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sábado, setembro 5, 2026

STF fecha a fresta, depois da fotografia do escárnio

Imagem de ministros às gargalhadas em meio à crise provocada pelas revelações de Vorcaro repercute no país; no dia seguinte, segurança do Supremo afasta fotógrafos da fachada de vidro

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O registro de ministros do STF às gargalhadas, entre eles Alexandre de Moraes, enquanto o presidente da Corte, Edson Fachin, aparece de costas, provavelmente passaria despercebido não fosse pelo timing. A cena, captada pelo fotógrafo Brenno Carvalho, de O Globo, surgiu justamente quando o Supremo atravessa uma das mais delicadas crises de sua história. Ninguém de fora daquela conversa sabe o que provocou o riso e seria jornalisticamente irresponsável afirmar que os ministros debochavam das revelações de Daniel Vorcaro ou da crise que atingiu a Corte. Mas fotografia também é contexto. E, naquele contexto, a imagem produziu inevitavelmente uma sensação de escárnio.

Não é uma crise qualquer no Supremo. O próprio Fachin classificara o momento como de “especial gravidade”, pregando serenidade, responsabilidade e apuração institucional. Alexandre de Moraes está no centro das revelações extraídas do celular de Vorcaro, enquanto se multiplicam questionamentos sobre contatos entre ambos e sobre o contrato milionário firmado pelo Banco Master com o escritório de advocacia de sua mulher. É nesse ambiente que três ministros aparecem sorrindo descontraidamente atrás de uma enorme fachada de vidro. Repita-se: a fotografia não informa do que eles riam. Mas o cidadão que acompanha perplexo a sucessão de revelações também não recebe a imagem numa redoma, isolada do noticiário. O contraste entre a gravidade proclamada pela própria Corte e a descontração flagrada pela câmera é que transformou um instante banal numa fotografia politicamente devastadora.

Há ainda um detalhe interessante para quem gosta de jornalismo. Brenno Carvalho contou que conseguiu fazer a fotografia através de uma fresta entre a cortina e o vidro. Não invadiu gabinete, não furou bloqueio de segurança, não instalou câmera escondida. Viu uma imagem possível e fez aquilo para que fotógrafos são pagos: fotografou. Técnica, oportunidade e feeling fizeram o resto. A foto correu o país e, como costuma acontecer com as grandes imagens jornalísticas, adquiriu uma força que já não pertencia exclusivamente aos personagens fotografados nem ao fotógrafo. Passou a pertencer ao momento histórico que registrava.

Pois eis que nesta sexta-feira surge o segundo capítulo. Segundo a Folha de S.Paulo, seguranças do STF passaram a impedir que fotógrafos se aproximem da marquise junto à fachada de vidro. Profissionais foram orientados a não fotografar através das vidraças e mandados a se afastar. Procurado pelo jornal, o Supremo não havia apresentado explicação para a nova restrição. A coincidência temporal é tão eloquente quanto a fotografia: primeiro apareceu a imagem feita pela fresta; depois, restringiu-se o acesso à fresta.

É legítimo que uma Corte Suprema possua protocolos de segurança e preserve ambientes internos que exijam reserva. Ministros também têm direito a conversar, rir e viver momentos de descontração, inclusive durante crises. A questão jornalística é outra. Se o espaço podia ser fotografado até a publicação de uma fotografia inconveniente e deixou de poder sê-lo imediatamente depois dela, a explicação institucional torna-se indispensável. Do contrário, aquilo que poderia ser apenas uma providência administrativa passa inevitavelmente a carregar a aparência de reação ao conteúdo publicado.

E talvez aí esteja o maior erro de avaliação. A fotografia de O Globo poderia cumprir seu ciclo natural de notícia e, como tantas outras, ser substituída pelo próximo escândalo, pela próxima declaração, pela próxima manchete. Ao afastar as câmeras justamente depois de uma delas registrar uma cena embaraçosa, o Supremo ajudou a prolongar a vida da própria imagem. Transformou a fotografia em notícia pela segunda vez.

É a velha história da porta arrombada, apenas adaptada à arquitetura de Oscar Niemeyer. Depois que o ladrão entra, não adianta comprar a fechadura. E, neste caso, nem porta havia.

Era uma fresta. Podem fechá-la agora. A fotografia do escárnio já passou por ela.

contrapontoMS

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