Valfrido Silva*
Se o leitor imaginava que, depois do resultado das urnas, a política brasileira teria alguns dias de descanso, é melhor não guardar o capacete. O inconformismo bolsonarista parece ter entrado na fase da ficção científica, com pitadas de filme de guerra e um orçamento que, na imaginação dos roteiristas, seria pago pelo contribuinte americano. Nos bastidores que rolam da terra do agro, uma história de fazer Hollywood pedir os direitos autorais: Nantes, o candidato derrotado por Lula, teria ido aos Estados Unidos a convite de Donald Trump e poderia voltar de lá acompanhado do presidente americano para “buscar Lula”. Isso mesmo: se as urnas não entregaram a faixa, quem sabe a Casa Branca não providencia o serviço de transporte? A democracia brasileira, que já precisou suportar a choradeira de quem não aceita perder, agora correria o risco de virar cenário de uma produção internacional intitulada O candidato, o presidente e o bombardeiro. Falta apenas definir quem paga o combustível e quem explica aos passageiros que eleição não é encomenda extraviada.
A história ganha contornos ainda mais cinematográficos quando se imagina a aeronave adequada para a aventura. Um B-2, talvez? O bombardeiro furtivo americano, com seu desenho de asa voadora, daria ao passeio uma elegância apocalíptica. Nantes embarcaria candidato derrotado e desembarcaria, na fantasia dos mais exaltados, presidente por aclamação do próprio fã-clube, com Trump de padrinho, piloto político e mestre de cerimônias. O roteiro só precisaria resolver alguns detalhes sem importância para os autores da ideia: a Constituição brasileira, o resultado das urnas, a soberania nacional e o fato de que Donald Trump não tem procuração para escolher quem governa o Brasil. Mas, convenhamos, exigir coerência de um enredo desses seria como cobrar realismo de um filme em que o protagonista perde a eleição e tenta ganhar a Presidência na base do fretamento aéreo.
O problema é que a realidade já forneceu um precedente assustadoramente concreto para alimentar fantasias desse tipo. Em janeiro de 2026, forças militares dos Estados Unidos atacaram alvos na Venezuela e capturaram Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, levando-os para território americano. A operação, anunciada por Trump, provocou uma crise internacional e escancarou uma possibilidade que, até então, muitos tratariam como roteiro de ficção geopolítica: a intervenção militar de uma potência para capturar o governante de outro país. Não foi rumor de rede social nem invenção de assessor com excesso de imaginação. Aconteceu. É justamente por isso que a comparação merece atenção — e não porque o episódio venezuelano prove que exista qualquer operação semelhante contra Lula. Uma coisa é um fato consumado; outra é pendurar uma fantasia brasileira na carcaça de um acontecimento internacional e sair por aí anunciando a estreia do filme.
É nesse terreno que reaparece Juan Guaidó, o personagem que dá título à nossa provocação. Em janeiro de 2019, então presidente da Assembleia Nacional venezuelana, ele se declarou presidente interino, contestando a legitimidade do mandato de Maduro. Os Estados Unidos e outros governos reconheceram sua reivindicação, e a Venezuela mergulhou numa prolongada disputa sobre quem tinha legitimidade para governar. Guaidó tornou-se o símbolo de uma presidência reivindicada, reconhecida por aliados estrangeiros, mas sem conseguir assumir efetivamente o controle do Estado. A lição é simples: proclamar-se presidente, receber aplausos internacionais e exercer o poder são três coisas diferentes. A pergunta sobre Flávio Bolsonaro, portanto, não é se ele pode ganhar o apelido de Guaidó brasileiro numa manchete provocativa. É se a derrota eleitoral dará origem a alguma tentativa de construir uma legitimidade paralela, apoiada em aliados estrangeiros e numa narrativa segundo a qual o resultado das urnas não precisa ser aceito quando desagrada ao candidato.
A ida de Flávio aos Estados Unidos acrescenta um elemento concreto ao cenário, mas não transforma automaticamente o resto da história em verdade. Viajar, reunir-se com aliados, buscar apoio político no exterior e até organizar uma oposição a partir de outro país são coisas de naturezas diferentes. Proclamar-se presidente, reivindicar um mandato que não se conquistou ou defender uma intervenção estrangeira para retirar Lula do poder seriam outros capítulos — e muito mais graves. A suposta missão conjunta de Trump e Nantes para “buscar Lula” continua no terreno do rumor. E, até mais, do humor bolsonarista. Mas, convenhamos, a imaginação dos inconformados não parece conhecer fronteiras: se não conseguiram resolver o problema nas urnas, talvez achem que possam resolvê-lo na alfândega, na pista de pouso ou na sala presidencial da Casa Branca. Só falta combinar com o Brasil, que não é território alugado para aventuras eleitorais de ninguém.
E que imagem seria essa? Trump descendo de um B-2 — ou mandando alguém descer, porque o homem também tem uma agenda —, Nantes ao lado, a faixa presidencial guardada na bagagem e uma ordem de serviço para recolher Lula no Palácio do Planalto. O presidente brasileiro seria tratado como pacote a devolver ao remetente, com etiqueta de “destinatário não autorizado”? A cena é tão absurda que quase merece trilha sonora, explosões ao fundo e uma participação especial de algum assessor explicando que o resultado eleitoral foi cancelado por falta de satisfação do cliente. O problema é que, quando a fantasia envolve força militar estrangeira, soberania nacional e a retirada de um presidente, o riso vem acompanhado de uma pergunta incômoda: será que há gente falando sério sobre coisas que deveriam permanecer no território da ficção?
A Constituição brasileira não funciona como cláusula de cancelamento de compra. A Presidência não muda de mãos porque um candidato derrotado conseguiu uma fotografia ao lado de um presidente estrangeiro, recebeu elogios de aliados ou foi aplaudido por uma plateia de compatriotas inconformados. Se houver contestação, existem regras e instituições; se houver tentativa de interferência externa, há uma questão de soberania; se alguém estiver articulando uma aventura para substituir o resultado eleitoral pela vontade de um padrinho estrangeiro, o assunto deixa de ser apenas motivo de piada. Não é preciso imaginar uma invasão para reconhecer a gravidade de uma política que trate a vontade dos eleitores como um inconveniente a ser removido. A democracia não vem com botão de devolução, nem aceita troca por um modelo importado com mais potência de fogo.
Por enquanto, Nantes pode continuar como protagonista desse épico de bolso, Trump como o padrinho imaginário e o B-2 como a estrela que não recebeu ordem de decolagem para essa missão. Se aparecer prova de que existe uma articulação concreta para reivindicar o poder ou buscar apoio estrangeiro contra a ordem constitucional brasileira, a história muda de dimensão e precisa ser apurada com rigor. Até lá, o escracho está liberado; a notícia inventada, não. Afinal, uma coisa é rir da fantasia, outra é ajudar a vendê-la como fato. E o jornalismo não precisa abandonar o humor para preservar o compromisso com a realidade — basta não confundir o palco com o plenário, o roteiro com o documento e a conversa de bastidor com uma ordem de operação.
Nantes, o Guaidó brasileiro? Por enquanto, a interrogação permanece. E o B-2, para alívio de quem ainda leva a soberania nacional a sério, fica no hangar, ao menos até que os fatos, e não a imaginação dos inconformados, provem o contrário. Se a intenção é fazer comédia, o roteiro está quase pronto: o derrotado procura o padrinho no exterior, o padrinho aparece com um bombardeiro, o vencedor é colocado na lista de objetos a recolher e a democracia vira bagagem extraviada. Se alguém estiver falando sério, porém, o país tem um problema muito maior do que uma piada de mau gosto. E não há avião furtivo capaz de esconder o ridículo de quem imagina que perder uma eleição dá direito a sequestrar a realidade.
No fundo, a fantasia talvez só encontre tamanho entusiasmo entre os inconformados porque Nantes é filho de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão por crimes ligados à trama golpista; a dinastia que sonhou perpetuar-se no poder agora parece procurar, no exterior, um roteiro alternativo para uma derrota que as urnas não deixaram reescrever.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
