01/11/2021 – 10h47
Em discurso de abertura, premier britânico, o anfitrião do evento, comparou desafio à saga dos filmes 007: ‘a tragédia é que a máquina do apocalipse é real’
As discussões oficiais na COP-26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, começaram nesta segunda-feira em Glasgow, na Escócia, com o primeiro dia da Cúpula dos Líderes Globais. As nações chegam pressionadas para aumentarem seus compromissos de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa, considerado imperativo para conter o aumento da temperatura global e evitar um cataclismo.
O debate foi aberto pelo premier britânico, Boris Johnson, o anfitrião do evento, comparando o desafio dos líderes globais com os enfrentados pelo personagem escocês James Bond, da saga 007. De acordo com o primeiro-ministro, “a tragédia é que este não é um filme, e a máquina apocalítica é real”:
— Estamos a um minuto da meia-noite e precisamos agir mais. Se não fizermos nada hoje, será muito tarde para os nossos filhos fazerem algo no futuro — disse o líder britânico. — Todas as promessas serão um blá blá blá, a ira e impaciência do mundo serão incontestáveis — completou o premier, em referência à declaração da ativista Greta Thunberg sobre o excesso de retórica e falta de ação política.
Mais de 110 chefes de Estado e de governo deverão falar nos próximos dois dias, tanto presencialmente quanto por videoconferência. O discurso mais esperado desta segunda é o do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que enfrenta problemas domésticos para convencer seus correligionários no Congresso a aprovar o financiamento para seu plano climático.
Os EUA são historicamente os maiores emissores de gases causadores de efeito estufa, sendo os segundo maiores emissores atuais, atrás apenas da China. O presidente chinês, Xi Jinping, é uma das ausências mais sentidas em Glasgow, mas ele participará da cúpula desta segunda por vídeo.
Maior comprometimento
Apesar de estar na Europa desde sexta-feira e ter participado do encontro do G-20 que terminou ontem em Roma, o presidente Jair Bolsonaro não vai à conferência e não consta na lista de oradores da cúpula dos presidentes e primeiro-ministros.
Pressionado por sua desastrosa política ambiental e por taxas recordes de desmatamento nos dois primeiros anos do governo Bolsonaro, o Brasil chega à COP com a segunda maior delegação, atrás apenas da americana. O chefe da missão brasileira, que têm a presença de 12 governadores, é o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, que nesta segunda anunciou uma nova meta de redução das emissões brasileiras, que passará de 43% para 50% até 2030.
Os debates do alto escalão levarão dois dias, mas os negociadores continuarão em Glasgow até o dia 12 em busca de um acordo para fazer frente ao aquecimento global. As dicussões começam um dia após ao G-20 não conseguir chegar a um consenso sobre neutralizar suas emissões de carbono até o meio do século. O grupo é, sozinho, responsável por cerca de 80% dos gases poluentes lançados na atmosfera.
A neutralidade das emissões até 2050 é considerada essencial para evitar um aumento da temperatura global acima de 1,5oC até 2100 com relação aos níveis pré-industriais, essencial para evitar um cataclismo. No ritmo atual, o mundo está no caminho para um aumento da temperatura global de 2,7oC, e os impactos das mudanças climáticas já são sentidas.
— Nosso planeta está mudando diante dos nossos olhos, da profundeza dos oceanos ao pico das montanhas, das geleiras que derretem aos eventos climáticos extremos. O aumento do nível dos ocenaos é o dobro do que era há 30 anos — disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, que falou pouco depois de Boris. — É hora de dizer basta. Basta de brutalizar a biodiversidade. Basta de nos matarmos com carbono. Basta de tratar a natureza como um vaso sanitário.
Compromisso de países emergentes
Segundo Guterres, é necessário mais ambição para reduzir as emissões em 45% até 2030 e os países desenvolvidos devem assumir a dianteira “perante o princípio de responsabilidades comuns, mas diferentes”. Segundo ele, a promessa de “US$ 100 bilhões ao ano em financiamento para os países em desenvolvimento deve ser tornar uma realidade de financiamento climático de US$ 100 bilhões”. A promessa inicial era que a quantia anual fosse alcançada no ano passado e, apesar de ainda não haver dados oficiais disponíveis, tudo indica que isto não ocorreu.
— Os anúncios climáticos recentes podem dar a impressão de que estamos no caminho para reverter as coisas. Isso é uma ilusão — disse o secretário-geral. — Não devemos ter ilusões: se os compromissos não forem suficientes ao fim desta COP, os países devem revisitar seus planos nacionais climáticos e políticas não a cada cinco anos. Mas anualmente.
A COP acontece todos os anos, mas a edição deste ano é a primeira em que os países devem revisar pela primeira vez as metas voluntárias de redução das emissões assumidas no Acordo de Paris, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). O tratado vinculante de 2015 prevê que as promessas sejam revisadas e ampliadas a cada cinco anos, mas a conferência de 2020 foi adiada devido à pandemia.
Vários países aumentaram seus comprometimentos, mas a lacuna para os 1,5oC ainda é grande. Guterres cobrou maior compromisso não só dos países ricos, mas também dos emergentes: apesar de terem se comprometido a zerar suas emissões até 2050, não tem planos concretos para fazê-los, contando com milagres tecnológicos, como a Rússia, a Arábia Saudita e o Brasil.
Além das autoridades, o evento desta segunda-feira contou também com a participação do príncipe Charles, herdeiro do trono britânico — a rainha Elizabeth deveria ter participado, mas está de repouso por recomendação médica após uma internação no mês passado. Entre os ativistas que falaram no evento esteve Txai Surui, do povo Paiter Suruí, que pediu atenção especial para a situação dos povos indígenas:
— Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática — afirmou ela, pedindo para que a “poluição das palavras vazias chegue ao fim e denunciando o assassinato de Ari Uru-Eu-Wau-Wau em abril de 2020, que trabalhava denunciando extrações ilegais de madeira em Roraima. — Precisamos de um caminho diferente. Não é 2030, não é 2050. É agora.(Ana Rosa Alves/O Globo)

