Valfrido Silva
Cresci ouvindo que onde existe um garnisé não demora muito para começar uma confusão. Pequeno no tamanho, mas desproporcionalmente valente na disposição para a briga, ele sempre me pareceu uma dessas criaturas de Deus apenas para testar a paciência alheia dentro dos terreiros. Bastava um cantar atravessado, uma invasão mínima de poleiro ou um olhar mais enviesado de outro galo para o escândalo começar. Pois não é que, muitos anos depois, já distante das cercas, dos poleiros e dos quintais poeirentos da infância, fui reencontrar um deles justamente na Expoagro de Dourados, esse imenso terreiro político, econômico e eleitoral em que se transformou a feira agropecuária mais importante do interior sul-mato-grossense!
Na verdade, encontrei dois. O primeiro era legítimo. Um garnisé de verdade, desses de crista vistosa e arrogância ornamental, apresentado ao público nos releases distribuídos pela equipe de Fabio Dorta, encantada com o pequeno personagem emplumado chamado Drake, estrela involuntária dos corredores da exposição. Dizem que a filha dele, também jornalista, Fabiane, gostou tanto do bichinho que chegou a sugerir sua inclusão na programação dos leilões, disposta a arrematá-lo só pelo charme performático de sua presença. Drake, pelo menos, parecia honesto em suas intenções: queria apenas cantar, posar para fotografias e exercer sua condição natural de pequeno imperador do terreiro.
O outro garnisé, porém, era político. E desses muito mais perigosos. Até poucos dias atrás, ostentava orgulhosamente uma vistosa crista vermelha, dessas que durante certo tempo pareciam suficientes para impor respeito em determinados galinheiros ideológicos. Mas a política, como os terreiros, muda rapidamente de humor. E nosso garnisé, percebendo que sua plumagem já não assustava tanto num ambiente dominado por galos maiores, mais experientes e acostumados a rinhas pesadas, começou discretamente a procurar novos poleiros.
Primeiro cantou alto demais. Sonhou empoleirar-se justamente na cadeira principal do galinheiro estadual, aquela atualmente ocupada por Eduardo Riedel. Mas o terreiro do Parque dos Poderes possui galos antigos, alguns deles criados em rinhas muito mais violentas do que as disputadas por pequenos garnisés de ocasião. O resultado foi previsível: acabou enxotado antes mesmo de completar o primeiro cocoricó sucessório.
Restou-lhe então tentar abrigo em galinheiros periféricos, menos ambiciosos, porém eleitoralmente mais seguros. O problema nunca foi exatamente encontrar abrigo. O problema era a plumagem. Sua antiga crista vermelha seguia denunciando origens recentes num momento em que certos terreiros conservadores ainda observam com enorme desconfiança qualquer sinal de parentesco ideológico com velhos galinheiros progressistas.
E foi aí que começou o espetáculo mais interessante. Nos últimos meses, o garnisé passou a saltar de galho em galho com impressionante velocidade adaptativa, como se buscasse desesperadamente um poleiro capaz de lhe oferecer não identidade política, mas viabilidade eleitoral. Descobriu então um novo viveiro partidário com cores particularmente convidativas: azul, amarelo e branco. Tons suaves, municipalistas, aparentemente neutros, suficientemente distantes do vermelho que agora parecia atrapalhar mais do que ajudar.
Uma gaiola politicamente confortável. Sobretudo porque o novo poleiro lhe permite continuar cacarejando sem precisar explicar excessivamente as próprias metamorfoses ideológicas. Afinal, na política contemporânea sul-mato-grossense, muitos garnisés já compreenderam que fidelidade doutrinária vale infinitamente menos do que sobrevivência eleitoral.
E talvez seja justamente aí que mora a verdadeira força desses pequenos galos políticos. Não no tamanho. Não na coerência. Nem mesmo na qualidade do canto. Mas na extraordinária capacidade de adaptação aos ventos do terreiro.
Nos velhos quintais da infância, no Jaguapiru e na Cabeceira Alegre, via os garnisés brigando por instinto. Hoje, na política, vejo briga por espaço. Briga daquelas que só não espalham mais penas porque o poleiro é um só e o galho principal já tem dono.
Mesmo assim, nosso pequeno personagem parece convencido de que ainda pode fazer enorme diferença nas eleições mais imprevisíveis de 2026, independentemente do galho, do poleiro ou da gaiola partidária onde venha finalmente aninhar. Sobretudo depois que descobriu, do outro lado da fronteira, um terreiro muito mais generoso financeiramente do que aqueles onde costumava ciscar antigamente, em Dourados. Desde então, o garnisé jamais retorna de seus voos paraguaios sem carregar consigo a sempre vistosa e famosa mala preta — e talvez seja exatamente ela, mais do que o canto, a plumagem ou a disposição para a rinha, aquilo que o faz acreditar que ainda pode sobreviver entre galos muito maiores. Porque, como qualquer velho criador de terreiro sabe, às vezes os menores galos são justamente os que produzem o maior barulho.
