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segunda-feira, julho 6, 2026

Há derrotas que eliminam seleções. Outras eliminam épocas

Ao cair diante da Noruega, o Brasil não perdeu apenas uma vaga nas quartas de final; perdeu mais uma oportunidade de reconciliar a camisa amarela com a memória de Pelé, Garrincha, Rivelino, Sócrates, Ronaldinho, Ronaldo e até Neymar, se fosse apenas para não perder a rima

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Valfrido Silva

Há derrotas que eliminam seleções. Outras parecem eliminar épocas. Quando o juiz apitou o fim do jogo entre Brasil e Noruega, neste domingo, nas oitavas de final da Copa do Mundo, o que doeu não foi apenas o placar. Foi a sensação incômoda de que a camisa amarela, aquela que um dia entrava em campo carregando uma espécie de destino histórico, voltou para casa antes da hora, vencida por um adversário que fez o básico, remou muito, cansou menos e, ao contrário da nossa piada de véspera, não morreu na praia.

Quem morreu na praia fomos nós.

E aí a memória, essa comentarista cruel, começou a escalar sozinha os seus fantasmas. Veio Pelé, o rei, aquele que transformava o impossível em rotina. Veio Garrincha, o anjo das pernas tortas, que antes de driblar os russos queria apenas saber se eles combinariam de ficar parados. Veio Rivelino, com sua patada de canhota e o bigode de quem parecia jogar irritado com a mediocridade. Veio Roberto Carlos, que fazia da lateral esquerda uma pista de decolagem. Veio o Doutor Sócrates, elegante até para errar, lembrando que futebol também podia pensar. Veio Ronaldinho Gaúcho, sorrindo como quem escondia a bola dentro da própria alegria. Veio Ronaldo Fenômeno, presença quase infalível quando o Brasil precisava de um gol e o mundo precisava de espanto. E veio até Neymar, se começasse como titular, nem que fosse apenas para não perder a rima.

O problema do futebol brasileiro é que ele acostumou mal o seu povo. Fez tantas gerações acreditarem que o extraordinário era normal que agora um bom jogador parece pouco, um time competitivo parece frio e uma eliminação nas oitavas soa como ofensa pessoal. Talvez não seja justo com os meninos de hoje. Mas ninguém veste impunemente uma camisa que já foi de Pelé, Garrincha, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Há heranças que inspiram. Outras pesam como chumbo molhado.

A Noruega não precisou inventar o futebol. Bastou respeitá-lo. Fez o jogo que precisava fazer, explorou nossas hesitações, administrou o próprio fôlego e, no momento em que o Brasil precisava ser Brasil, encontrou pela frente apenas uma seleção tentando lembrar quem já foi. Os noruegueses remaram. Mas quem ficou à deriva fomos nós.

Talvez seja essa a pior parte. O Brasil não perdeu porque lhe faltou camisa. Perdeu porque a camisa, sozinha, já não resolve. Não basta cantar o hino com a mão no peito, invocar a tradição, lembrar os cinco títulos e esperar que a história entre em campo para jogar no lugar dos vivos. A história ajuda, mas não marca gol. A tradição pesa, mas não recompõe defesa. A memória emociona, mas não organiza meio-campo.

Quando o futebol brasileiro perde assim, a tentação é procurar um culpado imediato. O técnico, o centroavante, o goleiro, o VAR, o gramado, a escalação, a ausência de fulano, a presença de beltrano. Tudo isso rende conversa de bar, mesa-redonda e indignação instantânea nas redes sociais. Mas talvez a pergunta seja maior e mais incômoda: em que momento o Brasil deixou de produzir seleções capazes de assustar o adversário antes mesmo de a bola rolar?

A derrota para a Noruega não explica tudo. Mas escancara muito. Escancara que talento individual sem ideia coletiva vira lampejo. Escancara que camisa sem futebol vira figurino. Escancara que o passado, por mais glorioso, não tem obrigação de salvar o presente. E escancara, sobretudo, que a seleção brasileira precisa parar de administrar saudade e voltar a construir futuro.

Nelson Rodrigues diria que a pátria de chuteiras amanheceu descalça. João Saldanha provavelmente perguntaria quem escalou esse meio-campo. Tostão tentaria explicar, com serenidade mineira, os espaços que deixamos entre as linhas. Juca Kfouri lembraria que o futebol brasileiro não adoeceu ontem. E este velho torcedor, com a cervejeira devidamente abastecida e o coração em frangalhos, fica apenas com a imagem mais cruel da tarde: um Brasil eliminado por uma Noruega que remou até o fim enquanto nós esperávamos que algum fantasma vestido de amarelo resolvesse o jogo.

Não resolveu.

Pelé não entra mais. Garrincha não dribla mais. Rivelino não solta mais a bomba. Sócrates não levanta mais a cabeça no meio-campo. Ronaldinho não sorri mais com a bola no pé. Ronaldo não aparece mais na pequena área para transformar desespero em explosão. E Neymar, quando aparece, já carrega mais debate do que encantamento.

Sobrou a camisa.

E a camisa, coitada, já fez milagre demais.

O Brasil está fora da Copa. A Noruega segue. Os remadores passaram. Nós ficamos na areia, olhando para o mar e tentando entender como foi que a seleção que ensinou o mundo a jogar bola agora precisa reaprender, com urgência, a não depender tanto da própria memória.

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