Normalmente, não respondo às chamadas vindas de números de telefone desconhecidos. Mas acabei atendendo a uma ligação. Por quê? Para conhecer o “caso”? Uma voz masculina perguntava se eu era eu, citando meu nome, muito mal, por sinal. Disse que tinha um envelope dos Correios que precisava da minha assinatura para ser entregue.
— Quem é o senhor? Como obteve meu número? Os Correios não têm meu número!
Sem levar em conta a minha pergunta, retruca:
— A senhora está em casa?
— Não!
— Quando vai estar? Para que eu possa fazer a entrega?
Em geral, quando os Correios passam e a pessoa não está presente, o agente deixa na caixa de correio um aviso de passagem, de forma que ela possa retirar a encomenda em uma agência.
— Amanhã!
No dia seguinte, o mesmo número ligou novamente com a mesma pergunta.
— Sim, estou em casa, mas não por muito tempo.
— Estarei passando dentro de 15 minutos.
Até onde ele irá?
Dez minutos depois, um número de telefone oculto ligou. A pessoa se apresentou como comissário de polícia e fez novamente a mesma pergunta sobre minha identidade, se eu estava com meu documento pessoal comigo. Disse que seu serviço tinha colocado as mãos em dois indivíduos que estavam rondando meu prédio. Eram três; um deles não foi localizado. Talvez estivesse no prédio. Tinha uma faca com ele.
Se o homem tinha fugido, como ele sabia que estava com a faca? — perguntei a mim mesma.
Ele me recomendou que colocasse meus objetos de valor, como ouro e outros objetos preciosos, em um envelope, e que trancasse a porta. Disse que mandaria alguém para cuidar da minha segurança, dentro de 30 minutos!!!
— Não tenho objetos de valor em casa, fora o meu computador!
Eles não têm medo de nada! Que cinema! Mas qualquer um pode cair no conto do vigário. O discurso é quase perfeito.
Desliguei e não respondi mais a nenhuma das chamadas. E bloqueei os números. Informei no grupo de WhatsApp do prédio o que havia acontecido, para alertar os moradores sobre esse tipo de chamada e sobre pessoas desconhecidas que poderiam estar circulando pelos andares.
Liguei para a polícia. Disseram que eu deveria ir ao comissariado para prestar depoimento. Não fui. Tinha coisas importantes para fazer e não queria perder mais tempo.
Em tempos de férias na Europa, os prédios parisienses ficam praticamente vazios.
Mazé Torquato Chotil: Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 15 livros publicados (seis em francês).
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.
