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A pulada de cerca do presidente francês

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22/01/2014 – 06h54

Como candidato à presidência da França em 2012, François Hollande prometeu ser mais um esposo entediante do que um sedutor flamejante.

Determinado a se diferenciar do homem que ele tentava derrubar – Nicolas Sarkozy, cujo casamento com a ex-modelo Carla Bruni o ajudou a se transformar em matéria para os tabloides -, Hollande proclamou: “Eu, presidente da República, garantirei que meu comportamento seja exemplar em todos os momentos”.

Vinte meses depois, a promessa de campanha de Hollande está se saindo ainda pior do que a economia francesa, amaldiçoada pelo desemprego.

Apanhado em um caso clandestino que é mais farsa de alcova do que um drama shakespeariano – uma linda atriz, uma mulher desprezada em casa, idas e vindas sub-reptícias em uma motoneta nada presidencial -, Hollande está testando os limites da tolerância francesa à indiscrição privada e deixando-se exposto ao ridículo.

O episódio revelou um lado mais frio e politicamente calculista do presidente, conhecido dos que o rodeiam mas amplamente escondido do público. Sua opinião, no mínimo sobre sua segurança pessoal, foi posta em questão.

Já prejudicado pelo apoio historicamente baixo nas pesquisas, Hollande também enfrenta o desafio de impedir que o caso diminua sua capacidade de impor uma nova agenda ambiciosa, destinada a restaurar a competitividade global da França e a aproximar seu Partido Socialista do centro.

Um grande teste poderá ocorrer no mês que vem, quando ele viajará a Washington para uma visita de Estado ao presidente Barack Obama. A parceira oficial de Hollande, Valérie Trierweiler, está agendada para acompanhá-lo no papel de primeira-dama de fato, mas agora a visita provavelmente atrairá considerável atenção para sua eventual escolha de companheira de viagem, ou a ausência de.

“Ele sempre detestou quando a política se transformava em espetáculo, e agora se encontra bem no meio de um”, disse em uma entrevista o importante socialista Julien Dray. “A questão é como ele vai cuidar disso em longo prazo. Se se tornar um vaudeville, poderá prejudicar sua presidência.”

Hollande, 59, teve pouco descanso desde que a revista “Closer” o flagrou encontrando-se em um apartamento próximo ao Palácio do Eliseu em Paris com Julie Gayet, uma atriz de cinema de 41 anos que interpretou papéis tão variados quanto uma oficial do Ministério das Relações Exteriores, uma cabeleireira e uma viciada em drogas, com cenas de nudismo. A revista publicou fotos dele chegando para os encontros em uma motoneta, usando um capacete com o visor baixo, mas aparentemente reconhecível por seus sérios sapatos pretos, de laço.

Membros do público francês no início levaram as revelações em seu habitual humor sexualmente sofisticado, mas não Trierweiler. As pessoas que a conhecem bem disseram que ela ficou tão devastada pela notícia que se internou em um hospital.

Hollande só a visitou uma vez durante sua estada de oito dias. Desde que deixou o hospital no fim de semana (e agradeceu aos apoiadores pelo Twitter por seus bons votos), ela esteve descansando em La Lanterne, o refúgio presidencial em Versailles. A revista “Paris Match”, onde Trierweiler continuou trabalhando como jornalista mesmo enquanto servia de consorte oficial de Hollande, relatou em seu site na web que o presidente havia lhe pedido mais tempo.

Hollande disse na segunda-feira (20) em uma entrevista coletiva na Holanda que Trierweiler está “melhorando”, mas não respondeu à pergunta de se ela é a primeira-dama da França, segundo relatos de agência de notícias.

Se ele a deixar, será seu segundo rompimento importante em sete anos, após o fim de seu relacionamento de 25 anos com Ségolène Royal, uma candidata presidencial do Partido Socialista em 2007 e mãe de seus quatro filhos.

Para seus seguidores, esse é o início de um novo capítulo para Hollande, em que ele surge como um líder mais maduro e pragmático, que poderá se livrar do que se tornou um relacionamento complicado com Trierweiler.

Eles apostam na suposição de que o que seria um circo na mídia para um presidente americano seja tratado como um espetáculo secundário pelos franceses, e que a história perca o interesse.

“Este é um novo Hollande, mais em harmonia consigo mesmo”, disse um de seus amigos íntimos.

Talvez mais preocupante para ele seja que seu apoio entre as mulheres pode se desgastar.

“Isto faz os franceses parecerem idiotas”, disse Arlette da Rocha, dona do restaurante Le Pressoir em Tulle, onde Hollande começou sua carreira política. “Ele tem de dizer a verdade. Esse comportamento inconvencional em sua vida privada não passa uma imagem limpa do presidente.”

Hollande há muito tempo parece ter assumido que poderia viver segundo suas próprias regras.

Como líder do Partido Socialista, ele fez campanha para Royal quando ela disputou a presidência em 2007. Ambos esconderam o fato de que ele já a havia deixado por Trierweiler. Jornalistas franceses que sabiam do rompimento só escreveram sobre o fato quando Royal o anunciou, depois da eleição.

“Aquele que já traiu, trairá”, disse Royal mais tarde.

Hollande nunca foi do tipo que aprecia o casamento – uma raridade entre políticos de alto nível, mas não para muitos casais franceses. Não que Royal não quisesse dar o nó. Perguntada sobre casamento em uma entrevista conjunta na televisão em 2006, durante o prelúdio de sua campanha presidencial, ela respondeu de modo provocante: “Nós nos amamos, por isso estou esperando que ele faça a proposta. François, você quer se casar comigo?”

Hollande riu sem graça e nada disse.

“Está vendo… ele ainda hesita!”, disse Royal.

“Não, não foi o que eu quis dizer”, disse Hollande. “Eu lhe responderei depois do programa.”

Aparentemente, a resposta foi não.

Hollande nunca se casou com Trierweiler, apesar de tê-la descrito em uma entrevista à revista “Gala” em outubro de 2010 como “a mulher da minha vida”. Em fevereiro do ano seguinte ele havia contido seu entusiasmo. “A frase foi imprecisa”, disse. “Eu deveria ter dito: ‘Ela é a mulher da minha vida hoje’.”

Não apenas ele não se casou com Trierweiler quando se tornou presidente, como também concordou que ela continuasse trabalhando para a “Paris Match”, apesar de ter deixado de cobrir política. Hollande e seus assessores retrataram isso como o exemplo de uma parceria moderna, mais que um conflito de interesses. Ela foi instalada como primeira-dama de fato, com escritórios na ala leste do Palácio do Eliseu, uma equipe de quatro funcionários e uma verba mensal de cerca de US$ 27 mil.

No início de sua presidência, Hollande quis ter liberdade para entrar e sair do palácio à vontade. Em “Até agora tudo vai mal” (tradução livre), um novo livro sobre a presidência Hollande, a autora, Cécile Amar, disse que pouco depois da eleição o presidente perguntou a funcionários do Eliseu: “Como posso sair sem que as pessoas me vejam?”

Temendo que ele pudesse tentar escapar do palácio em sua motoneta, seus assessores a venderam, escreveu Amar.

Ele tomou o trem de alta velocidade para ir a uma cúpula europeia em Bruxelas, contra os desejos de sua equipe de segurança, e insistiu em viver principalmente no apartamento que divide com Trierweiler, com grandes janelas expostas, que teve sua segurança reforçada.

Hollande rapidamente fez concessões: parou de pegar trens e abandonou sua promessa de que sua comitiva pararia nos faróis vermelhos como os motoristas comuns (obviamente um risco para a segurança).

Mas ainda acredita que sabe cuidar de sua segurança. “Eu saio quando e onde quiser, o quanto quiser”, disse em sua entrevista coletiva na semana passada.

Entrevistas com mais de uma dúzia de amigos e colegas políticos sugerem que Hollande muitas vezes evita perguntas mais profundas sobre sua personalidade.

As pessoas o descrevem como dono de um bom senso de humor, um bom ouvinte e alguém que faz julgamento
s políticos inteligentes. Mas esses traços por si sós não o captam plenamente.

Hollande certa vez confessou sua indisposição ou incapacidade de se revelar. “Você me pergunta quem sou eu”, disse em uma entrevista coletiva em maio, respondendo a uma pergunta sobre sua ideologia política em termos mais amplos. “É uma pergunta terrível.”

Elaine Sciolino, Alissa J. Rubin e Maïa De La Baume/ The New York Times, em Paris (França), com tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Montagem mostra François Hollande e a atriz Julie Gayet, com quem o presidente teria um caso

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