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terça-feira, maio 12, 2026

Entre o acórdão e um ‘acordão’, Isa Cavala transforma crise em ativo político

Pedido da defesa para extinguir processos disciplinares na Câmara reacende debate sobre perseguição política, sobrevivência institucional e o crescimento eleitoral da vereadora em Dourados

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Em vez de um acórdão, um “acordão”. É pelo menos a impressão política inevitável produzida pelo documento protocolado na manhã desta terça-feira pela defesa da vereadora Isa Marcondes na Câmara Municipal de Dourados. Formalmente, trata-se apenas de um pedido jurídico de extinção de processo disciplinar por suposto descumprimento de prazo previsto no próprio Código de Ética do Legislativo. Politicamente, porém, o movimento carrega todos os ingredientes típicos daqueles arranjos silenciosos que a velha política costuma produzir quando percebe que determinados conflitos podem acabar maiores do que a própria conveniência institucional de enfrentá-los.

E talvez exatamente aí esteja o ponto mais delicado dessa história.

A defesa de Isa Marcondes sustenta basicamente que os processos instaurados contra a parlamentar ultrapassaram o prazo máximo de tramitação previsto na Resolução nº 127/2013, o Código de Ética da Câmara Municipal. O documento argumenta que o rito especial disciplinar possui prazo objetivo para conclusão e que, uma vez superado esse limite temporal sem decisão definitiva, ocorreria aquilo que juridicamente a defesa chama de “extinção do feito”.

No papel, é uma discussão processual relativamente técnica. Na política, contudo, o caso parece muito mais complexo. Porque ninguém em Dourados ignora que os dois processos envolvendo Isa Marcondes jamais foram tratados apenas como simples procedimentos administrativos parlamentares. Eles carregavam evidente dimensão política desde o primeiro momento, sobretudo pelo crescimento eleitoral da vereadora junto a um segmento popular fortemente identificado com sua linguagem agressiva, performática e frequentemente conflitiva.

E talvez esteja justamente aí a grande ironia do episódio: independentemente do desfecho jurídico, uma eventual cassação dificilmente destruiria politicamente Isa Marcondes. Ao contrário. Há quem sustente nos bastidores que ela poderia sair eleitoralmente ainda maior de um confronto desse tipo, transformando eventual punição em combustível narrativo de perseguição política, exatamente como tantas lideranças populistas aprenderam a fazer na política contemporânea brasileira.

A comparação talvez soe exagerada para alguns, mas existe certa semelhança estrutural com o ambiente que cercou o impeachment de Dilma Rousseff. Não necessariamente pelo conteúdo dos processos — completamente diferentes —, mas pelo mecanismo político subjacente: a sensação de que o julgamento acabaria ocorrendo muito mais “pelo conjunto da obra” do que propriamente por um fato isolado juridicamente devastador.

Isa tornou-se, gostem ou não seus adversários, um personagem político de alta combustão. Produz desgaste institucional quase diário, acumula conflitos públicos, desafia protocolos tradicionais da política local e opera numa linguagem direta que dialoga fortemente com o eleitorado mais cansado do formalismo clássico da Câmara Municipal. Isso naturalmente produz rejeição intensa em setores tradicionais do establishment político, mas também fidelização crescente em parcelas do eleitorado popular. Talvez por isso mesmo a hipótese de cassação sempre tenha carregado alto risco político para os próprios defensores da medida.

Nos bastidores da política douradense, nunca foi segredo que Isa Marcondes passou a ser vista como ameaça eleitoral concreta para 2026. Tanto que seu nome chegou a circular como potencial candidata à Assembleia Legislativa, hipótese que teria provocado desconforto significativo em setores já consolidados da política estadual. O movimento seguinte foi quase automático: estimular sua migração para uma candidatura à Câmara Federal, onde o cálculo eleitoral muda completamente e a pulverização de votos costuma reduzir riscos locais mais imediatos.

Agora, com o pedido de extinção protocolado pela defesa, a Câmara Municipal entra num terreno politicamente delicado. Porque qualquer decisão produzirá consequências. Se insistir no prosseguimento dos processos, alimentará ainda mais a narrativa de perseguição política construída pela vereadora. Se aceitar a tese da defesa baseada no esgotamento dos prazos regimentais, inevitavelmente reforçará nos bastidores a impressão de que teria ocorrido uma espécie de “acordão branco” para evitar desgaste institucional maior.

E talvez o mais curioso de tudo seja justamente isso: enquanto juridicamente o documento fala apenas em prazos processuais, decadência administrativa e encerramento formal do procedimento, politicamente a cidade provavelmente enxergará outra coisa. Enxergará sobrevivência. Porque, a exemplo de Ari Artuzi, poucas figuras crescem tanto quanto aquelas que conseguem transformar conflito institucional em ativo eleitoral. E Isa Marcondes parece compreender isso como poucos personagens da nova política regional.

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