01/08/2013 – 02h55
Passado o furacão Francisco, o Brasil volta à dura realidade política que os protestos de junho passado deixaram de pernas para o ar.
E o cenário se animou com uma enigmática frase da presidente Dilma Rousseff: “Lula não voltará porque ele nunca saiu”, disse em entrevista concedida dias atrás ao jornal “Folha de S.Paulo”.
Há apenas dois meses, dava-se como certa a reeleição de Rousseff para um segundo mandato nas eleições do próximo ano. “Vamos elegê-la no primeiro turno”, havia anunciado com segurança o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu maior apoiador.
Mas, de repente, as pessoas saíram às ruas. O “gigante Brasil” despertou, e o cenário mudou radicalmente. Dilma perdeu 50 pontos de popularidade. Hoje, com mais prudência, o governista PT (Partido dos Trabalhadores) já reconhece que as eleições presidenciais “estão abertas” a todas as incógnitas.
Nem mesmo o esforço feito pela mandatária de sair ao encontro das exigências dos manifestantes, quando as ruas ainda rugiam, foi suficiente. A população quer mais.
Os partidos aliados, que há dez anos governam com o PT, agora, diante da queda de popularidade da presidente, dão sinais de querer abandonar o barco e migrar para outros possíveis candidatos, como a ecologista Marina Silva ou opositor Aécio Neves, do PSDB, ou, ainda, o jovem Eduardo Campos, líder do PSB (Partido Socialista do Brasil).
Diante desse vendaval, uma parte do PT que nunca tinha visto com bons olhos a presidência de Rousseff agora tramaria a volta de Lula, que acaba de afirmar que está bem de saúde depois do câncer que teve detectado em 2011 –há alguns dias até desmentiu uma recaída.
Nesse ambiente de tensão política, Dilma pronunciou sua sibilina frase de que Lula não precisa voltar porque nunca saiu. Em seguida, a oposição falou em um “lapso freudiano”, de reconhecimento implícito de que Lula continuou governando nesses anos com ela, que não gozou de independência.
Tratou-se de um escorregão da presidente? Nem todos pensam assim.
Merval Pereira, um dos analistas políticos mais agudos, interpreta a frase como a melhor forma de neutralizar a facção de seu partido que tenta substituí-la por Lula. Como se dissesse: se meu governo vai mal, se o Brasil não cresce, se a sociedade sai à rua contra nós, Lula é responsável comigo meio a meio, já que ele “nunca saiu”. Quer dizer, continua governando comigo.
Lula sempre defendeu que Rousseff era a “melhor candidata” do PT; “melhor gestora” que ele e com uma grande personalidade. A um amigo seu que lhe perguntou por que havia escolhido como candidata uma mulher, respondeu: “Porque ela é mais homem que nós dois juntos”.
Por que substituí-la, então? Lula disse aos militantes do partido que ele fundou: “Serei o maior defensor da candidatura de Dilma”. E já começou a fazê-lo.
As cartas da política estão embaralhadas, entretanto. Como se fosse pouco, o papa animou os milhares de fiéis católicos a continuarem gritando na rua a favor de maiores conquistas sociais e pediu aos políticos que, em vez de reprimir os protestos, “dialoguem” com a rua sem poupar esforços.
El País/ Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

