04/11/2021 – 14h27
Presidente afirmou que ex-ministro concordou com troca no comanda da corporação “desde que ocorresse após a indicação à vaga na Corte”
O presidente Jair Bolsonaro afirmou, em depoimento à Polícia Federal, que o então ministro da Justiça, Sergio Moro, aprovaria uma mudança no comando da corporação, desde que ele fosse indicado ao Supremo Tribunal Federal. A oitiva ocorreu no âmbito do inquérito que apura possível interferência ilegal do presidente na República na corporação. O ex-ministro Sergio Moro se manifestou sobre as acusações do presidente Jair Bolsonaro de que teria exigido uma indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) para aceitar o nome do delegado Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal.
“Que ao indicar o DPF Ramagem ao ex-ministro Sérgio Moro, este teria concordado com o presidente desde que ocorresse após a indicação do ex-Ministro da Justiça à vaga no Supremo Tribunal Federal”, diz trecho do depoimento, prestado na noite da quarta. Moro argumenta que Bolsonaro o pressionou pela troca na diretoria-geral da da PF em agosto de 2019 e em janeiro, março e abril de 2021. O presidente nega as acusações e alega que a saída de Maurício Valeixo foi motivada por “falta de interlocução”.
Em maio de 2020, já fora do governo, Moro prestou depoimento à PF e declarou ainda que Bolsonaro tentou, em fevereiro, trocar o superintendente do órgão no Rio de Janeiro. “A mensagem tinha, mais ou menos o seguinte teor:‘Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro'”, diz o relatório sobre o depoimento do ex-ministro.
Por meio de nota, o ex-juiz disse: “Jamais condicionei eventual troca no comando da PF à indicação ao STF”. E completou: “Não troco princípios por cargos. Se assim fosse, teria ficado no governo como ministro”.
Bolsonaro prestou depoimento à Polícia Federal no inquérito que apura suposta intervenção política na corporação. A oitiva foi realizada na noite de quarta-feira, em Brasília, a quatro dias do fim do prazo judicial. O depoimento ocorreu após determinação do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF.
O chefe do Executivo está na condição de investigado pelo caso. Uma das provas é um vídeo de uma reunião ministerial ocorrida no Palácio do Planalto em 22 de abril de 2020. No encontro, o chefe do Executivo disse que iria “intervir” na superintendência da corporação no Rio de Janeiro, para beneficiar familiares. Durante o imbróglio, Moro pediu demissão da pasta.
Leia a nota de Sergio Moro na íntegra:
Sobre o depoimento do Presidente da República no inquérito que apura interferência política na Polícia Federal, destaco que jamais condicionei eventual troca no comando da PF à indicação ao STF. Não troco princípios por cargos. Se assim fosse, teria ficado no governo como Ministro. Aliás, nem os próprios Ministros do Governo ouvidos no inquérito confirmaram essa versão apresentada pelo Presidente da República. Quanto aos motivos reais da troca, eles foram expostos pelo próprio Presidente na reunião ministerial de 22 de abril de 2020 para que todos ouvissem. Também considero impróprio que o Presidente tenha sido ouvido sem que meus advogados fossem avisados e pudessem fazer perguntas.(Correio Braziliense)

