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quinta-feira, maio 14, 2026

Chico, o 27

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02/02/2021 – 19h25

Quando Chico se deu por gente era, de fato, gente grande. Andava num miserê que, como ele mesmo dizia, “fazia gosto”.

De emprego em desemprego em emprego de novo para outro tempo desempregado, Chico vivia a vida possível, porque cedo percebeu a impossibilidade de modificar aquele seu viver desajustado e sem futuro, desde quando nasceu.

Ninguém sabia nada sobre o passado de Chico. Nem ele.

Foi casado, amigado, ajuntado? Nasceu onde? Filho de quem? Todas, perguntas sem respostas.
Chico não ria, pouco falava, jamais alguém o viu zangado, do mesmo modo nunca fez nada de interessante, mesmo que um pouco só.

Chico parecia uma sombra, eis que chegava e saía sem o menor alarde.

Um dia falaram pra o Chico se cuidar porque havia um vírus muito perigoso. Ele ouviu em silêncio e em silêncio foi embora.

Dias depois, a notícia: Chico fora levado ao hospital: mais um infectado.

Na enfermaria Chico deixou de ser Chico: passou a ser apenas o 27.

Até quando, no corredor, uma enfermeira avisou em voz alta:
– Vagou um leito, o 27 morreu !

No cemitério, Chico que deixara de ser Chico, também não foi mais o 27.
Finalmente, passou a ser o que sempre foi: ninguém.

Numa cova rasa, ao lado de muitas outras iguais, apenas a placa mal feita dá uma pista: INDIGENTE, PANDEMIA.

Antônio Carlos Nantes de Oliveira – Ex-deputado federal (MS)

Chico, o 27

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