Valfrido Silva
A morte de Marcelo Miranda Soares, aos 87 anos, nesta terça-feira, fez-me recordar uma conversa que tive com ele há mais de quatro décadas, numa mesa do antigo Caneca, ao lado da Praça Antônio João. Na época, eu produzia um programa da TV Morena e o governador havia chegado de surpresa a Dourados para a gravação de uma reportagem. Entre um compromisso e outro, tomando café, revelou uma frustração que carregava em relação à cidade. Não era uma queixa política, não falava de adversários nem de eleições. Falava de urbanismo. Falava de futuro. Falava de uma oportunidade que Dourados estava deixando escapar.
Naqueles primeiros anos de Mato Grosso do Sul, Marcelo Miranda integrava o esforço de construção de um Estado recém-criado, concebido dentro do grande projeto desenvolvimentista que acompanhou a redivisão territorial promovida pelo regime militar. Havia uma preocupação com planejamento, infraestrutura e ocupação racional dos espaços urbanos. E foi nesse contexto que surgiu uma proposta que, guardadas as proporções, lembrava o que mais tarde se consolidaria em Campo Grande com o Parque dos Poderes.
A ideia era concentrar no Parque Arnulpho Fioravante a Prefeitura, a Câmara Municipal e o Fórum. Um centro administrativo planejado para acompanhar o crescimento da cidade, oferecendo espaço, acessibilidade, estacionamento e condições para futuras ampliações. Hoje a proposta parece óbvia. Naquele momento, porém, encontrou resistência.
Segundo me contou o próprio governador, a principal oposição partiu de um influente grupo de advogados que mantinha escritórios nas proximidades do Fórum, na região central. O argumento era simples: o novo complexo ficaria distante do centro e dificultaria a rotina dos operadores do Direito. Marcelo ouviu os argumentos, mas não escondia a decepção. Considerava que a cidade estava sacrificando décadas de planejamento em nome de uma conveniência imediata.
Lembro-me perfeitamente da expressão que utilizou naquela conversa, sem pedir segredo e sem demonstrar qualquer preocupação diplomática: “visão mesquinha”. Era a avaliação de um engenheiro acostumado a pensar espaços urbanos, não apenas ruas e prédios. Marcelo enxergava uma Dourados muito maior do que a daquele momento. Talvez por isso tenha se frustrado tanto.
O destino não lhe daria tempo para insistir na ideia. Seu primeiro mandato como governador nomeado foi interrompido poucos meses depois pela volta de Pedro Pedrossian ao comando do Estado. Quando retornou ao governo, já pelo voto popular, em 1987, as circunstâncias haviam mudado e a discussão seguiu outros caminhos.
Passadas tantas décadas, é impossível não perceber que havia fundamento em suas preocupações. A Prefeitura acabou instalada em um prédio que enfrenta questionamentos até hoje. A Câmara Municipal passou anos peregrinando por diferentes endereços antes de adquirir sua sede atual, que também exigiu adaptações, reformas e investimentos adicionais. O Fórum tornou-se pequeno para as necessidades da Justiça, tanto que agora o Tribunal de Justiça negocia uma nova área para a construção de uma sede muito mais distante do centro do que aquela imaginada por Marcelo Miranda nos anos 1980.
Em vez de concentrar os três poderes municipais numa área ampla e planejada, a cidade optou por espalhá-los. O resultado está diante de todos: estruturas fragmentadas, dificuldades de expansão e custos que se acumulam ao longo do tempo. Não se trata de afirmar que Marcelo Miranda estivesse certo em tudo. Nenhum governante está. Mas é difícil não reconhecer que, naquele episódio, sua visão alcançava mais longe do que a de muitos de seus contemporâneos.
Talvez por isso essa lembrança tenha voltado com tanta força ao receber a notícia de sua morte. Os jornais registrarão seus mandatos, suas obras e sua trajetória política. Tudo isso é justo. Eu preferi recordar aquele café no Caneca e a conversa de um governador frustrado porque Dourados não conseguia enxergar o futuro que ele via com tanta clareza.
O mais curioso é que a história continua atual. Ainda hoje assistimos a obras públicas concebidas para atender interesses imediatos, avenidas que ligam o nada a lugar nenhum, viadutos erguidos onde o fluxo mal os justifica e decisões urbanísticas tomadas mais para valorizar negócios do que para organizar cidades. Mudam os personagens, mudam os governos, mas a disputa entre planejamento e conveniência permanece a mesma.
Marcelo Miranda pertence agora à história de Mato Grosso do Sul. Mas, ao menos para este insubordinado do jornalismo, sua melhor lembrança continua sendo a daquele café em Dourados, quando um governador enxergou uma cidade que ainda não existia e lamentou que poucos fossem capazes de enxergá-la junto com ele.
