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quarta-feira, maio 13, 2026

Esforço por liberdade de expressão dá a jornalistas o Nobel da Paz

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08/10/2021 – 07h56

Em aceno à importância da imprensa e da informação, prêmio escolhe filipina e russo que trabalham para fazer frente a governos de Rodrigo Duterte e Vladimir Putin

O Prêmio Nobel da Paz de 2021 foi para os jornalistas Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitri Muratov, da Rússia, por seus esforços para salvaguardar a liberdade de imprensa e de expressão em seus países, “uma condição para a democracia e a paz duradoura”. A homenagem, entendida como um endosso à importância do trabalho jornalístico de modo geral, foi anunciada durante uma cerimônia em Estocolmo nesta sexta-feira.

A decisão do Comitê Norueguês do Nobel, organização responsável pelo prêmio anual, foi considerada surpreendente, mas já se especulava que os vencedores pudessem ser pessoas ou organizações que buscam garantir a liberdade de imprensa, diante da proliferação de informações falsas e dos ataques contra o setor. O objetivo, afirmou a presidente do Comitê, Berit Reiss-Andersen, é “reforçar a importância de proteger e defender” direitos básicos:

— O jornalismo livre, independente e embasado por fatos serve para proteger contra abusos de poder, mentiras e propagandas de guerra. O Comitê Norueguês do Nobel está convencido de que a liberdade de expressão e a liberdade de informação ajudam a garantir um público bem informado — disse Reiss-Andersen. — Esses direitos são pré-requisitos cruciais para a democracia e protegem contra guerras e conflitos.

Ressa, de 58 anos, é cofundadora e diretora executiva do Rappler, um popular e influente site de jornalismo investigativo nas Filipinas. A primeira filipina a ser laureada com um Nobel, disse o Comitê, “usa a liberdade de expressão para expor abusos de poder, uso de violência e o crescente autoritarismo” em seu país, onde há anos é alvo de investigações, processos e ataques virtuais.

Parte significativa do trabalho do Rappler é focada na controversa e sangrenta “guerra às drogas” travada pelo presidente Rodrigo Duterte — segundo estimativas de 2020 da ONU, ao menos 8,6 mil pessoas foram mortas oficialmente e outras milhares perderam suas vidas em circunstâncias não esclarecidas. A conduta oficial é investigada pelo Tribunal Penal Internacional que, no mês passado, disse ter constatado o que parecem ser ataques sistemáticos contra a população civil.

— Um mundo sem fatos é um mundo sem verdade e sem confiança — disse ela, que neste ano também recebeu o Prêmio Mundial de Liberdade de Expressão da Unesco, em uma entrevista transmitida pelo Rappler, que também noticia extensamente escândalos e campanhas virtuais de desinformação do governo. — Os momentos mais perigosos são também os momentos em que [o jornalismo] é mais importante.

Dmitri Muratov

Já o russo Muratov, de 59 anos, é há décadas um defensor da liberdade de expressão na Rússia, sob cerco do governo de Vladimir Putin. Em 1993, ele fundou o jornal independente Novaya Gazeta (Nova Gazeta), cujo “jornalismo baseado em fatos e integridade profissional o transformaram em uma importante forma de informação em aspectos censuráveis da sociedade russa raramente mencionados por outros veículos”.

Desde 2000, seis jornalistas do periódico foram assassinados em uma Rússia onde vozes críticas ao governo são com frequência silenciadas — entre eles, Anna Politkovskaya, que escreveu reportagens reveladoras sobre a guerra na Chechênia. Nos últimos anos, o jornal desafiou o governo Putin com investigações sobre má conduta e corrupção, e cobriu com frequência o conflito com a Ucrânia.

Se a escolha foi um recado direto para o Kremlin, o governo russo preferiu ignorar. O porta-voz de Moscou, Dmitri Peskov, parabenizou Muratov por sua “valentia e talento” e por “trabalhar sem parar de seguir seus ideais”.

Primeiro russo a ganhar o Nobel desde Mikhail Gorbachev — que ajudou na fundação da Novaya Gazeta com o dinheiro que recebeu do prêmio em 1990 —, Muratov dedicou a homenagem aos colegas assassinados:

— Não posso atribuir o mérito a mim. É da Novaya Gazeta. É daqueles que morreram defendendo o direito do povo à liberdade de expressão — disse ele, segundo a agência russa Tass.

A vitória de Muratov e Ressa, disse o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, é “um reconhecimento da importância do trabalho de jornalistas nas circunstâncias mais difíceis”, que parabenizou todos os profissionais da imprensa. Para os Repórteres sem Fronteira, uma das organizações que apareciam como favoritas para receber o prêmio deste ano, a escolha do comitê é um “chamado para ação:

— Neste momento, dominam dois sentimentos: a alegria e a urgência — disse Christophe Deloire, secretário-geral do RSF. — Alegria porque é uma mensagem maravilhosa e poderosa a favor do jornalismo (…). E urgência porque o jornalismo vem sendo fragilizado, está sendo atacado, assim como as democracias, porque a desinformação e os boatos fragilizam ambos.

Outros premiados

Os Nobel são concedidos desde 1901 a homens, mulheres e organizações que trabalharam pelo progresso da Humanidade, de acordo com o desejo de seu criador, o inventor sueco Alfred Nobel. O prêmio é entregue pelo Comitê Norueguês do Nobel, composto por cinco membros escolhidos pelo Parlamento norueguês. O vencedor recebe, além de uma medalha de ouro, 10 milhões de coroas suecas (R$ 6,28 milhões).

Ao todo, 234 pessoas civis e 95 organizações foram indicadas para o Nobel da Paz neste ano, o 102o a ser entregue desde 1901. Os candidatos foram nomeadas por governos, integrantes de tribunais internacionais, ex-vencedores e professores universitários, entre outras categorias, mas a decisão final é sempre da comissão, que não premiava um jornalista desde 1935, quando o alemão Carl von Ossietzky ganhou por revelar o programa secreto de rearmamento do país após a Primeira Guerra Mundial.

No ano passado, o vencedor foi o Programa Mundial de Alimentos, braço da ONU para o combate à fome. No ano anterior, havia ido para o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, laureado por seus esforços para acabar com o conflito de décadas com a vizinha Eritreia, mas hoje criticado pelo avanço do conflito em Tigré, uma das maiores crises humanitárias da atualidade.

A premiação de duplas também não é rara. Em 2018, o prêmio foi para o médico Denis Mukwege e para a ativista Nadia Murad, escolhido por seus esforços no combate ao estupro e a violência contra as mulheres.

Algumas das grandes surpresas incluem a paquistanesa Malala Yousafzai, que recebeu o prêmio em 2014, aos 17 anos, “pela luta contra a opressão das crianças e dos jovens e pelo direito de todas as crianças à educação”. Ela se tornou a pessoa mais jovem a receber o Nobel, que compartilhou com o indiano Kailash Satyarthi.

Outra decisão surpresa, muito contestada à época, foi a escolha, em 2009, do então presidente americano Barack Obama, agraciado em seu primeiro ano de governo por seus “esforços extraordinários para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”. Ironicamente, Obama passou os seus dois mandatos em guerra: foi o primeiro a completar oito anos completos de gestão com tropas de seu país em combate ativo.

Desde a última segunda-feira, o Nobel já divulgou os laureados das categorias de Medicina, Física, Química e Literatura. Falta apenas o prêmio de Economia, cujo vencedor será anunciado na segunda-feira.(O Globo)

Maria Ressa, cofundadora do site filipino Rappler, e Dmitri Muratov, ediftor-chefe do principal jornal independente russo Foto: AFP

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