstruir a própria trajetória política depois do duro desgaste sofrido na última eleição estadual, quando disputou o governo e acabou esmagado nas urnas pela máquina política de Azambuja. Agora, numa estratégia que lembra o início da própria carreira, depois de voltar à Câmara Municipal de Campo Grande pode tentar voltar também à Assembleia Legislativa ou buscar uma cadeira como deputado federal.
Independentemente das diferenças ideológicas entre os irmãos, existe um efeito eleitoral evidente nessa presença simultânea da família no processo político estadual. O sobrenome Trad continua funcionando como uma marca política consolidada especialmente em Campo Grande e em setores importantes do interior.
Outro aspecto frequentemente subestimado nas análises mais superficiais é a enorme capilaridade municipal construída por Nelsinho Trad durante o mandato no Senado. O parlamentar consolidou imagem de articulador eficiente na liberação de emendas e recursos federais para os municípios, especialmente nas áreas de saúde e infraestrutura. Sua proximidade com prefeitos e vereadores espalhados pelo Estado tornou-se praticamente consenso nos bastidores políticos sul-mato-grossenses. E isso possui peso enorme numa disputa senatorial em Mato Grosso do Sul, onde alianças municipalistas frequentemente valem tanto quanto desempenho nas grandes cidades.
Claro que ainda é cedo para transformar qualquer levantamento qualitativo em sentença eleitoral. Até porque a disputa ao Senado em 2026 tende a ser uma das mais complexas dos últimos anos no Estado, misturando:
- o peso político de Azambuja;
- a força residual do bolsonarismo;
- o campo lulista;
- a reorganização da direita nacional;
- e candidaturas ainda em formação.
Mas talvez a principal mensagem desse estudo esteja justamente em outro lugar: enquanto parte dos candidatos continua apostando na radicalização ideológica, existe um contingente crescente de eleitores procurando exatamente o oposto — um perfil mais moderado, previsível administrativamente, municipalista e menos conflagrado emocionalmente. E é exatamente nesse espaço que Nelsinho Trad vai consolidando sua candidatura.
