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sexta-feira, outubro 30, 2026

Lambendo a cria

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O dia acordou quando eu ainda estava nos ares. A aterrissagem ficou comprometida, com o espaço aéreo repleto. Finalmente, estava novamente pisando na terra querida, de esperanças e desesperos. De criatividade e conformismo. E eu, desnorteada, com vontade de entender tudo.

Deparei-me com mortes. A do professor Paulo Nolasco chegou até mim por meio do contrapontoMS, dos amigos de Dourados ligados à literatura e da Academia. Lembrei-me da conversa que tivemos no começo do ano sobre a literatura sul-mato-grossense, publicada na minha página do YouTube.

Também me veio a notícia de Minas Gerais, trazida pela amiga e professora de literatura Ana Clark, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), onde Paulo Sérgio Nolasco dos Santos realizou seu doutorado em Literatura Comparada, entre 1989 e 1993, na Faculdade de Letras. Muitas mensagens reconheceram a importância do professor, inclusive a da Associação Brasileira de Literatura Comparada (Abralic), que o definiu como “docente e pesquisador da UFGD, nome que esteve na frente da consolidação da literatura comparada no Brasil”.

A retomada do contato continua com a família, com visitas a velhos lugares que, no passado, abraçaram minha existência. Penso no futuro com o novo livro Ele: uma procura infinita, que pude, finalmente, tocar, folhear e lamber a nova cria, como dizia nosso poeta maior, Manoel de Barros.

Ver o país depois das eleições, entender um povo, um partido que praticou uma façanha admirada e já copiada no exterior: a forma de retomar o rumo e virar uma tendência, com o apoio de um “exército” em torno do candidato à Presidência.

Eu e os partidários de Lula queremos agora, depois do descanso do guerreiro, a luta, o trabalho pelas mudanças necessárias.

Na expectativa de rever amigos e lugares, tomar a água das lembranças, comer os frutos que não encontro por lá. Não é, Gonçalves Dias?

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Canção do Exílio, 1843.

Na expectativa também de comer mangas-coquinho, pequenas, arredondadas, de um doce incrível, que amadurecerão logo mais. E ainda há tantos lugares, tantas pessoas para rever e a alegria de ver o novo livro nas mãos dos leitores e em suas leituras.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 16 livros publicados (seis em francês). Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.

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