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quarta-feira, junho 24, 2026

O complexo de vira-lata de brasileiros

A Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos tem sido um festival de desorganização, hostilidade e violência. E, ainda assim, muitos brasileiros insistem em tratar o país como exemplo de eficiência.

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Anita Tetslaff *

Se o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan fosse barrado no Aeroporto de Guarulhos, a imprensa internacional chamaria o Brasil de xenófobo. Se a van da seleção da Inglaterra fosse furtada em solo nacional, a indignação seria geral. Se um tiroteio ocorresse perto da concentração de alguma delegação estrangeira, o país seria tratado como um Estado falido. No entanto, quando esses episódios acontecem nos Estados Unidos, a reação é um silêncio constrangedor ou, pior, uma naturalização disfarçada de “rigor necessário”. A Copa de 2026 expõe não apenas as fragilidades da superpotência, mas também o complexo de vira-lata que ainda assola o pensamento brasileiro.

Nos Estados Unidos, atletas do Irã são proibidos de dormir em solo americano e forçados a uma logística desgastante entre Tijuana e as cidades-sede. Omar Artan, eleito o melhor árbitro da África em 2025, foi barrado em Miami e cortado da FIFA sob alegação de “segurança nacional”. O iraquiano Aymen Hussein passou sete horas em interrogatório no Aeroporto de Chicago. A seleção uruguaia teve suas malas revistadas por cães farejadores na calçada do Hard Rock Stadium.

Imagine o cenário inverso. Em 2014, o Brasil recebeu delegações de 32 países com relativa normalidade. Não houve revista de pertences na calçada, nem interrogatórios de jogadores, nem proibições de concentração em solo nacional. A Fifa, que é implacável com o Brasil, não registrou uma única reclamação oficial sobre o tratamento a atletas estrangeiros. E, no entanto, a memória que ficou foi a de aeroportos tumultuados e obras atrasadas, não a de hospitalidade.

O sociólogo Jessé Souza, em sua obra A Elite do Atraso, argumenta que a classe média brasileira construiu uma identidade baseada na “imitação do americano”, um processo que chamou de “colonialismo interno”. Para ele, o brasileiro médio tende a superestimar a eficiência de países do Norte Global enquanto subestima brutalmente sua própria capacidade de resolver problemas complexos.

Nesse contexto, os incidentes da Copa de 2026 deveriam ser um choque de realidade para aqueles que ainda veem os Estados Unidos como a nação mais preparada do mundo, já que o país anfitrião mostrou-se incapaz de garantir a segurança básica de uma delegação estrangeira. Em 2014, o Brasil sofreu críticas severas por atrasos em obras e problemas de infraestrutura. Eram críticas justas. A diferença é que, no Brasil, cada falha vira manchete internacional; nos Estados Unidos, vira nota de rodapé.

A Copa de 2014 teve seus problemas a exemplo do Itaquerão que ficou pronto em cima da hora, os transportes públicos em algumas cidades deixaram a desejar, e houve protestos contra os gastos públicos. No entanto, o Brasil realizou 64 partidas sem incidentes de segurança graves, recebeu mais de 1 milhão de turistas estrangeiros e viu suas cidades-sede serem elogiadas pela atmosfera festiva.

A Fifa, em seu relatório pós-evento, classificou a Copa de 2014 como “um dos torneios mais bem organizados da história”, citando a “hospitalidade calorosa do povo brasileiro” como um diferencial positivo. O relatório mencionou ainda a “excelente coordenação entre as autoridades locais e a Fifa” para a segurança dos eventos.

Em comparação a atual, antes mesmo do torneio começar, a Fifa já havia emitido notas oficiais preocupadas com o tratamento a delegações e com a segurança. A diferença não é de capacidade técnica, é de espírito. O Brasil, com todas as suas limitações, acolheu. Os Estados Unidos, com todo o seu poderio, desconfiam.

A imprensa brasileira, que em 2014 não poupava críticas à organização nacional, tem tratado os episódios nos Estados Unidos com uma leveza constrangedora. O jornalista Juca Kfouri, em sua coluna na UOL, observou que “há uma complacência explícita com os erros americanos que jamais seria concedida ao Brasil”.

Esse tratamento diferenciado alimenta o que o antropólogo Roberto DaMatta chamou de “o brasileiro como ser cordial, mas complexado”, uma nação que se curva diante do estrangeiro, especialmente do americano, e que tem dificuldade de reconhecer seus próprios acertos.

O termo “vira-lata”, cunhado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, descreve a tendência do brasileiro de menosprezar sua própria cultura e exaltar a estrangeira. Na Copa de 2026, esse fenômeno se manifesta de forma curiosa quando brasileiros assistem, perplexos, a uma superpotência cometendo erros que seriam inaceitáveis em casa, mas hesitam em criticar.

A resposta para tudo isso está na construção histórica de uma hierarquia global que coloca o Norte como centro e o Sul como periferia. Para o sociólogo Boaventura de Sousa Santos trata-se da falta de capacidade do Sul de se enxergar como protagonista. Para ele, o Brasil internalizou a ideia de que seus feitos são menores, mesmo quando os fatos mostram o contrário.

Em 2014, o Brasil provou que é possível organizar um evento global com eficiência e calor humano. Em 2026, os Estados Unidos estão provando que poderio militar e econômico não se traduzem automaticamente em organização e hospitalidade.

O brasileiro precisa, urgentemente, abandonar o complexo de vira-lata. Não para se sentir superior, mas para enxergar a realidade sem distorções. Os Estados Unidos não são melhores em tudo. O Brasil não é pior em tudo. E, na Copa de 2026, essa verdade está mais evidente do que nunca.

(*)Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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