Valfrido Silva*
O Brasil está uma zona. E não é força de expressão. Basta olhar para Brasília, onde a política parece ter abandonado qualquer constrangimento e transformado o interesse público numa espécie de balcão de negócios, disputas e conveniências. O país sai de uma eleição presidencial marcada pela acachapante derrota de Flávio Bolsonaro e pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, mas não sai da crise. Lula conquistou um quarto mandato, porém terá de governar com um Congresso mais à direita, bancadas conservadoras fortalecidas e uma oposição que não pretende facilitar sua vida. A vitória no Executivo não lhe entregou as chaves do Legislativo. É nesse ambiente de ebulição, descrédito e procura por novos rumos que uma personagem de Dourados começa a merecer atenção para além do folclore eleitoral: Isa Marcondes, a Cavala.
Ex-dona de uma casa de “tolerância” em Dourados, vereadora mais votada nas eleições de dois anos atrás e agora deputada federal eleita, Isa construiu uma presença pública que não depende de discrição nem de linguagem plastificada. Sua frase de apresentação — “Brasília está uma zona e de zona eu já provei que entendo e resolvo” — vale como bordão, provocação e resumo de uma estratégia política. Enquanto consultorias tentam fabricar candidatos com aparência de produto de prateleira, a Cavala apresenta a própria biografia como credencial. É assumidamente lésbica, não esconde sua antiga atividade profissional e se declara conservadora e admiradora de Jair Bolsonaro. Uma combinação que embaralha as etiquetas de quem ainda imagina que a política brasileira possa ser organizada em caixinhas ideológicas sem contradições.
Mas seria um erro tratá-la apenas como personagem pitoresca, dessas que rendem memes durante a campanha e desaparecem quando começa o trabalho parlamentar. Isa já é conhecida para além de Dourados por suas fiscalizações performáticas, confrontos públicos e presença nas redes sociais. Nesse aspecto, faz parte de uma linhagem contemporânea em que a notoriedade pode chegar antes da estrutura partidária e do programa político: Nikolas Ferreira, André Janones e Pablo Marçal são exemplos, cada qual a seu modo, de como a comunicação direta, a provocação e a capacidade de mobilizar públicos se tornaram instrumentos de poder. A Cavala acrescenta a esse repertório uma trajetória pessoal que, em vez de esconder, transforma em marca.
A ironia está em que uma direita frequentemente empenhada em se apresentar como guardiã da moral, dos bons costumes e da família pode encontrar uma de suas novas expoentes numa mulher cuja história profissional e vida pessoal desafiam justamente os padrões que esse discurso costuma defender. Isa não precisa resolver essa contradição para conquistar espaço; por enquanto, parece saber convertê-la em identidade política. O que importa, daqui pra frente, é observar se a personagem conseguirá ultrapassar o espetáculo e construir influência, articulação e trabalho parlamentar. A Câmara Federal não é uma rede social, embora muitos de seus integrantes pareçam acreditar que seja.
A história política brasileira, aliás, tem longa experiência com personagens que chegam ao poder rompendo os protocolos da respeitabilidade convencional. O campo-grandense Jânio da Silva Quadros fez da vassoura um símbolo eleitoral para se eleger presidente da República e prometeu varrer a corrupção; sua ascensão mostrou como um personagem de linguagem própria e gestos teatrais podia conquistar o imaginário popular. A vassoura janista virou marca nacional, assim como outros políticos souberam transformar apelidos, hábitos e excentricidades em capital eleitoral. Não se trata de comparar trajetórias ou destinos, mas de reconhecer um traço recorrente: em momentos de desgaste das estruturas tradicionais, o eleitor pode abrir espaço para figuras que os círculos políticos estabelecidos não levaram a sério a tempo.
Dourados conhece bem esse tipo de fenômeno. A cidade já teve o vereador Azola do Burro, que fazia campanha desfilando num jegue, com uma enorme raiz de mandioca às costas. Depois veio Ari Artuzi, o “animal do pelo curto”, personagem popular que saiu de uma trajetória distante dos bastidores da política, conquistou mandatos de vereador e deputado para depois chegar à Prefeitura. Quem não se lembra da antiga Belina com que levava doentes aos hospitais — os “hispitais”, na pronúncia que entrou para a memória popular? Sua passagem pela política terminou sob o impacto da Operação Uragano, que culminou com sua prisão e renúncia. Azola tinha o jegue e a mandioca; Artuzi, a Belina e o apelido; agora Dourados manda para Brasília a Cavala, que assumiu o nome também equino e fez disso uma bandeira. A cidade parece ter um repertório próprio de personagens eleitorais improváveis. A diferença é que Isa terá à disposição a tribuna, os corredores e os instrumentos de poder do Congresso Nacional.
Além de Jânio Quadros, Mato Grosso do Sul também já produziu figuras que ultrapassaram as fronteiras regionais, embora por caminhos e com posições muito diferentes. Simone Tebet e a douradense Soraya Thronicke são exemplos mais recentes de trajetórias que ganharam projeção nacional, ambas candidatas à presidência da República em 2022. A terra do agro não exporta apenas soja, carne e discursos de produtividade; de vez em quando, também envia para Brasília personagens que desafiam as previsões dos analistas. A Cavala chega a esse cenário com uma vantagem: não precisa ser apresentada ao público como uma novidade absoluta. Sua passagem pela política municipal já lhe deu visibilidade, e sua eleição abre uma etapa em que terá de mostrar o que pretende fazer com o mandato.
Isa não esperou a posse para começar a se movimentar em Brasília. Enquanto muitos eleitos aproveitam o intervalo para descansar, ela já procura espaço de trabalho, frequenta ambientes parlamentares e tenta, desde já, descobrir os caminhos por onde circulam os recursos públicos, principalmente o mocó das emendas parlamentares. A disposição de aprender é um começo; o teste será transformar essa curiosidade em atuação transparente, prestação de contas e resultados concretos para a população que representa. Emendas parlamentares podem levar recursos a quem precisa, mas exigem critérios, fiscalização e responsabilidade. Uma coisa é conhecer a zona pelo balcão; outra é explicar o livro-caixa da República.
A movimentação em torno da nova deputada também não passou despercebida por outras mulheres da política. A senadora Damares Alves já manifestou entusiasmo com a ascensão de Isa, a quem associou à renovação de lideranças conservadoras. Na Câmara, a douradense encontrará mulheres com trajetórias e posições distintas, como Camila Jara, Rose Modesto e Érica Jhonson. A convivência e, eventualmente, o confronto entre essas parlamentares poderá produzir debates interessantes, desde que a disputa não se limite à encenação para as redes. A presença de mulheres com histórias tão diferentes amplia o repertório da política, mas não dispensa nenhuma delas de demonstrar preparo, coerência e capacidade de atuação.
É também nesse ponto que a história da Cavala se conecta à reorganização da direita brasileira. A derrota de Flávio Bolsonaro não significa o desaparecimento do campo político que sustentou o bolsonarismo. A família perdeu a eleição e expôs suas próprias dificuldades, mas o eleitorado conservador continua existindo, assim como as bancadas, os grupos organizados e as lideranças que disputam sua representação. Talvez seja hora de deixar de usar “bolsonarismo” como explicação para tudo o que acontece à direita e observar a formação de um campo mais amplo de direitismo radical, com diferentes rostos, discursos e projetos. O desgaste de uma marca familiar não elimina o público que a acompanhava. A política não costuma deixar prateleiras vazias por muito tempo.
É nesse espaço que Isa poderá tentar crescer. A direita procura nomes capazes de falar com seu eleitorado sem depender permanentemente do sobrenome Bolsonaro. Pode apostar em governadores, lideranças empresariais, parlamentares de carreira ou em figuras que surgem de fora dos circuitos tradicionais. Dourados oferece agora sua candidata a esse novo capítulo. A pergunta não é se a Cavala tem o perfil convencional de uma liderança nacional — evidentemente, não tem. A pergunta é se conseguirá transformar sua capacidade de provocar, mobilizar e chamar atenção em organização política, influência parlamentar e resultados. Lula, retirante nordestino, operário e dirigente sindical, já demonstrou que a origem social não determina o tamanho de uma trajetória. Isso não torna comparáveis os projetos nem antecipa o destino de ninguém; apenas lembra que a política brasileira raramente respeita os limites que seus observadores tentam impor.
O presidente terá de enfrentar um Congresso difícil, enquanto a direita procura reorganizar-se depois da derrota eleitoral e do desgaste da família Bolsonaro. Nesse ambiente, personagens como Isa podem encontrar oportunidades que não existiriam em tempos de maior estabilidade e confiança nas instituições. A Cavala pode virar uma liderança nacional, pode permanecer como fenômeno de comunicação ou pode descobrir que Brasília é uma zona bem mais complicada do que aquela que conheceu em sua vida profissional. O mandato dirá.
Dourados e o Mato Grosso do Sul já colocaram mais de uma personagem na pista. Jânio Quadros tinha a vassoura, Simone Tebet o nome do pai, também senador e presidente do Congresso; Soraya Thronicke a carona de Bolsonaro; Azola tinha o jegue; Artuzi, uma Belina velha adaptada como ambulância. Isa Cavala chega com uma Van transformada em gabinete itinerante e uma promessa que parece feita sob medida para o momento nacional. O agro é pop, dizem. E, pelo visto, a política sul-mato-grossense também tem seus produtos de exportação. A largada ainda não foi dada, mas a potranca já está em Brasília e a porteira aberta, desta vez, é a do Congresso Nacional.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor
