20/04/2021 – 08h45
Em tempos de massacre dos bolsonaristas afiliada da Rede Globo mostra que ainda se pode fazer um bom jornalismo
No anedotário policial da fronteira corre a história de uma inusitada visita recebida não muito tempo atrás por Fahd Jamil em seu “senadinho” – o tunguete onde costumava recepcionar autoridades e políticos de vários matizes, no centro de Ponta Porã.
– “Patrão, tem aí um moreninho, diz que se chama Fernando, querendo falar com o senhor”. Nem bem o serviçal termina, eis que o visitante apresenta suas credenciais diante do dom Corleone da fronteira.
– “Sou o Fernandinho Beira-Mar, vim lhe fazer uma proposta”.
Incrédulo, Fahd leva imediatamente a mão ao botão do alarme para avisar a segurança, ao que Beira-Mar alerta:
– “Se tentar alguma coisa tenho trezentos pretos do Rio de Janeiro aí fora para cuidar de você e, nariz empinado, sem rodeios, abriu o jogo:
– “Daqui pra frente você cuida da fronteira de Ponta Porã pra cima; pra baixo cuido eu”.
Repito hoje essa historinha, publicada em meu livro “Sonhos e Pesadelos”, apenas para corroborar a chorumela do “rei da fronteira”, que se entregou ontem à polícia em Campo Grande. Também para reclamar de Fahd, por ele me desmentir, pois encerro o mesmo texto (publicado em julho de 2003 no jornal O Progresso) dizendo que “muito provável que por essas e outras é que Fahd Jamil não deixa rastro, depois de ter que engolir Fernandinho Beira-Mar em seu próprio bunker”, daí ao prognóstico de que com o “know-how que tem em xilindró (uma referência à sua primeira prisão, em Curitiba) não vai se entregar nunca.
Como meu blog é político e não policial, e, para fazer justiça ao trabalho da TV Morena no episódio, atenho-me a contar outra das muitas histórias que ouvi ou presenciei, do poderoso chefão da fronteira – a de sua tentativa de usar seu poder para influir na eleição para governador em 1990, em favor do irmão dele, Gandhi, que teve a ousadia de enfrentar nas urnas o todo-poderoso Pedro Pedrossian.
Como diretor de jornalismo da TV Morena, recebi um atrevido e impublicável recado de Fahd (com acusações desairosas das relações do concorrente Pedrossian com a família Zahran), isto porque ele estava contrariado pela forma como a emissora vinha tratando Gandhi Jamil, casado com Ana Carla Zahran, filha de Ueze Zahran, portanto na condição de herdeiro do poderoso grupo Copagaz-TV Morena.
Agora, nesses tempos em que a Rede Globo e suas afiliadas são massacradas pelo bolsonarismo, eis que a TV Morena (cuja filial, TV Ponta Porã, tem como um de seus sócios ninguém menos que o mesmo Gandhi Jamil) dá um belo exemplo de como se faz o bom jornalismo. Na edição de ontem não se limitou ao factual da coisa, mostrando a cinematográfica prisão do gangster em um aeroporto da periferia da capital, mas fazendo também uma retrospectiva de toda a sua trajetória como comandante em chefe do crime organizado no estado.

