19.1 C
Dourados
segunda-feira, junho 22, 2026

Misantropia digital

Num país em que ninguém acredita em ninguém, talvez o maior ataque não tenha sido ao sistema, mas à confiança

- Publicidade -

Valfrido Silva

Confesso que precisei recorrer ao dicionário. Misantropia. Palavra bonita, dessas que costumam aparecer mais em livros do que em conversas de padaria do fuxico ou na sauna do Indaiá. Significa aversão, desconfiança ou desprezo pelo convívio humano. Traduzindo para o português contemporâneo, especialmente o brasileiro: redes sociais.

A semana passada terminou com um episódio que deveria ter causado mais preocupação do que causou. Um gigantesco ataque cibernético atingiu sistemas governamentais, expondo mais uma vez a vulnerabilidade de estruturas que guardam informações estratégicas de milhões de pessoas. Em qualquer democracia madura, a pergunta imediata seria como reforçar a segurança. No Brasil de 2026, porém, a primeira reação foi outra: descobrir de que lado veio o ataque.

E aí reside o problema. Vivemos uma época em que os fatos já não chegam desacompanhados de torcida organizada. Antes mesmo de se conhecerem autores, motivações ou objetivos, metade do país já procura culpados do lado de lá. A outra metade faz exatamente a mesma coisa. A investigação mal começou e os julgamentos já foram concluídos.

Talvez seja esse o efeito mais devastador da polarização. Não a divergência política, que sempre existiu e continuará existindo. Democracias vivem dela. O problema surge quando a divergência se transforma em desconfiança permanente. Quando toda notícia passa a ser interpretada como arma. Quando toda tragédia precisa ter um beneficiário político. Quando todo acontecimento deixa de ser um fato para se tornar uma peça de campanha.

A pergunta que deveria nos preocupar não é quem atacou primeiro. É por que chegamos ao ponto em que ninguém acredita em ninguém.

Quem está no poder desconfia de quem quer voltar. Quem perdeu desconfia de quem governa. Quem vota desconfia de quem apura. Quem informa desconfia de quem lê. Quem lê desconfia de quem informa. Aos poucos, a misantropia deixou os livros de filosofia para se instalar definitivamente na praça pública.

O fenômeno não é brasileiro. Basta olhar para o que acontece em várias partes do planeta. A violência política cresce. Os discursos se radicalizam. As redes sociais transformam adversários em inimigos existenciais. E a tecnologia, que prometia aproximar pessoas, parece cada vez mais especializada em separá-las.

Nesse ambiente, um ataque cibernético deixa de ser apenas um problema técnico. Transforma-se imediatamente em munição política. Não importa o que aconteceu. Importa quem conseguirá explorar melhor o acontecimento.

Talvez seja justamente aí que os autores desses ataques encontrem seu maior triunfo. Não no sistema invadido. Não nos dados comprometidos. Mas na certeza de que a sociedade já está suficientemente dividida para fazer o resto sozinha.

Afinal, quando a confiança desaparece, nem sempre é preciso derrubar as instituições. Muitas vezes basta convencer as pessoas de que elas já caíram.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-