Existe algo profundamente brasileiro — e talvez até mais feudal do que republicano — na figura do dirigente que permanece tanto tempo no poder que acaba se confundindo com a própria instituição. O sujeito entra presidente… e décadas depois já não se sabe exatamente se ele representa a entidade ou se a entidade passou a existir para representá-lo. Foi exatamente essa sensação que me atravessou a notícia de mais uma marcha dos prefeitos a Brasília, como parte de um Congresso de prefeitos que começou nesta segunda-feira, com o quase eterno Paulo Ziulkoski presidindo a Confederação Nacional de Municípios, a famosa CNM, organizadora do evento.
E aí vem a pergunta inevitável, quase filosófica: como alguém consegue permanecer tanto tempo presidindo uma confederação de prefeitos… sem ser prefeito há mais de vinte anos?
E talvez a coisa seja ainda mais impressionante do que parece à primeira vista. Minha memória jornalística puxou imediatamente uma cena de 1983, durante um congresso de prefeitos em Itapema, Santa Catarina. Ziulkoski já circulava ali como figura central do municipalismo brasileiro, muito antes inclusive de se tornar prefeito de Mariana Pimentel, no Rio Grande do Sul, cargo que ocuparia apenas nos anos 1990 e início dos anos 2000. Formalmente, assumiria a presidência nacional da CNM em 1997, onde permanece até hoje, com pequenas pausas estratégicas entre um mandato e outro. Ou seja: o homem já era liderança dos prefeitos antes mesmo de virar prefeito. Em termos políticos, é quase como se alguém ainda presidisse um centro acadêmico desde os tempos do mimeógrafo, do fax e da máquina de escrever Olivetti.
E o mais curioso é que isso já não espanta quase ninguém. Talvez porque o Brasil tenha se acostumado perigosamente às pequenas monarquias corporativas espalhadas por todos os cantos da vida pública. Basta olhar em volta. Aqui mesmo em Dourados e no Mato Grosso do Sul. Há sindicatos patronais onde o presidente dura mais que casamento de avó italiana. Entidades de trabalhadores onde o dirigente já atravessou gerações inteiras sem jamais largar a cadeira. Federações comerciais transformadas em verdadeiras capitanias hereditárias. Conselhos, confederações, associações e cooperativas administradas por personagens que parecem ter descoberto o segredo biológico da eternidade institucional.
E quase sempre acontece o mesmo fenômeno psicológico: depois de certo tempo, a pessoa deixa de apenas ocupar o cargo. Passa a acreditar sinceramente que é o próprio cargo.
No caso de Ziulkoski, há um componente especialmente fascinante. A CNM representa prefeitos em exercício. Gestores municipais submetidos ao voto popular, às urnas e ao desgaste diário da administração pública. Mas seu principal comandante transformou-se numa espécie de profissional do municipalismo sem município. Um prefeito metafísico da República Federativa das Entidades Permanentes.
Claro, seria intelectualmente desonesto ignorar sua enorme capacidade política. Ziulkoski ajudou a transformar a Marcha dos Prefeitos numa poderosa ferramenta de pressão federativa em Brasília, consolidou pautas importantes do municipalismo e construiu influência respeitada dentro do Congresso Nacional e junto aos governos federais. O problema talvez seja justamente esse: capacidade demais concentrada durante tempo demais nas mesmas mãos.
Porque instituições saudáveis costumam produzir alternância natural de liderança. E talvez aí esteja uma das deformações mais silenciosas da cultura política brasileira: nossa dificuldade histórica de separar liderança forte de permanência eterna.
No Brasil frequentemente admiramos o dirigente que “não larga o osso” como se isso fosse demonstração automática de competência. Confundimos longevidade com indispensabilidade. E assim vamos naturalizando fenômenos curiosíssimos:
sindicatos presididos há décadas pelos mesmos sobrenomes; federações empresariais administradas quase como patrimônio familiar; entidades de classe onde a oposição envelhece sem jamais chegar perto da cadeira principal; confederações funcionando mais como reinados administrativos do que ambientes republicanos.
Em muitas cidades interioranas isso atinge níveis quase folclóricos. Há sindicatos patronais e laborais onde o presidente já atravessou quatro moedas, seis presidentes da República, duas gerações de comerciantes e metade dos casamentos da cidade. E segue firme. Às vezes o sujeito já nem representa mais a categoria. Representa apenas a própria sobrevivência institucional.
O mais curioso é que a tecnologia, as redes sociais e a modernização da comunicação mudaram quase tudo na política brasileira — menos isso. A cultura da presidência eterna sobrevive bravamente. Talvez porque essas estruturas funcionem em ambientes de baixa participação, pouca renovação e escassa fiscalização pública. O eleitor acompanha obsessivamente eleições para prefeito, governador e presidente, mas raramente sabe quem controla os bastidores das entidades corporativas que movimentam bilhões em influência política e econômica.
E talvez seja justamente aí que mora a verdadeira perplexidade. Porque os brasileiros discutem apaixonadamente renovação política enquanto convivem silenciosamente com pequenas aristocracias institucionais incrivelmente resistentes ao tempo. Estruturas que se perpetuam não necessariamente pela força explícita, mas pela acomodação coletiva. Quando todos se acostumam demais ao mesmo rosto no comando, a exceção passa lentamente a parecer normalidade.
No fundo, Paulo Ziulkoski talvez seja menos uma aberração isolada e mais um símbolo profundamente brasileiro. O símbolo de um país que adora discursar sobre renovação… desde que ela não ameace cadeiras ocupadas há muito tempo.
