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quarta-feira, julho 8, 2026

Racha no bolsonarismo faz aflorar a firmeza de Michelle

Ao tentar desvincular Michelle Bolsonaro do sobrenome do marido, um dos mais influentes porta-vozes do bolsonarismo talvez tenha cometido o mais curioso ato falho político dos últimos tempos. E os reflexos dessa disputa podem chegar muito além de Brasília, inclusive à terra de seu Marcelino

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Valfrido Silva

A política às vezes costuma tropeçar no próprio vocabulário. Foi exatamente essa a sensação que tive ao ler a análise do colega Merval Pereira, na Folha de S.Paulo, sobre os movimentos que já começam a desenhar a sucessão presidencial de 2030. O presidente da Academia Brasileira de Letras observou que setores mais radicalizados do bolsonarismo passaram a chamar a ex-primeira-dama de “Michelle Firmo”, retomando seu sobrenome de solteira numa tentativa de desvinculá-la politicamente da família Bolsonaro. O detalhe curioso é que essa expressão não nasceu da pena de Merval. Foi utilizada por Paulo Figueiredo, um dos mais conhecidos porta-vozes do próprio bolsonarismo. Merval apenas registrou o fato. E foi justamente aí que o velho Aurélio resolveu pedir licença para entrar na campanha.

Porque “Firmo” não é apenas um sobrenome. Também é verbo. Também é adjetivo. É quem firma posição. Quem firma compromisso. Quem permanece firme quando o terreno começa a tremer. A tentativa de retirar dela o peso eleitoral do sobrenome Bolsonaro acabou produzindo, involuntariamente, um curioso elogio semântico. Há dias em que a língua portuguesa parece possuir mais senso de humor do que os próprios marqueteiros.

A ironia torna-se ainda maior porque esse movimento não partiu de um adversário da esquerda, nem de um editorial da velha imprensa, como gostam de dizer os bolsonaristas mais inflamados. Partiu de dentro da própria trincheira. Quando um grupo político começa a rebatizar um dos seus personagens mais conhecidos, é sinal de que a disputa deixou de ser apenas eleitoral. Passou a ser também simbólica. E guerras simbólicas costumam produzir feridas mais profundas do que os debates parlamentares.

Afinal, quem conhece melhor Jair Bolsonaro? Os influenciadores que diariamente falam em seu nome nas redes sociais ou a mulher que divide com ele a vida há tantos anos? A pergunta pode parecer doméstica, mas seus efeitos são profundamente políticos. Ninguém precisa concordar com Michelle Bolsonaro para reconhecer que sua convivência com o ex-presidente lhe confere uma autoridade que dificilmente será substituída por vídeos, postagens ou discursos inflamados. Isso não transforma Michelle em herdeira automática do espólio político do marido. Mas torna muito mais difícil descartá-la como pretendem alguns setores do próprio bolsonarismo.

É justamente aí que a análise deixa Brasília e desembarca na terra de seu Marcelino. Até aqui, bastava uma fotografia ao lado de Jair Bolsonaro para fortalecer candidaturas conservadoras em Mato Grosso do Sul. O sobrenome funcionava como selo de autenticidade ideológica. Agora, porém, a fotografia continua a mesma, mas o contexto mudou. Se a disputa interna ganhar corpo, candidatos identificados com o bolsonarismo inevitavelmente acompanharão a cada dia mais tensos um novo capítulo dessa novela familiar.

A questão interessa diretamente às lideranças que apostam nesse eleitorado. Reinaldo Azambuja, na disputa por uma vaga ao Senado, Rodolfo Nogueira, o “gordinho do Bolsonaro”, em busca da reeleição à Câmara Federal, e Gianni Nogueira, que deverá disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa formando dobradinha com o marido, não provocaram esse conflito. Mas dificilmente conseguirão ignorá-lo caso ele continue crescendo. Até porque o eleitor conservador também começará a fazer perguntas que até ontem pareciam impensáveis.

A fotografia que ilustra esta crônica registra um momento de unidade. Rodolfo, Gianni, Michelle e Jair aparecem lado a lado, sorridentes, como tantas outras imagens produzidas ao longo dos últimos anos. Mas a política tem o estranho hábito de dar novos significados às velhas fotografias. Aquilo que ontem simbolizava coesão amanhã poderá representar apenas uma lembrança de tempos menos turbulentos.

Talvez Paulo Figueiredo imaginasse que bastaria retirar de Michelle o sobrenome Bolsonaro para diminuir seu peso político. O velho Aurélio mostrou que as palavras possuem vida própria. Ao chamá-la de Michelle Firmo, acabou oferecendo exatamente a qualidade que todo candidato gostaria de transmitir ao eleitor: firmeza.

E talvez seja essa a maior ironia de todas. Enquanto alguns tentam decidir quem herdará o sobrenome político de Jair Bolsonaro, o eleitor poderá começar a fazer outra conta. Não quem carrega o nome. Mas quem transmite confiança para firmar novos compromissos. Porque, no fim das contas, sobrenomes abrem portas. Mas são os atributos que costumam mantê-las abertas. E, às vezes, basta uma palavra mal escolhida para mostrar que, antes mesmo da campanha começar, a primeira batalha já está sendo travada dentro da própria família.

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