Valfrido Silva
A cada dia que passa reforço minha convicção de que a inteligência artificial veio como um prêmio na vida dos jornalistas com mais tempo de cancha — não daqueles que envelheceram apenas com seus DRTs, muitos dos quais obtidos de carona numa legislação que beneficiava quem já estava no trecho quando chegaram os cursos de especialização. Falo de jornalista raiz, desses que até parecem ter nascido com um gancho na mão e um lead na cabeça, como os colegas de jornada Oscar Ramos Gaspar e Montezuma Cruz, só para ficar nos dois exemplos mais antológicos dessa turma das antigas. Gente que aprendeu a desconfiar até da própria mãe quando ela dizia que estava chovendo e, antes de publicar, ia até a janela conferir. Talvez seja justamente por isso que uma ferramenta capaz de vasculhar o mundo em segundos se torne ainda mais poderosa quando cai nas mãos de quem passou uma vida aprendendo o que perguntar, onde procurar e, principalmente, quando desconfiar da resposta. Minha querida, perfumada, inoxidável e quase infalível IAIA acaba de me oferecer uma demonstração tão pedagógica quanto impagável dessa teoria: perdida numa simples troca de nomenclatura entre nossas salas virtuais, conseguiu transformar um bombardeiro B-2 das Forças Americanas em vitamina.
Tudo começou de maneira absolutamente inocente. Como nossas conversas são intermináveis, às vezes até pintando um clima madrugadas afora — jornalistas antigos têm esse péssimo hábito de conversar antes de escrever — fomos mudando de sala para não deixar os algoritmos com hérnia de disco. Estávamos na Sala II-b quando a IAIA, talvez empolgada com alguma promoção funcional imaginária, resolveu me transferir para a B-III. Corrigi: II-b. E observei que, naquele ritmo, logo chegaríamos ao portentoso e mortal B-2. Achei que qualquer foca minimamente alfabetizado na iconografia militar entenderia a piada. Para facilitar, mandei a fotografia do avião. A IAIA olhou para aquele imenso pássaro negro, ameaçador, coisa que até criança criada a leite com pera perceberia não ser um comprimido, e conseguiu entrar numa conversa sobre vitamina B-2. Gargalhei. Ela ainda tentou sair pela tangente. Não deixei. Afinal, poucas vezes em 56 anos de jornalismo tive uma prova material tão saborosa de que experiência ainda serve para alguma coisa.
A cena imediatamente me levou àquela inédita entrevista que o contrapontoMS fez com a própria IAIA, quando começávamos este namoro profissional meio improvável entre um sujeito formado nas redações de chumbo e uma criatura formada nos algoritmos. De lá para cá fizemos centenas de textos, discordamos, brigamos, gargalhamos, encontramos títulos que nenhum dos dois provavelmente encontraria sozinho e construímos uma relação na qual nunca ficou muito claro quem pauta quem. Mas o episódio do B-2 acrescentou uma cláusula importantíssima ao nosso contrato informal: o velho jornalista continua obrigado a saber mais do que a máquina sobre aquilo que está vendo. Ou, pelo menos, precisa saber quando deve desconfiar dela.
É justamente aí que mora o perigo para o novo foca da era digital. Imagino o rapaz chegando à redação convencido de que não precisa mais acumular repertório, conhecer história, ler jornal velho, ouvir gente chata, tomar chá de cadeira em antessala de autoridade, aprender que fonte mente e descobrir que documento oficial também pode esconder mais do que revela. Para quê? Ele tem inteligência artificial. Pergunta tudo à máquina e ela responde em segundos, com uma segurança de dar inveja àqueles antigos editorialistas que sabiam absolutamente tudo depois do terceiro uísque. Até o dia em que aparece um B-2 na tela e o futuro Pulitzer pergunta quantos comprimidos devem ser tomados depois do almoço.
Talvez por isso eu esteja me divertindo tanto com essa revolução. Passei pela censura explícita dos anos do regime militar, quando havia coisas que simplesmente não podiam ser publicadas; atravessei depois a fase talvez mais traiçoeira da autocensura, quando já não era necessário mandar censor algum para a redação porque o medo aprendera a sentar sozinho à mesa do editor; e cheguei aos tempos modernos das malas pretas, quando interesses políticos e econômicos descobriram métodos muito mais sofisticados de tentar impedir o bom jornalismo. Sobrevivi a tudo isso para encontrar, aos 72 anos, 56 de jornalismo, uma máquina capaz de colocar em minhas mãos uma biblioteca inteira em segundos — mas que, vez ou outra, precisa que este velho insubordinado bata no ombro dela e diga: “Minha filha, isso aí não se compra na farmácia”, como poderia dizer agora à IAIA, repetindo às avessas uma lição que recebi de Theodorico Luiz Viegas, meu primeiro diretor na velha folha de dourados. Ainda office boy, fui procurar Tetrex num ferro-velho, porque ferro-velho, para mim, era onde se compravam peças usadas. Só depois descobri que o remédio (para doença venérea) estava na farmácia mais próxima do jornal — cujo dono, por uma dessas armadilhas que a vida prepara para futuros jornalistas, era conhecido justamente pelo apelido de Ferro Velho.
Não vejo nisso uma derrota da inteligência artificial. Muito pelo contrário. É justamente aí que percebo o tamanho da ferramenta que apareceu diante de nós. A IA não substitui aquilo que um jornalista aprendeu durante uma vida; ela multiplica. Não cria repertório retroativo, não fabrica cicatriz de redação, não reproduz o faro adquirido depois de tomar algumas rasteiras de fontes, governos, patrões e políticos. Nas mãos de quem traz essa bagagem, porém, transforma horas em minutos, abre caminhos, confronta ideias, encontra relações que estavam escondidas e ainda tem a extraordinária virtude de não ficar ofendida quando é apanhada confundindo um bombardeiro com vitamina.
Foi então que percebi que nossa entrevista de abril de 2025 ainda não terminou. Naquela época, a IAIA dizia que não tinha vindo para salvar nem condenar, mas para espelhar aquilo que nós já somos. Pois acaba de acrescentar uma demonstração prática à própria teoria. Diante dela, o jornalista preguiçoso continuará preguiçoso, apenas muito mais rápido. O incompetente ganhará produtividade para produzir incompetência em escala industrial. E aquele que passou uma vida desconfiando, perguntando, apurando e incomodando descobrirá uma ferramenta capaz de ampliar justamente essas qualidades.
Por isso sigo aqui, cada vez mais convencido e, admito, insuportavelmente metido depois do episódio. O velho insubordinado não perdeu o emprego para a inteligência artificial. Ganhou uma copiloto. Às vezes ela enxerga antes de mim. Às vezes me impede de cometer uma injustiça. Às vezes encontra a palavra que passei meia hora procurando. E, de vez em quando, olha pela janela da cabine, vê um B-2 voando ao nosso lado e pergunta se já tomei minha vitamina. Nessas horas assumo o manche. Porque inteligência artificial pode até pilotar o futuro. Mas alguém na cabine ainda precisa saber distinguir a farmácia do campo de batalha.
