Valfrido Silva
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Mato Grosso do Sul nesta quinta-feira tem tudo para produzir imagens políticas interessantes. Oficialmente, ele vem entregar títulos definitivos a famílias do Assentamento Itamarati, em Ponta Porã, e participar da entrega das obras de modernização dos aeroportos de Campo Grande, Corumbá e da própria cidade fronteiriça. Na prática, porém, a agenda reserva um componente histórico que vai muito além dos atos administrativos previstos para o dia. Ao desembarcar no Itamarati, Lula estará retornando a uma das mais ousadas e emblemáticas experiências de reforma agrária já realizadas no Brasil, um projeto que atravessou governos, crises econômicas, mudanças políticas e mais de duas décadas de transformações no campo brasileiro.
Para entender o significado da visita, é preciso voltar no tempo. Muito antes de se tornar um dos maiores assentamentos rurais do país, a área era conhecida como Fazenda Itamarati, um gigantesco empreendimento agrícola pertencente ao empresário Olacyr de Moraes, o lendário “Rei da Soja”. Nos anos 1980 e 1990, a propriedade se transformou em símbolo da modernização agrícola brasileira. Ali se cultivava em escala industrial, utilizando tecnologia de ponta para a época e ajudando a consolidar a expansão do agronegócio no Centro-Oeste. O império de Olacyr, no entanto, acabaria sucumbindo ao peso das dívidas e das turbulências econômicas que marcaram aquele período.
Foi nesse contexto que surgiu uma das mais ambiciosas iniciativas de reforma agrária da história recente do país. A partir dos primeiros governos petistas, a antiga fazenda começou a ser transformada em assentamento rural, recebendo milhares de famílias e dando origem ao que viria a ser o Assentamento Itamarati, hoje com mais de 50 mil hectares e cerca de 2.800 famílias assentadas. O projeto nasceu cercado de dúvidas, críticas e desconfianças. Havia quem considerasse impossível transformar uma área daquela dimensão numa experiência viável de agricultura familiar. Outros apontavam riscos econômicos e sociais. Lula, no entanto, decidiu bancar politicamente a iniciativa.
Mais de vinte anos depois, o presidente da República retorna para conferir o resultado da aposta. E faz isso em circunstâncias que tornam a visita ainda mais simbólica. Mato Grosso do Sul é hoje um dos estados onde o bolsonarismo encontrou terreno mais fértil. A região de Ponta Porã e da fronteira abriga um dos mais dinâmicos polos do agronegócio brasileiro. Ainda assim, bem no coração desse território conservador, permanece uma das maiores marcas das políticas de reforma agrária implementadas pelos governos petistas.
É difícil não enxergar paralelos com outra obra frequentemente associada à trajetória política de Lula: a transposição do Rio São Francisco. Assim como ocorreu no Nordeste, o projeto atravessou governos, foi alvo de disputas políticas, recebeu investimentos complementares e até tentativas de apropriação por adversários. Mas ninguém consegue contar sua história sem voltar ao momento em que a iniciativa foi concebida e colocada em prática. Com o Itamarati acontece algo semelhante. Pode-se discutir seus resultados, suas dificuldades e seus desafios permanentes. O que não se pode negar é que sua origem está diretamente ligada a uma decisão política tomada nos primeiros anos dos governos petistas.
Por isso, a cerimônia desta quinta-feira não será apenas mais uma entrega de títulos fundiários. Nem apenas uma agenda administrativa acompanhada de anúncios sobre aeroportos e infraestrutura. Será também o reencontro de Lula com uma obra que leva sua assinatura política e que continua em construção. Porque a reforma agrária brasileira tem uma característica singular: ela nunca termina. Distribuir a terra pode levar alguns meses. Transformar essa terra em prosperidade, estabilidade econômica e sucessão familiar costuma levar décadas. E é justamente isso que o presidente encontrará ao voltar ao Itamarati: não um projeto concluído, mas uma história ainda em andamento.
