Não tenho nada que me prenda verdadeiramente por aqui. Não tenho filhos, nem mulher, nem uma casa cheia de vozes me esperando. Nunca pensei em construir isso. A vida foi me levando por outros corredores, outras urgências, outras curiosidades. E, quando me dei conta, os anos já haviam passado como trens vistos da plataforma.
Os amigos continuam sendo os de antes. Alguns casados, outros descasados, outros simplesmente cansados. Ainda nos encontramos de vez em quando em torno de uma cerveja, como sobreviventes discretos de uma época que desapareceu sem pedir licença. Rimos das mesmas histórias, repetimos frases antigas, falamos dos que já partiram. Porque preciso admitir: alguns já atravessaram para o outro lado da margem. A cada ano, nossa pequena tribo diminui um pouco mais. Mesmo assim, seguimos em frente, teimosamente vivos, como árvores antigas resistindo ao vento.
E eu me pergunto: por quais caminhos andar agora?
Não tenho vontade de viajar apenas para dizer que viajei. Os aeroportos parecem formigueiros humanos, os lugares turísticos estão superlotados, transformados em vitrines para fotografias rápidas e memórias descartáveis. Tudo parece excessivo, barulhento, acelerado demais. Tá uma coisa danada.
Às vezes me pego falando sozinho. Converso comigo mesmo no silêncio da casa, no meio da rua, diante do espelho. Talvez seja coisa da idade. Embora eu não me considere velho. Velho, para mim, é quem perdeu a curiosidade. E isso ainda não aconteceu comigo. Carrego, ao contrário, uma inquietação permanente, quase infantil. Tenho uma certa experiência da vida, é verdade, mas continuo olhando o mundo com perguntas nos olhos.
Sempre fui curioso. Talvez pudesse ter sido — ou ainda possa ser — um jornalista investigativo daqueles antigos, que gastavam sola de sapato, atravessavam fronteiras e voltavam com histórias capazes de incomodar governos e despertar consciências. Mas hoje tudo parece diferente. Como pagar viagens, hotéis, deslocamentos, pesquisas, se quase ninguém mais compra reportagens? A internet devorou o tempo das apurações longas. As redes sociais transformaram todo mundo em especialista. Todos opinam, todos sabem, todos julgam. E a velha arte da investigação parece cada vez mais sem lugar neste mundo de velocidade e ruído.
Investigar corrupção ligada às máfias do tráfico não me seduz. É um território sombrio demais, perigoso demais. E, sinceramente, ainda estou jovem para morrer. Sim, aos setenta anos, hoje em dia ainda se pode dizer isso sem ironia. Setenta já não é mais o fim de nada; talvez seja apenas outra curva da estrada.
Então o que fazer?
Às vezes penso em trabalhar como investigador privado. Há algo de literário nisso: procurar pessoas desaparecidas, seguir rastros, ouvir histórias interrompidas. A profissão, afinal, tornou-se regulamentada. Basta ter mais de dezoito anos, ensino médio completo, nenhuma ficha criminal e plena capacidade civil. Tão simples no papel.
Os investigadores podem cuidar de casos conjugais, fraudes empresariais, localização de pessoas. E devo admitir que a ideia de localizar alguém desaparecido me intriga profundamente. Há um certo mistério humano nisso. Encontrar alguém é quase desenterrar uma memória perdida do mundo.
Mas, no fundo, sei que ainda não é exatamente isso que procuro.
O que eu gostaria mesmo era de continuar a investigar. Não pelo escândalo, não pela denúncia vazia, mas pela possibilidade rara de compreender o que se esconde atrás das aparências. Continuo acreditando que cada pessoa carrega uma história secreta, esconde verdades silenciosa.
Talvez seja isso que ainda me mantém vivo: essa vontade de procurar.
A vida na vontade de procurar
Não tenho nada que me prenda verdadeiramente por aqui. Não tenho filhos, nem mulher, nem uma casa cheia de vozes me esperando. Nunca pensei em construir isso. A vida foi me levando por outros corredores, outras urgências, outras curiosidades. E, quando me dei conta, os anos já haviam passado como trens vistos da plataforma.
Os amigos continuam sendo os de antes. Alguns casados, outros descasados, outros simplesmente cansados. Ainda nos encontramos de vez em quando em torno de uma cerveja, como sobreviventes discretos de uma época que desapareceu sem pedir licença. Rimos das mesmas histórias, repetimos frases antigas, falamos dos que já partiram. Porque preciso admitir: alguns já atravessaram para o outro lado da margem. A cada ano, nossa pequena tribo diminui um pouco mais. Mesmo assim, seguimos em frente, teimosamente vivos, como árvores antigas resistindo ao vento.
E eu me pergunto: por quais caminhos andar agora?
Não tenho vontade de viajar apenas para dizer que viajei. Os aeroportos parecem formigueiros humanos, os lugares turísticos estão superlotados, transformados em vitrines para fotografias rápidas e memórias descartáveis. Tudo parece excessivo, barulhento, acelerado demais. Tá uma coisa danada.
Às vezes me pego falando sozinho. Converso comigo mesmo no silêncio da casa, no meio da rua, diante do espelho. Talvez seja coisa da idade. Embora eu não me considere velho. Velho, para mim, é quem perdeu a curiosidade. E isso ainda não aconteceu comigo. Carrego, ao contrário, uma inquietação permanente, quase infantil. Tenho uma certa experiência da vida, é verdade, mas continuo olhando o mundo com perguntas nos olhos.
Sempre fui curioso. Talvez pudesse ter sido — ou ainda possa ser — um jornalista investigativo daqueles antigos, que gastavam sola de sapato, atravessavam fronteiras e voltavam com histórias capazes de incomodar governos e despertar consciências. Mas hoje tudo parece diferente. Como pagar viagens, hotéis, deslocamentos, pesquisas, se quase ninguém mais compra reportagens? A internet devorou o tempo das apurações longas. As redes sociais transformaram todo mundo em especialista. Todos opinam, todos sabem, todos julgam. E a velha arte da investigação parece cada vez mais sem lugar neste mundo de velocidade e ruído.
Investigar corrupção ligada às máfias do tráfico não me seduz. É um território sombrio demais, perigoso demais. E, sinceramente, ainda estou jovem para morrer. Sim, aos setenta anos, hoje em dia ainda se pode dizer isso sem ironia. Setenta já não é mais o fim de nada; talvez seja apenas outra curva da estrada.
Então o que fazer?
Às vezes penso em trabalhar como investigador privado. Há algo de literário nisso: procurar pessoas desaparecidas, seguir rastros, ouvir histórias interrompidas. A profissão, afinal, tornou-se regulamentada. Basta ter mais de dezoito anos, ensino médio completo, nenhuma ficha criminal e plena capacidade civil. Tão simples no papel.
Os investigadores podem cuidar de casos conjugais, fraudes empresariais, localização de pessoas. E devo admitir que a ideia de localizar alguém desaparecido me intriga profundamente. Há um certo mistério humano nisso. Encontrar alguém é quase desenterrar uma memória perdida do mundo.
Mas, no fundo, sei que ainda não é exatamente isso que procuro.
O que eu gostaria mesmo era de continuar a investigar. Não pelo escândalo, não pela denúncia vazia, mas pela possibilidade rara de compreender o que se esconde atrás das aparências. Continuo acreditando que cada pessoa carrega uma história secreta, esconde verdades silenciosa.
Talvez seja isso que ainda me mantém vivo: essa vontade de procurar.
- Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
