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quarta-feira, maio 20, 2026

O que aconteceu com o formador de opinião?

Como as redes sociais pulverizaram a autoridade dos antigos formadores de opinião e transformaram a informação numa disputa permanente entre conhecimento, algoritmo e espetáculo

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Valfrido Silva

Existe uma pergunta silenciosa rondando a política, o jornalismo, as rodas de tereré, a sauna do Indaiá e até os balcões da famosa padaria do fuxico: afinal, quem ainda forma opinião neste país? A dúvida parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis da era digital. E foi justamente lendo o artigo da professora Anita Tetslaff — A ignorância virou moda: um retrato da era digital entre o espetáculo e a estupidez — que essa inquietação voltou a martelar no velho juízo jornalístico deste cronista. Porque Anita, em linguagem acadêmica e elegantemente preocupada, toca exatamente no nervo exposto da comunicação contemporânea: a implosão silenciosa da autoridade intelectual, emocional e política provocada pelas redes sociais.

Houve um tempo — e não faz tanto assim — em que o chamado “formador de opinião” era uma figura relativamente identificável. O sujeito podia ser jornalista, radialista, professor, advogado, médico, padre, líder sindical, fazendeiro respeitado ou simplesmente aquele cidadão que passava as manhãs discutindo política na esquina sem jamais ter disputado eleição alguma. Gostassem ou não dele, sabia-se quem era. E, sobretudo, sabia-se de onde vinha sua autoridade. Ela nascia da leitura, da experiência, da biografia, da coerência ou da rara capacidade de interpretar o mundo antes dos outros. O velho formador de opinião não era necessariamente famoso. Muitas vezes era apenas ouvido. E há uma diferença brutal entre as duas coisas.

A internet bagunçou completamente esse ecossistema. As redes sociais democratizaram a fala, o que, em tese, parecia maravilhoso. Mas junto com a democratização veio também a implosão dos antigos filtros de mediação intelectual. De repente, a opinião de um neurocientista passou a disputar espaço com a análise de um sujeito filmando o próprio almoço no TikTok. E ambos potencialmente recebendo o mesmo número de curtidas. Talvez por isso o neurocientista Miguel Nicolelis, citado por Anita, tenha resumido recentemente o fenômeno numa frase tão brutal quanto precisa: “A ignorância virou moda”. Pode até soar exagerada, mas talvez descreva como poucas a lógica contemporânea da comunicação digital.

Porque nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil distinguir conhecimento de barulho. O antigo formador de opinião trabalhava em ritmo lento. Lia jornais, frequentava reuniões, acumulava repertório, conversava, errava, amadurecia e construía reputação ao longo de décadas. O influenciador digital moderno opera em lógica completamente diferente: velocidade, viralização, emoção instantânea, indignação performática e frases suficientemente explosivas para sobreviver sete segundos num reels. Isso não significa que desapareceram os formadores de opinião. Eles apenas mudaram de lugar, de linguagem e de formato. Alguns migraram para podcasts. Outros sobrevivem em colunas independentes. Muitos foram engolidos pelo algoritmo. E vários simplesmente perderam relevância diante da ascensão daquilo que Anita Tetslaff parece identificar com enorme lucidez: a espetacularização da estupidez como mecanismo de reconhecimento social.

Porque hoje, convenhamos, o sujeito não precisa mais entender profundamente um assunto para opinar sobre ele. Precisa apenas parecer seguro, indignar-se com convicção e dominar minimamente a estética do vídeo vertical. A autoridade deixou de ser construída apenas pelo conteúdo e passou a depender também da performance. E talvez aí esteja uma das maiores tragédias silenciosas do nosso tempo: o conhecimento perdeu espaço para a encenação do conhecimento. Não importa necessariamente quem sabe mais. Muitas vezes vence quem fala mais alto, mais rápido ou com mais raiva.

E é justamente nesse cenário que surge a pergunta mais desconfortável desta crônica: o jornalista ainda é formador de opinião? A resposta talvez seja simples e dolorosa ao mesmo tempo: depende. Há jornalistas que viraram apenas repetidores de algoritmo, produtores profissionais de indignação para bolhas emocionais específicas. Não interpretam mais a realidade; apenas alimentam torcidas. Mas ainda existem aqueles — poucos talvez — que seguem exercendo o velho ofício de contextualizar, desconfiar, ligar pontos, traduzir e oferecer ao leitor algo em extinção: perspectiva.

Talvez seja exatamente aí que o velho “insubordinado” e alguns colegas que ainda conservam um mínimo de tutano continuem exercendo algum papel formador. Não porque sejamos donos da verdade. Muito menos por controlar a opinião pública, algo hoje praticamente impossível. Mas porque ainda tentam organizar mentalmente a confusão do mundo para o leitor. Porque formar opinião nunca foi mandar alguém pensar de determinada maneira. Isso é propaganda. O verdadeiro formador de opinião é aquele que ajuda o cidadão a compreender melhor a realidade antes de tirar suas próprias conclusões.

Os políticos perceberam essa mudança antes de muita gente. Durante décadas bastava conquistar jornais, rádios, sindicatos, lideranças comunitárias, igrejas ou meia dúzia de jornalistas influentes. Hoje ninguém controla completamente a narrativa. O prefeito grava vídeo. O vereador viraliza. O deputado faz live. O influenciador cria escândalo. O jornalista reage. O algoritmo decide quem será ouvido. E no meio desse pandemônio informacional o eleitor tenta desesperadamente descobrir em quem confiar.

Talvez por isso a figura do formador de opinião tenha se tornado simultaneamente mais fraca institucionalmente e mais importante emocionalmente. Porque o leitor cansou da gritaria. E começa lentamente a procurar outra vez repertório, coerência, humanidade e capacidade de interpretação. Não necessariamente os mais famosos. Nem os mais barulhentos. Mas aqueles que ainda conseguem oferecer alguma bússola num ambiente onde quase todo mundo parece perdido.

No fundo, talvez o verdadeiro formador de opinião da era digital seja justamente aquele que resiste à tentação de transformar tudo em espetáculo. E isso, convenhamos, virou uma forma cada vez mais rara — e perigosamente necessária — de insubordinação.

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