Na essência, os grandes leilões rurais de Mato Grosso do Sul nunca foram apenas negócios pecuários. Funcionam também como cerimônias silenciosas de reconhecimento de poder, prestígio e permanência política. Mas nenhum evento da histórica 60ª Expoagro traduziu isso tão bem quanto o 1º Leilão Produção Fazenda Santa Claudina, promovido pelo deputado estadual Zé Teixeira, que transformou o Tatersal do Parque de Exposições João Humberto de Carvalho numa mistura rara de reverência afetiva, demonstração de força ruralista e antecipação política de 2026.
Num ambiente eminentemente bolsonarista, carregado de simbolismos conservadores e frequentado por parte expressiva da elite do agronegócio regional, o centro das atenções não foi exatamente o presidenciável Ronaldo Caiado, nem o senador Nelsinho Trad, tampouco o vice-governador Barbosinha — todos do PSD e personagens relevantes do rearranjo político nacional e estadual. O protagonista absoluto desta tarde acabou sendo justamente o velho deputado douradense que, oito mandatos depois, continua ocupando no imaginário rural sul-mato-grossense um espaço quase patriarcal. E talvez seja exatamente isso que explique a emoção visível de Zé Teixeira durante praticamente todo o evento.
É que o leilão deste sábado parecia significar muito mais do que a simples comercialização de mais de mil cabeças de gado de genética refinada. Funcionava quase como reconhecimento público de uma trajetória construída simultaneamente dentro da porteira e da política. Poucos personagens sul-mato-grossenses conseguiram atravessar tantas décadas mantendo intacta a ligação emocional com a classe produtora regional. Zé Teixeira não aparece para o agro apenas como deputado. Surge como um dos seus.
E isso ficou muito evidente no discurso emocionado do presidente do Sindicato Rural de Dourados, Gino Ferreira. Acostumado nos últimos dias a ocupar manchetes pelos discursos duros e quase apocalípticos sobre o futuro do agronegócio brasileiro, Gino abandonou temporariamente o tom inflamado para mergulhar numa espécie de memória afetiva do agro regional. Ao homenagear Zé Teixeira em nome do Sindicato Rural, praticamente falou como filho de pecuarista diante de um personagem que ajudou a moldar sua própria formação emocional dentro do campo.
“Quando a gente era criança queria ser o Zé Teixeira”, confessou, num daqueles momentos em que o protocolo político desaparece e sobra apenas admiração genuína.
E talvez não exista homenagem maior dentro da cultura rural sul-mato-grossense.
O próprio leilão carregava forte simbolismo. Zé Teixeira sempre participou da Expoagro como expositor, liderança política e referência do agronegócio estadual. Mas agora, pela primeira vez, assumia o protagonismo absoluto de um remate desse porte, justamente numa edição histórica da feira. E não de qualquer forma: colocando mais de mil animais à venda e lotando completamente o Tatersal da Expoagro.
A presença de Ronaldo Caiado ampliou ainda mais o peso político do evento.
Fundador da histórica União Democrática Ruralista nos anos 1980, ex-governador de Goiás e hoje pré-candidato à Presidência da República, Caiado talvez represente como poucos a velha tradição do conservadorismo rural brasileiro que mistura agronegócio, política e identidade cultural quase numa coisa só. Sua vinda a Dourados não foi uma simples visita protocolar ou de pré-campanha. Soou como gesto de reconhecimento pessoal a Zé Teixeira — e também como movimento estratégico dentro de um Mato Grosso do Sul cada vez mais importante no tabuleiro da direita nacional.
E havia ali uma cena particularmente interessante: num ambiente fortemente identificado com o bolsonarismo raiz, o presidenciável conservador mais festejado do dia dividia naturalmente espaço com figuras outras do PSD, partido que tenta justamente ocupar uma faixa mais pragmática e menos ideologicamente inflamável da política brasileira, num momento dos mais delicados do bolsonarismo.
Nelsinho Trad circulava nesse ambiente quase como tradução viva dessa estratégia de moderação eleitoral. Barbosinha, por sua vez, representava a ponte institucional com o governo Eduardo Riedel. Mas nenhum deles conseguiu roubar de Zé Teixeira aquilo que talvez tenha sido o verdadeiro ativo político exibido naquela noite: pertencimento.
Porque, diferentemente de muitos personagens que transitam pelo agro apenas em tempos eleitorais, Zé Teixeira parece carregar junto ao produtor rural uma legitimidade construída ao longo de décadas de convivência real com o setor.
E talvez seja exatamente isso que tenha tornado a cena tão simbólica.
No palco político altamente polarizado de 2026, onde quase todos parecem disputar narrativas ideológicas cada vez mais agressivas, “seu Zé”, como é chamado deputado douradense, acabou lembrando silenciosamente que ainda existe um tipo de liderança construída não apenas por discurso, mas por permanência.
