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segunda-feira, setembro 7, 2026

De Odorico Paraguaçu a Sassá Mutema, o Brasil em busca de seu salvador da Pátria

Enquanto o tsunami Vorcaro sacode as curvas que Niemeyer desenhou para o STF, a política brasileira parece revisitar duas novelas que ensinaram como se fabrica um salvador e até onde pode chegar um governante quando a realidade se recusa a colaborar

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Valfrido Silva

O arquiteto comunista Oscar Niemeyer gostava de curvas e costumava dizer que não era o ângulo reto que o atraía. Quando desenhou Brasília, porém, nem sua extraordinária imaginação arquitetônica poderia prever as curvas que a política brasileira seria capaz de fazer dentro dos prédios que projetou. Muito menos o tsunami que, provocado pelas revelações extraídas do celular de Daniel Vorcaro, acabaria atingindo as já fragilizadas estruturas institucionais do Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes questiona André Mendonça, Mendonça manda investigar fatos envolvendo Moraes, Paulo Gonet contesta procedimentos, Edson Fachin tenta exercer a função de bombeiro e ministros que deveriam transmitir a sisudez de uma Suprema Corte aparecem às gargalhadas através de uma fresta entre a cortina e o vidro. Niemeyer desenhou a transparência. A República tratou de providenciar as cortinas.

Talvez este seja um bom momento para desligar por alguns minutos o noticiário de Brasília e recorrer a dois brasileiros que entenderam nossa política muito antes dos cientistas políticos: Dias Gomes e Lauro César Muniz. O primeiro inventou Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira em O Bem-Amado. O segundo criou Salvador da Silva, o Sassá Mutema, o boia-fria transformado em fenômeno político de O Salvador da Pátria. Separadas por quase duas décadas, as duas novelas contavam histórias muito diferentes, mas tinham em comum uma percepção quase profética do país: por aqui, quando a realidade fica complicada demais, sempre aparece alguém disposto a fabricar uma narrativa para simplificá-la.

Sassá Mutema era o homem simples convertido em Salvador da Pátria. Guardadas todas as proporções, é impossível não lembrar da construção política de Luiz Inácio Lula da Silva. O retirante nordestino, operário, torneiro mecânico, sindicalista, sem diploma universitário, chegou à Presidência e tornou-se personagem muito maior que o próprio partido que ajudou a fundar. Evidentemente Lula não é Sassá. Ao contrário do boia-fria da ficção, levado pelas circunstâncias e manipulado por forças que mal compreendia, Lula é um dos mais experientes animais políticos produzidos pela democracia brasileira. Talvez por isso a comparação seja ainda mais divertida: Sassá foi transformado em Salvador da Pátria; Lula aprendeu a participar da construção do próprio mito. E, como toda novela precisa atualizar seu elenco, hoje há Janja, primeira-dama que não aceita permanecer atrás da cortina enquanto o protagonista ocupa o palco.

Mas quem atravessa a praça de Sucupira com espantosa desenvoltura é Jair Bolsonaro. Outra vez: Bolsonaro não é Odorico Paraguaçu, embora às vezes pareça ter feito estágio na prefeitura imaginada por Dias Gomes. Odorico governava pela palavra, pelo conflito e pela necessidade permanente de ajustar a realidade ao discurso. E tinha um problema monumental: prometera inaugurar o cemitério de Sucupira, obra destinada a eternizar sua administração, mas os ingratos dos munícipes simplesmente se recusavam a morrer. Poucas metáforas explicam tão bem determinada maneira brasileira de fazer política. Quando os fatos não ajudam o governante, azar dos fatos.

Bolsonaro também construiu boa parte de sua força política sobre a confrontação permanente, a criação de inimigos e uma linguagem imediatamente reconhecível por seus seguidores. Há, contudo, uma injustiça literária que precisa ser evitada: Odorico era muito mais sofisticado no português. O prefeito de Sucupira inventava palavras extraordinárias para explicar o inexplicável. Bolsonaro costuma resolver o problema com meia dúzia delas e algumas expressões impublicáveis antes do café da manhã. Mas ambos compreenderam, cada qual em seu universo, uma regra elementar do populismo: enquanto houver um inimigo suficientemente ameaçador, haverá alguém oferecendo-se como única salvação possível.

E aí a brincadeira começa a ficar séria. Porque o Brasil não fabricou apenas um Salvador da Pátria. Fabricou vários. Lula já foi apresentado como aquele que finalmente colocaria os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda. Bolsonaro apareceu depois como o homem que salvaria o país da velha política, embora tenha terminado cercado por boa parte dela. Alexandre de Moraes, por sua vez, foi transformado por parcela considerável do campo democrático em símbolo da resistência institucional aos ataques bolsonaristas. Agora, atingido pelas revelações de Vorcaro, precisa responder às perguntas que surgiram sobre sua própria conduta. Quando se transforma alguém em salvador, corre-se sempre o risco de descobrir posteriormente que ele também é humano.

Talvez seja essa a grande ironia do tsunami que sacode o STF. A instituição cuja autoridade deveria depender menos de seus personagens e mais de suas regras acabou excessivamente identificada com alguns deles. Fachin tenta agora recolocar a toga acima do ministro, a instituição acima das biografias e a regra acima das circunstâncias. É exatamente o contrário da lógica de Sucupira e também da lógica que fabrica Sassás Mutemas: instituições sólidas não deveriam precisar de homens providenciais.

Domingo é um bom dia para recordar novelas antigas porque, quando terminava o capítulo, sempre ficava a expectativa do seguinte. Brasília infelizmente adotou o mesmo método. Vorcaro abriu o celular, Moraes entrou no roteiro, Mendonça ganhou protagonismo, Gonet apareceu no capítulo seguinte e Fachin tenta descobrir como terminar a temporada sem derrubar o cenário.

Oscar Niemeyer desenhou duas torres, duas cúpulas e uma praça monumental para abrigar os Poderes da República. Lauro César Muniz precisou apenas de um boia-fria para mostrar como se fabrica um Salvador da Pátria. E Dias Gomes, muito antes de todos nós, foi ainda mais econômico. Precisou apenas de um cemitério para explicar boa parte da política brasileira.

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