09/07/2020 – 08h28
O lançamento do livro seria neste 9 de Julho, mas foi suspenso por causa da pandemia do coronavírus
O País estava em plena ditadura militar. O presidente da República, Emílio Garrastazu Médici era o mais duro dos generais que passaram pelo governo dito revolucionário que tomara de assalto o País em março de 1964; o governador do Mato Grosso, o também linha dura José Fragelli, um udenista de quatro costados que trabalhara para o próprio Médici quando de sua passagem pelo comando da 4ª Divisão de Cavalaria em Campo Grande e o prefeito de Dourados o radialista Jorge Antônio Salomão, afiliado político de outro udenista, Rachid Saldanha Dérzi.
Foi nesse cenário e nesse clima político que iniciei na lida jornalística e assim mesmo por uma obra do acaso, já que o jornalista Theodorico Luiz Viegas trocou as bolas (ou as fichas), ao admitir-me na Folha de Dourados, no início dos anos setenta. Acabara de curtir férias numa fazenda na antiga Colônia Penzo, depois município de Antônio João, onde cavalguei durante vários dias no mesmo cenário da guerra em que tombou nosso herói que emprestou o nome àquela cidade, o mesmo Antônio João que deixou a célebre frase que serve de legenda ao seu busto, na praça central de Dourados, que também leva seu nome: “Sei que morro, mas meu sangue e de meus companheiros servirá de protesto solene contra a invasão do solo de nossa Pátria”. Nos dias em que lá passei com meu tio Mauro Barros, um boiadeiro mato-grossense de Barão de Melgaço que se apaixonara pela irmã mais nova de minha mãe, além de ajudá-los na fabricação de queijo ainda encontrei tempo para, à sombra de uma frondosa mangueira, estirado numa rede, devorar um monte daqueles livrinhos de bolso com histórias de bangue-bangue. Havia terminado o ginásio e feito um curso de datilografia na escola da professora Cladir Medeiros, que funcionava em frente à praça Mário Correia. Naquela época ter um curso de datilografia era quase ser doutor. Graças àquele “canudo” havia conseguido meu primeiro emprego, como auxiliar de escritório, na autoescola Ana Cristina, depois de vender muito frango na feira em companhia de meu avô João Evangelista (Urbano) Luiz da Silva. Íamos de carroça, todos os sábados de madrugada, até o Panambi ou ao meu Jaguapiru, buscar frangos caipiras, mandioca, bananas e tudo mais que encontrássemos de produção indígena que pudesse ser comercializado na cidade. De lá fui para a Gráfica Alvorada, do paraguaio Adriano Apontes Amarilla, onde aprendi fazer carimbos de borracha e montar as primeiras chapas para imprimir talonários de notas fiscais e cartões de visita. A impressão era feita numa máquina manual e acho que vem daí as dores no ombro que tenho até hoje.
Até então a única curiosidade que um jornal me despertara era quanto à sua impressão. É que na minha infância, duas ou três vezes por semana saia de casa, na Cabeceira Alegre, e vinha até o centro da cidade, primeiro a pé, depois de bicicleta, apanhar trouxas de roupas sujas para minha mãe lavar em casa. Primeiro na residência de dona Nina, avó de um moleque que seguiria os passos de nosso poeta primeiro, Armando Carmelo. O nome do guri: Emmanuel Marinho. Depois, minha mãe pegou roupas para lavar dos pais de Emmanuel, seu Armando e dona Sônia, nos fundos do Bazar Regina, à época na avenida Marcelino Pires. Eu chegava bem cedinho, em tempo de pegar carona no café da manhã deles. Nessas idas e vindas, passava por um prédio, na rua Rio Grande do Sul, à época conhecida como a rua dos velhacos, depois Weimar Torres, onde funcionava o jornal Gazeta do Sul. Impressionava-me o fato de uma folha entrar em branco na impressora, também manual, e sair dali cheia de notícias. Minha aspiração primeira era ser mecânico, influenciado pelo movimento que via na oficina do Mimi (família Matos Rocha), nas proximidades do atual Shopping Center. Depois comecei a sonhar em ser piloto de avião, de tanto que brincava nas imediações do antigo campo de aviação, cuja pista começava onde depois foi erguida a sede do Ubiratan Esporte Clube e terminava nas proximidades do cemitério Santo Antônio de Pádua. Até que um dia presenciei um acidente provocado pelo pouso forçado de um bimotor Navajo, fiquei com medo e nunca mais apareci por lá. Já era o segundo acidente aéreo perto de mim, o primeiro havia sido com um teco-teco que também fizera um pouso forçado na entrada de Itaporã, onde morei na infância, quando Luiza Brunet nem havia nascido. Premonições, talvez, já que depois de adulto passaria por três situações de apuro no ar: num voo com o secretário de Saúde do Mato Grosso, Antônio Alves Duarte e seu genro, deputado Horácio Cersósimo, quando tivemos que terminar uma viagem de Nova Andradina até Dourados de carona numa caminhonete, depois do tempo fechar enquanto sobrevoávamos Glória de Dourados; numa arremetida de um Boeing da Vasp no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e, no que deu mais ibope, quando um maluco que viajava ao meu lado tentou incendiar um avião da Gol, numa madrugada em pleno pantanal mato-grossense.
Minha derradeira aspiração antes de entrar para o jornalismo impresso era ser locutor de rádio. Aproveitei que Marco Antônio Cunha, um dos diretores da Rádio Clube de Dourados, namorava a mesma Regina, irmã de Emmanuel Marinho, para fazer lobby. Ele ofereceu-me uma vaga como sonoplasta, mas recusei, dizendo que queria ser locutor. Mas como locutor, sem nem voz eu tinha para tanto? No dia seguinte à eleição de Jorge Antônio prefeito lá estava eu logo cedo no portão de sua casa, ao lado dos Correios, pedindo emprego. Acompanhei-o até a rádio e fiquei lá, do lado de fora do aquário, como peixe fora d’água, assistindo o programa “A Bronca” ao vivo. Perdi a conta de quantas aulas de educação física matei, porque eram de manhã, no mesmo horário do programa que fez “seu Jorge”, depois meu patrão, virar prefeito. Um de meus professores de educação física era, por coincidência, um dos locutores do programa jornalístico da emissora, Sultan Rasslan.
Fiquei todo faceiro quando meu pai mandou que procurasse por Theodorico Luiz Viegas, nosso primo, na Folha de Dourados, já que haveria lá um teste para repórter. Era uma segunda-feira de janeiro de 1970 e fui o primeiro a chegar ao prédio da Distribuidora Mato-grossense, na avenida Marcelino Pires, próximo da Praça Antônio João. Theodorico me recebeu com um balde, uma vassoura e um pano de chão, mandando-me fazer faxina. A Distribuidora Mato-grossense, que representava jornais de São Paulo como “O Estadão”, “Diário” e “Folha”, além da revista “O Cruzeiro”, funcionava também como loja de discos, gráfica, onde era impressa a Folha de Dourados e um serviço de alto-falante, onde os locutores Cedar (Nho Tito) e Cesar Montiel faziam uma despretensiosa concorrência com a Rádio Clube, a única emissora da cidade. Levei quase toda a manhã para varrer e passar pano em todo o piso do prédio e na calçada. Quando pensei que havia terminado, com o pessoal que viera para o tal teste de repórter chegando e entrando numa salinha na parte da frente, Theodorico aparece com uma lata de cera parquetina e um esfregão: “quero tudo isso brilhando antes do almoço”, disse-me, com ar irônico. Ele já estava sabendo do equívoco que cometera e só mais tarde vim saber que aquele serviço de faxineiro estava reservado a um outro parente dele – meu primo Adão Machado, meio parecido comigo, que chegara depois de mim e fora dispensado. Essa era uma característica de Theodorico, gozador ao extremo, sempre pregando peças e inventando pegadinhas para os funcionários, principalmente os novatos. Fui vítima, dias depois, da mais manjada dessas brincadeiras, quando me mandou buscar um “martelo de borracha” na gráfica de Naurestides Brandão, que ficava no mesmo quarteirão. Naquele meu primeiro dia, quando voltei, à tarde, depois de reclamar em casa que havia sido colocado na faxina, Theodorico não perdeu a pose. Não me dando oport
unidade de reclamar pelo mal-entendido, levou-me até um cavalete onde eram compostos os textos e montadas as chapas de impressão, entregando-me um componedor. Depois de algumas explicações de como usar aquele estranho instrumento, onde se colocava letrinha por letrinha até formar frases, depois linhas sobre linhas, em medidas que formavam as colunas, que eram montadas sobre uma placa de metal – a bolandeira –, deixou-me mais aliviado: “agora você vai começar o seu teste”.
Durante os primeiros meses na Folha de Dourados a rotina se repetia. Faxina de manhã, oficina à tarde. Quando não tinha muita coisa para compor me mandava fazer cobranças e, uma vez por semana, entregar a revista “O Cruzeiro” na residência de seu Maçaroca e dona Biluca, os últimos assinantes daquela que fora uma das maiores publicações brasileiras da época. Uma menininha loura, muito bonita e graciosa, que sempre aparecia de minissaia ou shortinho para pegar a revista viria ser uma das minhas primeiras paixões, tempos depois. Meu grande medo era que um dia tivesse que entregar jornal, o caminho natural de quem começava como faxineiro. Medo da gozação, já que os colegas ficaram sabendo que chegara até ali para fazer um teste como repórter, fazia estágio como faxineiro e poderia acabar como jornaleiro. Cheguei a subornar outro primo que ali trabalhava, homônimo daquele com que Theodorico me confundiu, para que continuasse na entrega de jornais até que eu tentasse atingir meu objetivo, o de ser repórter. Aí, já influenciado pelo que ouvira um dia da professora, de português, claro, dona Filomena (naquela época professora não era tia), a responsável por ter-me enveredado pelo campo das metáforas. É que ao me flagrar fazendo redação para os colegas, já que eu nem me preocupava em trocar o papel ou a fita da máquina de escrever, ela vaticinou: você leva jeito para jornalista e, antes que eu tentasse justificar, foi logo me tranquilizando, dizendo que não ia me punir por isso, lamentando apenas a folga dos outros alunos por não conseguirem ou pela preguiça de escrever. Entre os que pegavam no meu pé com essas gozações estava um ex-jornaleiro, mas já craque na composição e paginação do jornal. De tão desengonçado que era ganhou o apelido de “feio”. Seu nome: Geraldo Resende Pereira. Já naquela época sonhava ser médico e pela eloquência que se percebia nele não era difícil imaginá-lo um dia político dos mais polêmicos.
Dos aprovados no teste para repórter foram aproveitados dois: Clayton Sergio de Freitas, para a “editoria” de polícia e geral e Neuza Barbosa, como colunista social. Serginho foi absorvido na oficina, depois virou bancário; Neuza demitida dias depois porque brigou com Theodorico por causa de uma polêmica sobre acentuação gráfica. Luiz Carlos Rocha, gerente da oficina acabou assumindo a função de repórter, mas não por muito tempo. Num final de semana, ressaqueado, pediu-me para que fosse até o campo da LEDA (Liga Esportiva Douradense de Amadores) anotar os dados do grande clássico da época – Ubiratan e Operário. Não só anotei as escalações dos times e os autores dos gols, como escrevi um texto contando a história da partida. Foi uma noite inteira de tentativas e quase um caderno inteiro consumido em rascunho, até chegar ao texto final. Na segunda-feira seguinte cheguei ao jornal com o texto pronto. Cacalo, como era conhecido nosso gerente, não fora trabalhar naquela manhã, ainda de ressaca. Aproveitei para entregar o texto direto a Theodorico. O jornal era semanário e a “redação” se resumia a um escritório com forte cheiro de charuto cubano num mezanino com vista para a oficina. Theodorico, sempre ao som de Altemar Dutra, cuja obra completa guardava em disco de 78 rotações, redigia seus textos numa máquina olivetti portátil e os mandava para baixo presos a uma borboleta amarrada na ponta de um barbante. Uma rotina que começava sempre quinta-feira. Naquela segunda-feira, à tarde, Cacalo me cobrou os dados do jogo de domingo. Quando disse a ele que já havia feito o texto e passado ao chefe, foi uma gozação geral. Começaram a chamar-me, ironicamente, de o “novo repórter”. Na quinta-feira, na primeira remessa de textos, o meu não estava no bolo. A gozação só aumentou. Theodorico não dava a mínima para o que acontecia lá embaixo. Não era todo o dia que estava com bom humor para conversar com os funcionários. Na sexta-feira, quando retornamos do almoço meu texto estava lá dependurado junto com os demais. Do jeitinho que eu havia feito, sem nenhuma correção. Mais gozação. Cacalo perguntou então a Theodorico se era pra fazer um novo texto sobre o futebol, ao que ele respondeu que não, que minha redação estava aprovada. Fui efetivado como repórter, pulei o estágio como jornaleiro, mas continuei acumulando a função de compositor e impressor do jornal, mas já fora da faxina. Um alívio, pois nessa época uma de nossos passatempos depois do almoço era paquerar as meninas que passavam em nossa calçada em direção ao Colégio Presidente Vargas. Depois que aposentei a vassoura até consegui namorar uma delas.
Theodorico sempre foi um bom repórter. Naquela época as redações não eram divididas em departamentos ou editorias. Aliás, nem redação existia. O dono do jornal normalmente era o repórter, o redator, o vendedor de espaço publicitário, tudo. Pauta? Ninguém nem sabia o que era isso! Nessa condição, depois de um giro pelos grandes centros como representante de um laboratório de produtos farmacêuticos, tornando-se um habilidoso comunicador, resolveu entrar para a mídia. Retornando a Dourados, fundou a Folha de Dourados, em 1968. Inicialmente a “folha de dourados”, grafado assim mesmo, em letras minúsculas para se diferenciar dos demais jornais, segundo ele, circulava apenas aos sábados, passando, na virada da década de setenta a circular três vezes por semana para, depois, por um curto período, se transformar no primeiro jornal diário de Dourados. Diário de segunda a sábado, bem entendido. A ousadia de Theodorico era para fazer frente ao poderio de O Progresso, título trazido de Ponta Porã para Dourados pelo poeta Weimar Torres, aqui começando a circular em 1951.
Naquela época os jornais estavam sob censura pelo governo militar. Antes de publicadas as matérias precisavam de um visto de alguém da caserna e como aqui não havia quartéis, quem dava a autorização para matérias que pudessem gerar alguma polêmica era o delegado de polícia. Foi assim que Theodorico foi parar na cadeia, depois de um entrevero com um major PM que exercia o cargo de delegado regional de polícia. Tive minha parcela de culpa neste episódio, pois a matéria que ocasionou a briga, em que Theodorico criticava o governador José Fragelli por aqui querer construir um presídio estava em stand by. Ele fez o texto e não o submeteu a apreciação do delegado, viajando para Fátima do Sul, não sem antes me alertar, dizendo que só o colocasse na página em último caso, ou seja, se não houvesse outra matéria. Como não havia nada mais interessante, coloquei a matéria do presídio e fiquei aguardando pelo seu retorno. Ao chegar, já tarde da noite, quis ver as provas do jornal. Ainda me perguntou se eu não tinha nada para colocar no lugar. Como eu não havia produzido nada interessante, foi aquele mesmo para a impressão.
No dia seguinte, o jornal já circulando, recebemos a visita do cabo Otávio, um temido PM de baixa estatura, já em fim de carreira, uma figura folclórica da polícia daquela época. Desceu de uma charrete e convidou Theodorico para que o acompanhasse até a delegacia, pois o major (Nelson Salomão) Saigale gostaria de conversar com ele. Desdenhando da figura do militar, Theodorico respondeu-lhe que sabia muito bem o caminho da delegacia e que não subiria naquela charrete, apontando para um fusquinha estacionado na frente do jornal, com o qual se dirigiria até lá.
Não deu meia hora, chegava a informação de que o nosso diretor havia sido preso e encaminhado ao 11º Regimento de Ca
valaria, em Ponta Porã. Atravessamos a avenida e pedimos socorro ao jornalista Sidney Gomes, que trabalhava na Câmara Municipal de Dourados, para que nos orientasse. Theodorico contou depois que fora agredido pelo delegado, revidando o ataque e recebendo voz de prisão, depois de ser advertido sobre a inutilidade de uma discussão sobre a lei de imprensa em pleno regime ditatorial.
Foi minha primeira grande lição sobre censura, no exato momento em que ascendia à condição de repórter, e tudo acontecia tão rápido que, de repente, já estava escrevendo sobre tudo no jornal. Minha primeira experiência fora das reportagens esportivas foi com um texto mostrando as precárias condições das estradas vicinais de Dourados, num período de safra e de muita chuva. Vi um texto tratando do mesmo assunto no jornal “O Estado de Mato Grosso” de Cuiabá. Aí pensei, se lá no Norte as estradas estão em péssimas condições, chove e nem tanta safra para colher eles têm, imagine aqui. Dei uma bisbilhotada nas condições de nossas rodovias aqui, peguei algumas informações por telefone e estava pronto o texto. Minha primeira reportagem, não chegava a ser um plágio, mas ficou bem parecida com a do jornal dirigido à época por Pedro Rocha Jucá, um grande parceiro de Theodorico. Interessante é que uns dias depois o jornal cuiabano transcreveu meu texto na integra. Foi minha primeira grande emoção como redator. A segunda foi com uma homenagem pelo dia da imprensa, na Câmara Municipal de Dourados. Um dia, no meio da tarde, enquanto intercalava folhas para blocos de notas fiscais impressas na gráfica da “folha”, ouvi uma conversa entre Theodorico e Sidney Gomes, secretário da Câmara Municipal. Ele viera ao jornal trazer um convite para uma sessão solene pelo dia da imprensa. Jamais poderia esquecer desta frase dele para Theodorico: “leva o menino, vamos homenageá-lo também, isso é bom, incentiva”. No dia dez de setembro de 1970 lá estava aquele foca, não se cabendo de tanta faceirice e “elegância”, numa calça de tergal listrada e uma camisa xadrez compradas fiado na lojinha de Joel Saburá, também ali em frente, no Edifício João Bosco. Ao meu lado o irmão de Geraldo Resende, Walter de Fátima Pereira, repórter de O Progresso que virou coronel da Polícia Militar.
Além de bom repórter e diretor rígido, Theodorico era também um grande companheiro fora do expediente. Gostava de patrocinar grandes rodadas de cerveja e fazer os mais variados tipos de assados. Nos fins de tarde era sagrado um picadinho de carne frita com farinha, na cozinha do jornal. Um dia ele viajou e resolvemos começar mais cedo a bebedeira. Era uma sexta-feira, a edição daquele fim de semana estava fechada e reunimos algumas meninas nos fundos do jornal, atrás de uns caixotes de verduras ali guardados pelo pessoal do mercado Yonekura, que ficava na esquina onde mais tarde seria construído o prédio da Riachuelo. Lá pelas tantas, todo mundo já alto, o baile correndo solto, quando a penumbra do ambiente começou ser invadida por uma espécie de relâmpago. Eram os flashes da máquina fotografia do patrão que chegara e ficara à espreita, tirando fotos para depois ter mais elementos para aprontar das suas. No meu curto período de colunista social, juntamente com Severiano Palhano dos Santos, assinávamos uma página com os nomes Melo&Palhano. Um dia Theodorico foi lá e trocou os nomes, chegando a imprimir alguns exemplares do jornal com o nome “Melo&Rego”. Um dia de muita chuva e frio, de madrugada, ele se recusou nos levar pra casa, como fazia sempre nessas ocasiões, dizendo que dava muito bem pra ir a pé ou de bicicleta. Enquanto esperávamos a chuva passar, tomando uns esquenta goela num barzinho que ficava aberto até mais tarde, vimos Teodorico tentando fazer seu pé-de-bode pegar na manivela. E nada do carro funcionar. Aí foi nossa vez de chantageá-lo: empurrávamos a ximbica em troca de uma carona. Foi a nossa salvação.
Numa edição especial de final de ano, eu já promovido a impressor do jornal, Geraldo Resende empastelou a primeira página. Estávamos já atrasados e aí a coisa complicou de vez, até que metade da página fosse refeita. A impressão começou já de madrugada, quando o restante do pessoal da oficina já comemorava com cerveja e carne assada a chegada das férias de fim de ano. O jornal era impresso numa máquina plana, de duas em duas páginas, frente e verso. Todo mundo ali festando e só eu e um auxiliar varando a madrugada imprimindo aquela edição especial. Para que não ficasse com a goela seca, de vez em quando Theodorico aparecia com uma garrafa de cerveja e servia direto na minha boca, para que eu não parasse com a impressão. Guardei por muitos anos uma foto registrando esta inusitada situação.
Não sei se por influência de Walter de Fátima Pereira ou do regime que vigorava no País, acabei interrompendo a lida jornalística para servir ao exército, alistando-me no 10º G CAM (Grupo de Artilharia de Campanha), em Campo Grande. Antes, porém, tive uma rápida passagem pela gráfica REI, de Rikio e Edson Higashi. Para não perder o costume, redigia e imprimia ali um informativo fundado e dirigido por Alfio Senatore – A Bola – além de um folheto dirigido aos cinéfilos que era distribuído na portaria das salas de exibição dos irmãos Rosa, pioneiros do cinema em Dourados. Neste folheto havia uma coluna chamada “salada cinematográfica” na qual contávamos sempre uma história aproveitando os nomes dos filmes em cartaz no mês e seus respectivos atores.
Mesmo no exército, não parei de trabalhar em comunicação. Nos dias de folga, em Campo Grande, tirava a farda e ia fazer plantão, de graça, na rádio difusora, PR-I 7, recém adquirida pelo grupo Zahran e funcionando na rua Barão do Rio Branco. Fiquei tão emocionado no dia em que J. Aguillar me deu aquela oportunidade que peguei um ônibus errado, e, em vez de seguir para o Jardim Alá, nas proximidades da TV Morena, onde morava na casa de meus tios, fui parar na saída de Cuiabá.
No meu primeiro domingo de plantão na Difusora quase tive um piripaque. Meu sonho de ser locutor de rádio estava se transformando em realidade. Quando cheguei à emissora Aguilar já estava com os equipamentos (maletas, microfones, fios etc) de transmissão do jogo no carro, apenas aguardando por Pio Lopes, o plantonista que me cedera o lugar e naquele dia era promovido a repórter. Encaminhou-me ao estúdio, entregando-me um volante da loteria esportiva e um rádio de pilha, no qual eu acompanharia os jogos dos campeonatos nos outros Estados, apontando-me, finalmente, o microfone: “quando eu te chamar, lá do estádio, vai acender aquela luz ali, ai você fala”. Pensei: falar o quê, meu Deus? Enquanto a equipe se diria ao Morenão tomei uns dez copos d’água e me posicionei no estúdio à espera daquele momento tão esperado. Tremia tanto que mal conseguia segurar os papéis. Começada a transmissão, eis a novidade que me aguardava: eu não era mais Valfrido da Silva Melo. Ao anunciar os nomes dos componentes de sua equipe, J. Aguillar, com seu vozeirão inconfundível, resolvera simplificar meu nome: “…e nos estúdios, no plantão esportivo, a mais nova aquisição da equipe PR-I 7, vai daí Val Silva! E assim, como Val Silva, comecei no rádio. Não sei o que saiu naquela primeira intervenção. Nunca consegui me lembrar o que falei, nem se falei. Fiquei lá enquanto durou meu período de internato na caserna.
Retornando a Dourados, nove meses depois, meu lugar na Folha de Dourados estava garantido. Theodorico reuniu a equipe e me anunciou como novo gerente, “agora que eu havia virado homem”, uma alusão à minha condição de reservista de primeira categoria, ou seja, de quem serve à Pátria nas fileiras do Exército Brasileiro.
De volta à rotina de trabalho e aí já enveredando também pela boemia, um dia cruzo com meu colega de ginásio Danilo Schnneider Marques, sonoplasta da Rádio Clube de Dourados, num boteco onde funcionava a antiga estação rodoviária. Conversa vai, conversa vem
, disse a ele de minha experiência na Difusora de Campo Grande, ao que ele sugeriu apresentar-me a José Guerreiro, o maior dos locutores esportivos que passaram por aqui. Não fiquei muito otimista, já que Guerreiro era subordinado a Marco Antônio Cunha e este já se cansara de minha cara lá pelos altos da rua Ciro Melo. Resolvi tentar mais uma vez. José Guerreiro repetiu J. Aguillar, passando-me instruções rápidas, mas para fazer rádio escuta, acompanhando os jogos dos campeonatos estaduais e deixando lá os resultados para ele apresentar o programa no dia seguinte. Era uma quarta-feira à noite. Não só anotei resultados, como redigi quase todo o programa para o dia seguinte. Na quinta-feira, depois de ler meu texto no ar, sem alterações, chamou-me para conversar no departamento de esportes. Fiquei mais de uma semana me escondendo do diretor Marco Antônio, que apresentava o programa Fatos e Notícias, com medo que ele não aprovasse minha presença ali. Aprovado por Guerreiro, fui levado à sala da direção, para ser apresentado e contratado. Marco Antônio me olhou, me analisou de cima embaixo como que dizendo, “que moleque insistente”. Contratado, mesmo sem a garantia de que daria certo no novo emprego, desci correndo pela rua João Cândido da Câmara até a Marcelino Pires. Theodorico ficou indignado com meu pedido de demissão e só depois de muito tempo voltou a falar comigo, pois além de perder o funcionário que acabara de promover tinha lá suas diferenças com Jorge Antônio Salomão, por causa da rádio que ajudara a fundar ao lado de Jacques Bruninho e Flávio Araújo, este, um dos maiores narradores esportivos do rádio brasileiro.




