Anita Tetslaff*
Há 39 anos, Renato Russo ecoava nas estações de rádios um grito de perplexidade: “Que país é este?”. A canção do Legião Urbana, lançada durante a Nova República, descrevia o esgotamento de uma nação que emergia do regime militar e se via refém da hiperinflação, da violência endêmica e da impunidade estampada nos “documentos fiéis ao descanso do patrão”. A melodia permanece no imaginário popular, mas a realidade econômica e institucional do Brasil de 2026 reescreveu grande parte dessa letra.
O país que antes era motivo de “piada no exterior” agora senta-se à mesa do G20 e do BRICS como um dos gigantes agroambientais e energéticos do globo. No entanto, a comemoração da Independência chega em meio a um cenário político dividido: de um lado, a extrema direita que clama por ordem e revisão de costumes; de outro, progressistas que exigem ampliação do Estado social e justiça climática. Entre um e outro, a certeza de que as eleições, e somente as eleições, seguram os cacos da democracia.
Os versos “Gigante por natureza”, do Hino Nacional, e “Nas favelas, no Senado”, da canção, ainda são relevantes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a desigualdade de renda no país, embora tenha diminuído um pouco no pós-pandemia, ainda coloca o Brasil entre as dez nações mais desiguais do planeta. A geografia da fome e da riqueza segue a mesma cartografia da canção: do Araguaia à Baixada Fluminense, o acesso a saneamento básico e segurança pública é muito diferente. Quando Renato Russo afirmou que “ninguém respeita a Constituição”, ele se referia ao descaso com a Carta de 1988 que nunca foi totalmente cumprida.
Décadas depois, os problemas persistem, mas sob nova roupagem. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 indicam que, embora as taxas de homicídios tenham diminuído em relação ao pico da década passada, o “sangue que anda solto” ainda mancha os papéis da gestão pública, com um número crescente de feminicídios e violência policial em periferias, um ponto sensível que tanto a direita (ao defender o armamento e o endurecimento penal) quanto a esquerda (ao clamar por desmilitarização) tentam tratar, mas sem consenso.
Contudo, ignorar os avanços seria um erro jornalístico. O estribilho “Terceiro mundo se for / Piada no exterior” foi radicalmente atualizado pelo crescimento econômico sustentado das últimas décadas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta para 2026 um Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro na casa dos trilhões de dólares e consolida o país como a 9ª maior economia do mundo em termos de paridade de poder de compra. O agronegócio, a mineração, o petróleo e o pré-sal ajudaram o Brasil a superar os saldos da balança comercial de exportação.
Como resultado, o país entrou definitivamente no seleto clube dos BRICS e atua como fiador geopolítico entre o Sul Global e as potências ocidentais. Assim, o verso “vamos faturar um milhão” tornou-se, portanto, subestimado, porque o Brasil já está faturando trilhões. Mas a pergunta que ecoa nas ruas é se essa riqueza chega ao trabalhador da periferia ou se fica concentrada nos dividendos do agronegócio e do sistema financeiro.
A provocação mais ácida da canção – “quando vendermos todas as almas dos nossos índios num leilão” – encontra, em 2026, uma resposta institucional ambivalente. De fato, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) apontam que a valorização dos povos originários cresceu exponencialmente na última década, especialmente após o reconhecimento internacional do papel dos indígenas como guardiões da floresta em pé.
Entretanto, a tese do “Marco Temporal” segue sendo o cabo de guerra jurídico entre a bancada ruralista (que deseja ampliar áreas produtivas) e os movimentos progressistas (que defendem a demarcação contínua). Longe de serem “vendidas”, as almas indígenas são hoje glorificadas em fóruns globais, mas a violência contra lideranças comunitárias, segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ainda persiste em níveis alarmantes, provando que a letra de 1987 não é um fóssil, mas um espelho distorcido.
O grande divisor de águas do Brasil de 2026 é a profunda divisão política. A extrema direita, organizada em redes e com forte capilaridade nas casas legislativas, defende uma agenda de redução do Estado, pautas de costumes tradicionais e enfrentamento armado à criminalidade organizada, frequentemente flertando com o revisionismo do período militar. Do outro lado, a frente progressista, composta por partidos de esquerda, movimentos sociais e ambientalistas, aposta na regulação de plataformas digitais, na reforma tributária sobre grandes fortunas e em políticas afirmativas de gênero e raça. Segundo a cientista política Esther Solano (Unifesp), “a polarização deixou de ser conjuntural para se tornar estrutural, definindo não apenas o voto, mas a sociabilidade cotidiana dos brasileiros”.
Em agosto de 2026, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), por meio do Centro de Políticas Sociais, constatou que 78% dos eleitores acreditam que o país está dividido ao meio, mas, paradoxalmente, 91% declaram que o voto direto e a auditoria das urnas eletrônicas, que estão sempre sujeitas ao escrutínio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são os únicos meios legítimos da alternância de poder.
Essa fé nas urnas é o ponto nevrálgico que une os extremos hoje. Como bem atualizou o contexto da música, “todos acreditam no futuro da nação” e há uma data marcada nas eleições para não permitir que nossa democracia seja despedaçada. As eleições de 2026, cujo calendário se aproxima e já aquecem os ânimos, confere ao 7 de Setembro um simbolismo renovado: a Pátria não se comemora mais apenas pelo grito do Ipiranga, mas pela resiliência de seu processo democrático frente às tentativas de ruptura.
O Brasil de 2026 é, ao mesmo tempo, o país do verso e da contravenção. A sujeira ainda está “pra todo lado”, a violência persiste e a Constituição é diariamente rasgada por brechas legais e pelo jeitinho. Entretanto, ao contrário da amargura da canção, a nação já não é coadjuvante no cenário global. É um colosso econômico que abastece o mundo, um celeiro verde e uma potência mineral que aprendeu, a duras penas, que a Independência não se limita à data de 1822, mas se conquista diariamente no respeito às instituições.
Se Renato Russo profetizou o caos, a geração de 2026 espera a mediação. A extrema direita e os progressistas podem não se entender sobre costumes, tributos ou florestas, mas convergem no altar do voto popular. Nesta terça-feira, 7 de Setembro, a maior celebração da soberania nacional não está nos desfiles ou nos discursos patrióticos, mas na certeza cívica de que, não importa quanto sangue manche os papéis, a caneta da urna ainda é mais poderosa que a espada da discórdia.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
