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Quando o cônjuge do político ajuda a causar sua queda

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24/01/2014 – 09h11

A primeira-dama da Virgínia precisava de um vestido elegante para a posse de seu marido. Quando um patrocinador político se ofereceu para lhe comprar um vestido de Oscar de la Renta, adequado para senhoras finas ou para uma capa de “Vogue”, Maureen McDonnell pulou de alegria, segundo promotores federais, até que um assessor de seu marido, o governador Bob McDonnell, vetou o presente.

Maureen McDonnell enviou um e-mail irritado: “Estamos quebrados, temos uma dívida inacreditável no cartão de crédito e essa posse está nos matando!”

Na maioria das histórias de carreiras políticas destruídas por fraquezas pessoais, é o cônjuge do detentor do cargo que acaba embaraçado e humilhado. As esposas de dois ex-governadores, Eliot Spitzer de Nova York e Mark Sanford da Carolina do Sul, e a do ex-deputado Anthony Weiner, de Nova York, muitas vezes pareceram espectadoras surpresas dos escândalos sexuais de seus maridos. O arquétipo inspirou um drama de televisão, “The Good Wife” [A boa esposa].

Mas há outro drama que também se desenrola: o cônjuge político com opiniões enganosas e gosto por luxo que contribui para a queda de um político eleito.

Em um processo federal de 43 páginas contra os McDonnell, que os acusa de ajudar um empresário da Virgínia em troca de dinheiro e artigos de luxo, os promotores retratam Maureen McDonnell como a pessoa cujo desejo por bens luxuosos levou o casal a usar o gabinete do governador para promover a empresa de suplementos alimentares de um contribuinte de campanha.

Uma ex-líder de torcida dos Washington Redskins que se casou com o namorado do colégio, McDonnell, 59, fazia excursões consumistas na Bergdorf Goodman, locomovia-se de Ferrari e jato particular e comprou um relógio Rolex de prata para presentear seu marido, disseram os promotores.

Kellyanne Conway, uma pesquisadora e consultora republicana, disse que os cônjuges políticos muitas vezes ficam surpresos com o rumo que suas vidas tomam depois de se casar jovens, antes de conhecerem a ambição do parceiro pelo cargo público.

“Existe o ressentimento de uma pessoa estar sob os refletores e a outra estar em casa no moletom da faculdade de seu marido, noite após noite”, disse ela. “Assim como o dinheiro novo faz as pessoas se comportarem de certas maneiras, o poder novo pode ter um efeito instigante em algumas pessoas.”

Existem diversos exemplos recentes de casais políticos que perderam o rumo.

“É incontável o número de discussões que tive com consultores republicanos e democratas sobre cônjuges”, disse Stuart Rothenberg, editor de um boletim político apartidário.

Embora as esposas muitas vezes humanizem um candidato na visão do público, nos bastidores elas representam muitos perigos potenciais, disse ele.

“Um dos motivos pelos quais os consultores de mídia e pesquisadores preferem trabalhar para grandes comitês de campanha é que não têm de lidar com as esposas”, disse Rothenberg.

Cônjuges de ambos os sexos podem causar problemas igualmente. Edward Mezvinsky arruinou a carreira de sua mulher, uma ex-congressista democrata da Pensilvânia que tentava se eleger para o Senado em 2000, quando surgiram detalhes de que ele havia fraudado investidores em mais de US$ 10 milhões. Mezvinsky foi condenado a sete anos de prisão e sua mulher, Marjorie Margolies-Mezvinsky, abandonou a disputa pelo Senado em pleno escândalo.

Um perigo para casais políticos é a proximidade da classe de doadores americanos muito ricos, que cada vez mais perseguem o jogo da influência política depois que as restrições a doações foram atenuadas por tribunais e legisladores nos últimos anos.

McDonnell, que ganhava US$ 175 mil por ano como governador da Virgínia, conheceu o empresário cujo dinheiro e presentes ele é acusado de solicitar ilegalmente, Jonnie R. Williams Sr., quando Williams lhe ofereceu seu jato privado para uso na campanha de 2009.

“É uma história essencialmente humana, não é?”, disse Paul Begala, consultor democrata que foi assessor do presidente Bill Clinton. “McDonnell passou sua carreira nos militares, depois no Congresso, depois como ministro da Justiça. Jamais ganhou dinheiro. De repente você está convivendo com esses bilionários…”

Depois que a esposa de McDonnell ouviu o assessor do governador lhe dizer para não aceitar a oferta de Williams de um vestido de estilista para a posse, em janeiro de 2010, ela disse a Williams que “deixaria para mais tarde”, segundo os promotores.

Em abril de 2011 ela pediu que ele lhe proporcionasse uma viagem de compras a Nova York, que incluiu gastos de US$ 10.999 na Oscar de la Renta, US$ 5.685 na Louis Vuitton e US$ 2.600 na Bergdorf Goodman.

Depois de dizer a Williams que o casal não sabia como poderia pagar pelo casamento de uma filha na Mansão Executiva e que estava em graves dificuldades financeiras, ela pediu US$ 15 mil para ajudar a pagar o bufê e US$ 50 mil que usou para saldar o cartão de crédito.

Em uma denúncia de 14 páginas acusando os McDonnell de fraude e conspiração e de mentir para os bancos, o Departamento da Justiça os acusa de usar o cargo de governador para ajudar Williams a promover um suplemento dietético vendido por sua empresa, a Star Scientific.

Os McDonnell se declararam inocentes. Bob McDonnell, um republicano que deixou o cargo este mês por causa de limites de tempo, acusou a promotoria de forçar a lei para cobrir um relacionamento entre ele e Williams que não envolvia troca de favores.

Os promotores dizem que o governador abriu a Mansão Executiva para um evento promocional de Williams e ordenou que autoridades estaduais se encontrassem com ele enquanto ele promovia seu produto. Mas o governo não mostrou ganhos materiais que Williams ou McDonnell tenham recebido.

Em uma reunião entre Maureen McDonnell e Williams em agosto de 2011, ela admirou seu relógio Rolex e disse que gostaria de dar um igual para o governador, segundo as autoridades. Williams, que cooperou com a investigação e não foi acusado, duvidou que McDonnell usasse um relógio tão caro porque poderia parecer ostentação. Ela lhe pediu para comprar um Rolex de qualquer modo para seu marido, segundo a denúncia.

Ela deu o relógio, com a gravação “71º governador da Virgínia”, para o marido no Natal.

No início do ano, o governador e seus dois filhos foram convidados de Williams no clube de golfe Kinloch, perto de Richmond. O anfitrião não estava presente naquele dia, 7 de janeiro, segundo as autoridades. Os McDonnell deixaram para Williams uma conta de cerca de US$ 990 em despesas de campo, US$ 200 em taxas de carregadores e US$ 53 em mercadoria da loja do clube.

Trip Gabriel/Tradução: Luiz Roberto Mendes GonçalvesThe New York Times

Ex-governador da Virgínia Bob McDonnell fala sobre acusação de corrupção ao lado da mulher, Maureen

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