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quarta-feira, agosto 19, 2026

A democracia não se mede por adesivaços

Um adesivo solitário no lugar mais improvável da cidade ajuda a lembrar que demonstração de força, ocupação de ruas e quilômetros de plástico colado em automóveis nunca foram sinônimos de voto

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Valfrido Silva

Foi preciso apenas um adesivo, num único carro estacionado diante da Prefeitura de Dourados, para me convencer de que talvez ainda haja alguma esperança para a democracia nestes tempos de adesivaços, bandeiraços, buzinaços e outras tentativas de transformar barulho, plástico e poder econômico em voto. Deparei-me com a peça publicitária nesta terça-feira, ao sair de uma visita à prefeitura. Olhei uma vez. Duas. Três. O nome não me dizia muita coisa. Seria algum candidato a deputado perdido no meio das listas das convenções? Federal? Quem sabe até senador, território onde também aparecem ilustres desconhecidos apostando que o eleitor descubra quem são antes de outubro? Foram necessários alguns cliques até cair a ficha: Renan Santos, candidato à Presidência da República pelo Missão. E foi justamente o anonimato daquele eleitor, sozinho com seu adesivo no estacionamento, que acabou me levando à pergunta que vale este textão: desde quando campanha eleitoral passou a achar que precisa adesivar uma multidão para provar que conquistou um voto?

A primeira curiosidade estava resolvida. A segunda, não. Numa terra em que o bolsonarismo tem demonstrado força eleitoral considerável e o lulopetismo procura preservar seu espaço, encontrar logo no começo da campanha um automóvel solitário ostentando um presidenciável que tenta escapar exatamente dessa polarização não deixa de ser uma pequena preciosidade política. Mais interessante ainda era o endereço. O carro estava estacionado num lugar onde, pelas circunstâncias políticas e administrativas, seria muito mais previsível encontrar manifestações de apoio a um dos dois grandes polos da disputa presidencial. Vim saber depois que o automóvel costuma ficar ali. Pertenceria a um funcionário absolutamente anônimo, daqueles que não ocupam manchete, não participam de reunião de cúpula, não aparecem em fotografia de convenção e provavelmente jamais serão consultados sobre a montagem de uma chapa. Mas votam.

E talvez esteja justamente aí a diferença daquele adesivo. Era um adesivo de verdade. Não porque os outros sejam falsificados, mas porque aquele parecia cumprir exatamente a função para a qual esse tipo de material eleitoral foi inventado: um eleitor resolveu espontaneamente dizer em quem pretende votar. Um carro, um adesivo, uma escolha. Sem trio elétrico, buzinaço, carreata, dirigente partidário contando automóveis, assessor procurando o melhor ângulo para fazer uma fila parecer três vezes maior ou candidato sorrindo diante de uma multidão de para-brisas adesivados para anunciar que a cidade finalmente “abraçou o projeto”. Apenas um cidadão e seu candidato. Foi impossível olhar para aquela manifestação quase artesanal de preferência eleitoral e não pensar no fenômeno inverso que voltou com força nestes primeiros dias de campanha: os famigerados adesivaços.

Viraram evento político. Marca-se hora, escolhe-se avenida, convoca-se militância, distribuem-se adesivos, bandeiras e material de campanha, concentram-se carros, aparecem candidatos, assessores, fotógrafos, cinegrafistas e, dependendo do tamanho da estrutura, até aquela indispensável turma encarregada de demonstrar espontaneidade mediante convocação prévia. Nada contra o adesivo. Muito menos contra o eleitor que queira transformar o próprio automóvel num santinho motorizado. O problema começa quando quantidade de plástico colado passa a ser vendida como quantidade de votos conquistados. Aí a propaganda tenta produzir uma espécie de pesquisa eleitoral sobre quatro rodas. E eu tenho motivos históricos para desconfiar uma barbaridade disso.

Como gosto de amparar minhas implicâncias em fatos concretos — de preferência naqueles que tive o privilégio ou a desgraça de testemunhar —, preciso voltar a 1982, quando Mato Grosso do Sul realizou sua primeira eleição direta para governador. De um lado estava Wilson Barbosa Martins, do PMDB. Do outro, José Elias Moreira, o Zé Elias, do PDS, recém-saído da Prefeitura de Dourados e escolhido para representar o grupo político comandado pelo então governador Pedro Pedrossian. Havia ainda Wilson Fadul, pelo PDT, e Antônio Carlos de Oliveira, pelo PT, mas a eleição de verdade acabou polarizada entre Wilson e Zé Elias. O douradense carregava uma vantagem respeitável: vinha de uma administração municipal de enorme aprovação, possuía o apoio do governador e da estrutura política do PDS e conseguiu fazer aquilo que nenhum outro político de Dourados voltou a conseguir numa disputa pelo governo: venceu Wilson Martins no interior do Estado. Campo Grande, porém, era outra história.

E foi ali que assisti ao maior espetáculo de adesivagem política de que minha memória consegue dar notícia. Não era adesivo desses discretos que hoje ocupam um cantinho do vidro traseiro. Era adesivão. Carros particulares exibiam o candidato. Táxis exibiam o candidato. Ônibus do transporte coletivo exibiam o candidato. Havia rosto de Zé Elias circulando pela Capital numa quantidade capaz de convencer qualquer visitante desavisado de que aquela eleição já estava resolvida. Era um massacre visual. Se urna tivesse retina, Zé Elias teria tomado posse antes da apuração. Quem circulasse por Campo Grande e utilizasse apenas os próprios olhos como instituto de pesquisa poderia perfeitamente concluir que Wilson Barbosa Martins estava condenado a voltar para casa. Só havia um pequeno problema: Os automóveis não votavam.

Vieram as urnas e aquilo que a propaganda havia transformado numa aparente demonstração de força encontrou pela frente uma instituição extremamente inconveniente chamada eleitor. Zé Elias venceu no interior, mas Campo Grande deu a Wilson Martins a vantagem decisiva para virar a eleição e tornar-se o primeiro governador eleito pelo voto popular na história do recém-criado Mato Grosso do Sul. E o mais impressionante é que, apesar daquela diferença gigantesca de percepção visual na Capital, a eleição estadual terminou por um fio: Wilson recebeu 258.192 votos, contra 237.144 de José Elias. Apenas 21.048 votos de diferença. Quarenta e quatro anos depois, portanto, continuo desconfiando de adesivaço. Não do adesivo. Do “aço”.

Esse sufixo eleitoral que transforma uma manifestação legítima de preferência numa demonstração organizada de poder. Adesivaço. Bandeiraço. Buzinaço. Carreataço. Caminhadaço. Tudo precisa ser grande, barulhento, fotografável e, principalmente, capaz de produzir nas redes sociais a sensação de que todo mundo já escolheu o mesmo candidato. Talvez seja esse o componente que mais me incomode. Porque a campanha eleitoral tem todo o direito de tentar convencer o eleitor. O que ela não deveria tentar é constrangê-lo pela aparência de unanimidade. Há uma diferença enorme entre dizer “vote em mim” e sugerir “todo mundo já está comigo, só falta você”. É uma técnica muito anterior às redes sociais, claro, mas a tecnologia multiplicou sua capacidade de produzir realidade aparente. Hoje bastam um enquadramento competente, algumas dezenas de carros, bandeiras no lugar certo e um vídeo de quinze segundos para transformar uma concentração razoável numa tomada da Bastilha. Depois entra a legenda: “A cidade abraçou.” Abraçou quem, cara-pálida? A cidade inteira? Os participantes do evento? Os filiados? Os cabos eleitorais? Os candidatos proporcionais convocados para demonstrar força? Os amigos? Os curiosos? Ou simplesmente os proprietários dos carros que aceitaram receber o adesivo?

É aí que volto ao automóvel solitário de Renan Santos. Talvez aquele pequeno adesivo tenha me chamado tanta atenção justamente porque não tentava provar nada além da preferência de uma única pessoa. E isso basta. Aliás, deveria bastar. Um eleitor não precisa parecer multidão para que sua escolha seja respeitável. Pode ser o único renanzista do quarteirão, trabalhar cercado por lulistas e bolsonaristas, chegar ao estacionamento, desligar o motor, fechar o carro e passar o expediente inteiro sem converter uma única alma. Continua tendo um voto. Exatamente o mesmo número de votos do empresário que possui vinte automóveis, do fazendeiro que adesiva uma frota, do dirigente partidário que organiza uma carreata e do sujeito que consegue reunir trezentos veículos numa avenida para produzir imagens aéreas. Essa talvez seja uma das poucas maravilhas aritméticas que ainda sobrevivem na democracia: na cabine, Mercedes e bicicleta empatam.

É claro que os tempos mudaram. Em 1982 não existiam WhatsApp, Instagram, TikTok, impulsionamento digital, inteligência artificial produzindo vídeo, algoritmo escolhendo aquilo que devemos assistir e uma legião de profissionais especializados em transformar vinte pessoas num movimento popular de dimensões continentais. Pesquisa eleitoral também não ocupava o espaço instantâneo que ocupa hoje. Informação circulava devagar, apuração demorava e o eleitor podia passar dias convivendo com versões, boatos e expectativas antes de conhecer o resultado. Mudou a tecnologia, mudou a campanha, mudou a velocidade e mudou até o tamanho do adesivo. O que não mudou foi o eleitor dentro da cabine.

E talvez seja por isso que me cause algum desconforto ver campanhas transformando adesivaços em demonstração de poder econômico, político ou estrutural, especialmente quando a concentração ocupa vias, atrapalha o trânsito e tenta transmitir a mensagem subliminar de que determinada candidatura já tomou conta da cidade. Não tomou. Tomou conta, quando muito, daquele pedaço da avenida. A cidade só será conquistada eleitoralmente quando abrirem as urnas. Até lá, prudência. Adesivo não responde pesquisa, bandeira não possui título eleitoral, santinho não aperta tecla e carro de som não entra na cabine. Aquela impressionante fila de automóveis que aparece no vídeo da campanha pode produzir uma fotografia extraordinária sem acrescentar um único voto ao candidato além daqueles que seus ocupantes já pretendiam dar.

Bons tempos aqueles em que o eleitor interessado passava pelo comitê e pegava discretamente seu material. Levava adesivo para o carro, cartaz para a janela de casa, bandeirola para o portão e, naturalmente, os famigerados santinhos que depois transformavam as ruas próximas aos locais de votação numa espécie de aterro sanitário da democracia. Não estou pedindo a volta daquilo, pelo amor de Deus. Mas havia pelo menos uma diferença simbólica interessante: o eleitor procurava a campanha. Agora, cada vez mais, a campanha procura cercar visualmente o eleitor. E isso nos traz inevitavelmente à questão ética. Num tempo em que Polícia Federal, Ministério Público e outros organismos de controle demonstram criatividade inesgotável para batizar operações destinadas a descobrir os caminhos percorridos pelo dinheiro público até desembocar no esgoto da corrupção, talvez seja conveniente observar também de onde vem o dinheiro que transforma determinadas campanhas em espetáculos de abundância. Sem acusação antecipada, sem misturar campanha cara com ilegalidade — nossa régua não permite esse atalho —, mas também sem ingenuidade. Campanha custa dinheiro. Estrutura custa dinheiro. Material custa dinheiro. Mobilização custa dinheiro. E quanto maior a ostentação, mais legítimo é o interesse público em saber quem pagou, quanto custou e de onde vieram os recursos.

Talvez por isso aquele adesivo solitário tenha se transformando numa pequena aula de democracia no estacionamento mais improvável da terra de seu Marcelino. Não sei quantos votos Renan Santos terá por aqui, nem se conseguirá romper a polarização que decidiu enfrentar. A urna cuidará disso. Mas seu eleitor anônimo já prestou um serviço: lembrou que um carro adesivado pode revelar uma escolha; mil carros adesivados não provam mil escolhas.

Daqui até 4 de outubro veremos muitos outros adesivaços, bandeiraços, buzinaços, carreatas, caminhadas, concentrações, fotografias aéreas e vídeos destinados a convencer o eleitor de que a eleição está praticamente resolvida. Não está. Podem adesivar carros, ocupar avenidas, levantar bandeiras, produzir quilômetros de plástico colorido e tentar transformar estrutura em entusiasmo, barulho em maioria e fotografia em resultado eleitoral. Existe apenas um lugar onde ninguém conseguiu ainda colar adesivo na vontade do cidadão: A cabine de votação. E, graças a Deus, lá dentro ainda cabe apenas o eleitor.

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