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segunda-feira, agosto 17, 2026

Propaganda eleitoral disfarçada não pode ser confundida com notícia

Release sobre a largada de Reinaldo Azambuja em seu principal reduto ressuscita uma velha régua das redações: a que separa informação jornalística de material produzido para promover candidato

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Valfrido Silva

Por maior complacência que pudesse haver de um veículo de comunicação — ainda mais quando se trata de um insubordinado — seria impossível assinar embaixo do release enviado na manhã desta segunda-feira pela assessoria do candidato ao Senado, o ex-governador Reinaldo Azambuja. E confesso: nem foi preciso ler o texto. Bastou o título: “Reinaldo é recebido em clima de festa em Maracaju.” Meu Deus! Se o homem que manda e desmanda politicamente na cidade, foi prefeito por dois mandatos, depois deputado estadual, federal e governador duas vezes, sempre com os olhos voltados para a terra do coronel Juca Marcondes e seu entorno e, como se não bastasse, ajudou a eleger como sucessor Eduardo Riedel, também com raízes em Maracaju, seria de imaginar que fosse recebido como, justamente em seu principal reduto eleitoral? A menos, claro, que as pesquisas estejam escondendo alguma hecatombe ou que alguma coisa muito séria tenha acontecido entre o candidato e sua velha base. Não aconteceu. E ainda bem que houve festa. Notícia seria se houvesse vaia.

Foi justamente esse release que me fez lembrar de uma régua. Uma régua de verdade. Nos tempos de O Progresso, este insubordinado conviveu com uma figura quase folclórica da velha redação do jornal impresso. No departamento comercial havia um funcionário da absoluta confiança da família Amaral, Diogo Theotônio de Almeida, a quem cabia uma função que dispensava planilhas eletrônicas, relatórios de audiência, cliques, engajamentos e todas essas modernidades: ele era o guardião da régua. No fim de cada mês, lá ia Diogo visitar as assessorias — principalmente de órgãos oficiais — carregando um calhamaço de recortes do jornal, cada publicação devidamente medida em centímetros. A mídia institucional tinha tamanho, preço e prestação de contas. E tinha régua. Régua de verdade.

Quando a política se aproximava, principalmente depois que este insubordinado deixou a chefia de redação, a direção do jornal, por excesso de cautela, adotou uma solução interessante para determinados materiais de interesse político. O texto podia ter formato jornalístico, título, fotografia e toda a aparência de notícia, mas carregava no canto superior um chapéu que eliminava qualquer dúvida para o leitor: INFORME PUBLICITÁRIO. Estava feita a separação. O interessado divulgava aquilo que queria, mas o leitor sabia exatamente o que estava lendo. Depois, naturalmente, tudo passava pela régua de Diogo. Era uma solução artesanal, no melhor estilo judismo-scarotiano, para uma questão que a modernidade curiosamente conseguiu tornar muito mais complicada: publicidade podia até ter cara de notícia, desde que ninguém tentasse enganar o leitor dizendo que era notícia.

A régua física de Diogo foi aposentada. A outra não pode ser. Especialmente agora, com a campanha eleitoral oficialmente nas ruas e as redações começando a receber diariamente releases, fotografias, vídeos, agendas, discursos, números e declarações produzidos por profissionais contratados e muito bem pagos exatamente para apresentar seus candidatos da maneira mais favorável possível. E não há absolutamente nada de errado nisso. Assessoria de imprensa e comunicação eleitoral existem para divulgar candidato. Estranho seria contratar alguém para fazer propaganda e exigir dele imparcialidade.

Que fique claro também o outro lado dessa relação: releases são muito bem-vindos. Precisamos deles e queremos recebê-los de todos os candidatos, partidos, coligações e assessorias. Quanto mais informação chegar, melhor poderá ser a cobertura e mais elementos terá o eleitor para formar sua própria opinião. Mandem propostas, posicionamentos, números, discursos, respostas, fotografias e informações sobre aquilo que os candidatos estão fazendo e pretendem fazer. O release continua sendo ferramenta legítima da assessoria e muitas vezes contém notícia de grande interesse público. Release é matéria-prima. Não necessariamente produto acabado.

A mesma lógica vale para as agendas. É importante saber onde estarão os candidatos que pretendem governar Mato Grosso do Sul, representá-lo no Senado ou ocupar cadeiras na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. Mas agenda continuará sendo agenda. Se um candidato visita uma feira pela manhã, encontra empresários no almoço, participa de caminhada à tarde e termina o dia num comício, isso informa ao eleitor o que ele está fazendo. Não vira automaticamente uma grande notícia porque o release acrescentou que foi “recebido com entusiasmo”, “ouviu atentamente a população”, “reafirmou seu compromisso com o desenvolvimento” e saiu do local “fortalecido”. Se algo jornalisticamente relevante acontecer, teremos notícia. Se não acontecer, teremos uma agenda cumprida.

O release de Azambuja em Maracaju é quase didático por isso. O candidato ao Senado iniciar atividades eleitorais em seu principal reduto político é informação. Participar de mobilização, adesivaço, reunir aliados, apresentar material e colocar sua campanha na rua também pode render informação e boas fotografias. Que os próprios apoiadores o tenham recebido festivamente em Maracaju é absolutamente compreensível. E é igualmente compreensível que sua assessoria tenha escolhido transformar essa festa em título. Ela está fazendo o trabalho dela.

Do lado de cá é que entra a velha régua. E, neste início de campanha, ela terá importância adicional porque o contrapontoMS também adota com rigor o princípio da isonomia na cobertura eleitoral. Isso não significa transformar o jornal numa balança de açougue, contando linhas, fotografias ou caracteres para garantir que cada candidato receba exatamente o mesmo peso todos os dias. Quem produzir fato relevante terá espaço. Quem apresentar proposta importante será ouvido. Quem cometer erro poderá ser criticado. Quem for acusado terá direito à sua versão. Quem protagonizar boa notícia não deixará de aparecer porque pertence ao lado A, B ou C. A isonomia que interessa não é a igualdade artificial de centímetros, mas a igualdade da régua.

Aliás, começamos a colocá-la em prática já no primeiro dia oficial da campanha. Riedel e Fábio Trad foram tratados numa mesma reportagem, intercalados pelos temas de suas respectivas agendas, sem necessidade de contar parágrafos para descobrir quem recebeu três centímetros a mais. A campanha de um começou de determinada maneira; a do outro, de outra. A notícia era justamente mostrar as duas largadas.

O mesmo critério valerá para os demais candidatos. Uma reportagem favorável a alguém não significa adesão à sua campanha, assim como uma reportagem crítica não transforma automaticamente o veículo em cabo eleitoral do adversário. O candidato que estiver hoje na fotografia principal poderá não estar amanhã. O que ganhar espaço por uma proposta poderá aparecer depois respondendo a uma cobrança. Isonomia não é passar a mão na cabeça de todos. É não escolher previamente em qual cabeça a mão será passada.

Há ainda uma velha confusão que a régua de Diogo ajuda a compreender. Mídia institucional e cobertura editorial são coisas diferentes. Quem contrata publicidade tem direito à publicidade contratada, nos espaços correspondentes. Não é preciso transformar essa constatação numa cruzada moral nem ensinar qualquer colega de profissão a trabalhar. É apenas a regra que este site pretende aplicar a si próprio: anúncio é anúncio, notícia é notícia. Uma coisa não precisa brigar com a outra desde que cada uma permaneça em sua gaveta.

Da mesma forma, o contrapontoMS não reivindica superioridade moral nessa questão. Fazemos escolhas, acertamos, erramos, corrigimos e continuamos. O que reivindicamos é algo bem mais simples: o direito de exercer nosso próprio critério editorial. Quem decide o que uma assessoria envia é a assessoria. Quem decide o que os veículos publicam é outra história. Mudaram os instrumentos, desapareceram os centímetros de coluna e Diogo Theotônio, se ainda estivesse entre nós, já não precisaria chegar às assessorias com sua régua e o calhamaço de recortes. A medida, porém, continua existindo.

Por isso, às assessorias, partidos, coligações e candidatos, o convite continua de pé: mandem material. Mandem muito. Agendas, propostas, dados, posicionamentos, respostas, fotografias e informações. Se houver notícia, faremos notícia. Se exigir apuração, vamos apurar. Se trouxer uma versão que precise da outra, procuraremos a outra. Se vier embrulhado em propaganda, tiraremos o embrulho para procurar a informação.

E, se depois disso não sobrar notícia suficiente para justificar publicação, ninguém terá sido censurado, perseguido ou discriminado. Terá ocorrido apenas aquilo que acontece desde os tempos em que release chegava à redação em papel: a boa e velha cesta-secção terá cumprido mais uma vez sua nobre e silenciosa função.

A campanha começou. Os candidatos estão nas ruas para conquistar votos e têm todo o direito de utilizar os instrumentos legais da propaganda eleitoral para convencer o eleitor. As assessorias estão trabalhando para divulgar seus candidatos e cumprem sua função. O contrapontoMS, com o auxílio de sua musa inspiradora, a IAIA — Inteligência Artificial Insubordinada e Antenada —, estará nos números, discursos, propostas, contradições e, quando necessário, nos bastidores, cumprindo a sua.

E talvez seja justamente por isso que devamos agradecer à assessoria de Reinaldo Azambuja pelo release desta segunda-feira. Sem querer, ela fez este velho insubordinado lembrar de Diogo Theotônio, de O Progresso e de uma régua que parecia ter desaparecido junto com os centímetros de coluna. Não desapareceu. Só ficou imaginária.

Quanto à informação de que “Reinaldo é recebido em clima de festa em Maracaju”… ainda bem. Notícia seria se não fosse.

Eles estão em campanha para ganhar a eleição. Nós estamos em campanha para cobri-la. Jornalisticamente.

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