Valfrido Silva
Ontem escrevi sob o impacto da frustração. Era inevitável. “Há derrotas que eliminam seleções. Outras eliminam épocas” nasceu muito mais do coração do que da razão. A emoção era grande demais para permitir qualquer distanciamento. Hoje, depois de uma noite de sono e de um café bem passado, continuo lamentando a eliminação do Brasil diante da Noruega. Mas agora enxergo com mais clareza aquilo que a paixão de torcedor insistia em esconder. O buraco é muito mais embaixo.
A Noruega não acabou com um sonho. Apenas retirou a tampa de uma caixa que o futebol brasileiro insiste em manter fechada há muito tempo. O resultado de ontem surpreendeu apenas quem ainda acredita que a camisa amarela continua vencendo partidas sozinha. Para quem acompanha minimamente a trajetória recente da Seleção, a eliminação era uma possibilidade concreta, embora emocionalmente inaceitável para qualquer brasileiro que aprendeu, desde criança, que Copa do Mundo é território natural do Brasil.
Chegou a hora de parar de discutir apenas quem será o próximo técnico. Carlo Ancelotti pode até permanecer. Aliás, talvez deva. O problema nunca foi apenas o homem que fica à beira do gramado. O problema está muito acima dele, nos andares refrigerados onde se administra o futebol brasileiro como se administrar uma das maiores paixões nacionais fosse apenas uma questão de contratos, patrocínios, camarotes, viagens, mordomias e balanços financeiros.
A reconstrução da Seleção começa pela reconstrução da CBF. E não falo de mais uma CPI destinada a produzir manchetes e terminar em pizza. Tampouco de tribunais ou disputas políticas que frequentemente transformam o interesse público em palco para vaidades privadas. O futebol brasileiro precisa, pela primeira vez em muitas décadas, submeter sua administração a uma auditoria verdadeiramente independente, conduzida por organismos respeitados da sociedade civil, capazes de abrir essa caixa-preta sem compromissos eleitorais, partidários ou corporativos. Transparência não é castigo. É pré-requisito para recuperar credibilidade.
Mas seria ingenuidade imaginar que basta trocar dirigentes. O problema é cultural. Perdemos, aos poucos, aquilo que sempre diferenciou a Seleção Brasileira das demais: a identificação com o seu próprio povo. Hoje assistimos a uma equipe formada, em sua imensa maioria, por jogadores que deixaram o Brasil ainda adolescentes. São atletas extraordinários, profissionais exemplares, milionários por mérito próprio. Não há culpa individual nisso. A culpa é de um sistema que exporta talentos antes mesmo de eles criarem raízes no futebol nacional.
Talvez esteja aí uma das explicações para a crescente dificuldade do torcedor em se reconhecer dentro da Seleção. Antigamente, o brasileiro via a Copa como extensão natural do campeonato que acompanhava o ano inteiro. Conhecia os jogadores porque os via jogar aos domingos. Sabia de onde vinham, por quais clubes haviam passado, quais rivalidades carregavam. Hoje muitos desembarcam para defender a camisa amarela praticamente desconhecidos do grande público. Vestem a camisa do Brasil, mas foram vistos muito mais em Liverpool, Madri, Manchester, Paris ou Milão do que no Maracanã, no Morumbi, na Arena do Grêmio, no Mineirão ou na Neo Química Arena.
Não seria o caso, evidentemente, fechar as fronteiras nem impedir que nossos craques brilhem no exterior. Seria um absurdo. Mas talvez tenha chegado a hora de discutir um modelo que devolva à Seleção parte da identidade perdida. Quem sabe fortalecer o calendário nacional, valorizar ainda mais os clubes formadores, criar mecanismos que aproximem novamente o torcedor da equipe que o representa. Não é caso de receitas prontas. Apenas perguntas que há muito deixamos de fazer.
Outra mudança precisa ocorrer na relação entre Seleção e compromisso. A camisa amarela nunca pagou os maiores salários do mundo. Seu valor sempre esteve justamente no contrário. Defender o Brasil significava um privilégio, não um contrato. Nos últimos anos, porém, ficou a sensação de que alguns jogadores chegam às convocações divididos entre a responsabilidade de representar um país inteiro e o receio compreensível de comprometer contratos milionários com seus clubes europeus. Não se questiona profissionalismo. Questiona-se prioridade.
Talvez seja por isso que a eliminação para a Noruega tenha provocado mais tristeza do que surpresa. O futebol brasileiro continua produzindo talentos extraordinários. O que deixou de produzir foi um projeto coletivo capaz de transformar talentos em uma Seleção inesquecível.
A Copa de 2030 começa hoje. Não quando a bola rolar daqui a quatro anos. Começa agora, na coragem de admitir que cinco estrelas bordadas na camisa já não bastam para intimidar adversários. Começa na humildade de reconhecer que o futebol mudou enquanto nós continuávamos acreditando que bastava lembrar Pelé, Garrincha, Rivelino, Sócrates, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho ou Neymar para que a História resolvesse entrar em campo outra vez. Ela não entra. Quem entra são onze jogadores.
E esses onze jogadores, por melhores que sejam, precisam de muito mais do que talento. Precisam de um projeto, de uma gestão, de uma identidade e, sobretudo, de uma causa capaz de fazê-los entender que vestir a camisa do Brasil nunca foi apenas disputar uma Copa do Mundo. Sempre foi representar um pedaço da alma de um país inteiro.
Ontem quem morreu na praia fomos nós. Hoje prefiro acreditar que ainda há tempo de aprender a remar, como nos ensinou a Noruega. Porque continuar esperando que a memória vença jogos sozinha é a forma mais rápida de chegar a 2030 e descobrir, mais uma vez, que a praia continua no mesmo lugar, mas o Brasil esqueceu como atravessar o mar.
