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segunda-feira, maio 18, 2026

O grande espetáculo tragicômico da política regional

A fala recente de Soraya Thronicke nas redes sociais escancara não apenas sua travessia ideológica, mas também a reorganização emocional e eleitoral de uma disputa ao Senado cada vez mais marcada pela sobrevivência política

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Existe um instante particularmente revelador na política em que o discurso deixa de ser apenas estratégia eleitoral e passa a soar quase como confissão emocional. Foi exatamente essa sensação produzida pelo vídeo recente da senadora Soraya Thronicke circulando nas redes sociais. Ali, talvez sem perceber, a parlamentar acabou oferecendo ao eleitor sul-mato-grossense muito mais do que uma simples fala política: entregou uma espécie de retrato involuntário da confusão ideológica, emocional e eleitoral que tomou conta da corrida ao Senado em Mato Grosso do Sul para 2026.

E é justamente aí que começa este grande espetáculo tragicômico da política regional. Poucas personagens da política sul-mato-grossense atravessaram tantas fronteiras ideológicas em tão pouco tempo quanto Soraya. Eleita em 2018 surfando na onda bolsonarista — talvez “surfando” seja mesmo o verbo mais adequado, já que jamais pareceu propriamente uma formuladora do movimento, mas alguém suficientemente habilidosa para identificar onde estava a onda mais alta —, a senadora agora se bate nas águas pela sobrevivência política exatamente ao lado do campo que ajudou a combater nos tempos mais histéricos da polarização nacional.

Sua inesperada filiação ao PSB, praticamente na undécima hora da janela partidária, teve menos cheiro de conversão ideológica e mais aroma de bote salva-vidas lançado em mar revolto. Uma operação articulada nacionalmente, com aval de setores importantes do governo Lula e do entorno de Geraldo Alckmin, interessadíssimos em construir no Mato Grosso do Sul uma candidatura minimamente competitiva para enfrentar o avanço conservador no Estado.

O problema é que a política brasileira até aceita oportunismo. O que ela raramente perdoa é incoerência mal explicada. E talvez seja exatamente esse o drama atual de Soraya Thronicke.

Para o bolsonarismo raiz, ela virou símbolo clássico da traição. Para setores progressistas, continua sendo observada com aquela desconfiança típica reservada aos recém-convertidos que chegam trazendo ainda na roupa o cheiro do antigo altar ideológico. No fundo, Soraya parece hoje presa naquele território politicamente pantanoso onde o sujeito já não pertence mais ao mundo de onde saiu, mas ainda não foi plenamente aceito no novo ambiente para onde correu.

E o mais curioso é que o vídeo praticamente deixa isso escapar nas entrelinhas. Há algo de defensivo em sua fala. Quase como quem tenta explicar ao eleitor não apenas uma mudança partidária, mas uma mudança de identidade política. E identidade, na política, talvez seja muito mais difícil de reconstruir do que simplesmente trocar de legenda.

Enquanto isso, ao redor dela, o tabuleiro estadual começa silenciosamente a se reorganizar.

Vander Loubet observa a movimentação com interesse quase obrigatório. O PT sul-mato-grossense sabe que dificilmente chegará competitivo ao Senado sozinho num Estado estruturalmente conservador. Soraya, gostem ou não os petistas históricos, oferece algo que o lulismo regional tem enorme dificuldade de produzir: diálogo fora da bolha militante tradicional. A aproximação entre os dois nasce menos de afinidade programática e mais de necessidade eleitoral mútua. Ela precisa desesperadamente de um novo campo político para sobreviver; o PT precisa de alguém capaz de conversar com eleitores que jamais votariam espontaneamente num candidato petista clássico.

Do outro lado do campo, Reinaldo Azambuja talvez assista a tudo isso tentando esconder um incômodo crescente. Ao trocar o PSDB pelo PL bolsonarista, imaginava provavelmente consolidar-se como nome natural da direita estadual. Mas o movimento produziu um efeito colateral delicado: perdeu parte do eleitor moderado sem necessariamente conquistar integralmente o bolsonarismo mais emocional, aquele que continua olhando para Capitão Contar e Marcos Pollon com muito mais entusiasmo militante.

E talvez seja justamente nesse ambiente de fadiga ideológica coletiva que Nelsinho Trad vá crescendo silenciosamente.

Enquanto Soraya tenta explicar sua travessia política e Azambuja procura reorganizar a direita sem perder o controle da própria candidatura, o senador do PSD ocupa um espaço menos barulhento, mais previsível e emocionalmente menos desgastante para um eleitorado já cansado dessa espécie de guerra religiosa permanente entre extremos ideológicos.

No fundo, porém, talvez o mais fascinante desse cenário seja justamente a velocidade com que convicções passaram a ser substituídas por instintos de sobrevivência eleitoral.

O Mato Grosso do Sul que durante décadas possuía fronteiras políticas relativamente previsíveis agora observa:

  • ex-bolsonaristas abraçando antigos adversários;
  • tucanos vestindo o figurino do bolsonarismo;
  • petistas construindo alianças improváveis;
  • e candidatos tentando ocupar um centro emocional cada vez mais órfão de representação.

Tudo isso diante de um eleitor que parece assistir ao espetáculo com crescente perplexidade. Porque talvez a grande pergunta de 2026 já não seja mais quem é de direita ou de esquerda. A dúvida verdadeira talvez seja outra: quem ainda consegue convencer o eleitor de que acredita genuinamente naquilo que diz defender?

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