09/02/2014 – 18h43
O espectro com o qual André Puccinelli se depara no palco do último de seus oito anos de temporada de governo não é o de nenhum rei morto envenenado como o da tragédia hamletiana que põe o filho na famosa sinuca de bico do ser ou não ser, mas os de vários “companheiros” vivinhos da silva, com uma estrela vermelha no peito, tal qual no enredo de William Shakespeare, movidos por sentimentos de cobiça, ódio, vingança e traição. Daí, a questão do ser ou não ser senador, quase uma imposição das circunstâncias, dependendo de sua sempre empolada forma de, primeiro, entrar ou não na onda do gerúndio, ou seja, continuar sendo ou não, governador, pelo considerável período no qual, necessário à gestação uma vida, ele sabe que pode se consolidar como o maior de todos os governadores.
Por se tratar do médico que, segundo seu secretário de obras, Edson Girotto, com um capacete na cabeça é o terror dos engenheiros, toda esta reticência com que André Puccinelli vem travando o processo sucessório pode ser, mesmo, com perdão pela cacofonia, por sua obsessão pela “fazeção”, para ficarmos no palavreado do sociólogo FHC, o ancião casadoiro um dia presidente do Brasil. Ainda mais, depois da perda da galinha dos ovos de ouro – a prefeitura de Campo Grande – querendo aproveitar até a undécima hora na esperança de que os batimentos do coraçãozinho que sempre impulsionaram suas campanhas estejam na mais perfeita sintonia com os dos eleitores em reconhecimento ao seu trabalho para a eleição do pupilo Nelsinho Trad.
Mas, como uma das variantes para a solução do imbróglio, no caso de uma candidatura ao senado com sua vice, Simone Tebet, de suplente, e Londres Machado (com a ida de Jerson Domingos para o Tribunal de Contas) finalmente transformando em realidade seu sonho dourado de encerrar a carreira como governador, talvez lá no fundo, preocupando Puccinelli a historinha que entrou para o anedotário político do estado, quando o mesmo Londres, depois de duas interinidades como governador, apresentou ao sucessor, Pedro Pedrossian, uma majestosa propriedade adquirida às margens da rodovia Fátima do Sul-Jatei, com a galhofeira observação “de que isto porque fui governador só por poucos dias”. Falando no homem de Miranda, a propósito, ainda, do neologismo de FHC, pode vir daí, embora em situação oposta, o exemplo de caminho a ser seguido até o fim pelo atual governador, já que Pedrossian, na ansiedade de construir um estado modelo, com a criação do Mato Grosso do Sul, trocou sete anos de senado por pouco menos de dois anos de governo, depois das trapalhadas de Harry Amorim Costa e Marcelo Miranda Soares.
Embora, por razões mais que óbvias, o governador esteja decidido a esticar a corda até a data limite para a renúncia, em cinco de abril, pode ser que, saindo do gabinete de sua fada-madrinha, esta semana, em Brasília, antes do retorno, ops! escapou… passe pelo salão azul do Congresso Nacional para dar umas dicas ao segundo suplente Ruben Figueiró de como quer a decoração do gabinete que pretende usar a partir de 2015. E assim, entre o ser (alusão de Hamlet à vida) e o não ser (da inércia que pode levar à morte) senador, principalmente em se tratando de alguém com uma inquietude política oceânica, pode ser que seu colega médico, amigo e deputado aliado, George Takimoto, esteja correto na previsão de que, full-time, André Puccinelli só vai poder cuidar dos bisnetos, não dos netos. Eis a questão.
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