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Aventura do etanol pode transformar Dourados em cidade fantasma

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05/03/2014 – 10h37

Num paralelo entre as duas reportagens de Veja a respeito do boom desenvolvimentista de Dourados, separadas por 37 anos que se encarregaram de desviar definitivamente o foco da “Califórnia Brasileira” para Ribeirão Preto (SP), faltou, nesta edição de agora, quando se traça a nova rota dos melhores empregos do País, uma previsão – das mais sombrias – a da bancarrota da indústria sucroalcooleira, justamente a responsável pelos reflexos do que de bom vem acontecendo nos setores de serviços, como os dos hospitais particulares e, principalmente, no setor imobiliário, cuja bolha, pela iminência da crise, deverá ser a primeira a estourar.

Catastrofismo? Aos que se anteciparem neste julgamento convido à releitura de um texto que publiquei alguns anos atrás, não só neste blog, como em outros sites que ainda não me tinham como persona non grata, quando tratei de dois temas que dão bem a dimensão da situação da economia local hoje, e que, por mais paradoxal que possa parecer, podem abortar a tão sonhada prosperidade tentada pelo prefeito Murilo Zauith – o monopólio sucroalcooleiro que pode pôr fim ao emergente empreendedorismo em outros setores. Como se vê ali, em que pese, apenas, os argumentos históricos que rementem ao empreendedor Thomaz Laranjeira, na iniciativa privada, e ao finado Getúlio Vargas, na política, até que tentei ser otimista, para quem não sabe, com a terra em que nasci.

Tirante o tanque de insolvência em que mergulhou a usina São Fernando, geradora de cerca de três mil empregos diretos em Dourados, o pior está para acontecer no entorno do município que é polo regional. Reportagem recente do Portal Nova Cana aponta para a possibilidade de o grupo Odebrecht perder tudo o que investiu em etanol. São dez bilhões de prejuízos. Entre as empresas do grupo baiano, duas, da ETH Bioenergia (Usinas Eldorado e Santa Luzia) estão localizadas no município de Rio Brilhante. Discretamente, diz o site especializado do setor, a Odebrecht começou a colocar em operação um plano para resolver o problema de forma radical. Entre as medidas de curto prazo, cortar três bilhões de investimentos previstos para os próximos anos.

Sinal vermelho também se misturando à fumaça preta das chaminés da multinacional Bunge, instalada no município de Ponta Porã, mas, mais próxima a Dourados, onde certamente estão as maiores vítimas entre os primeiros quatrocentos funcionários demitidos recentemente como parte da decisão de se encerrar a moagem na safra 2014. E aí, impera o pragmatismo do empreendedorismo americano. Deu prejuízo, fecha pra balanço. Com Tio Sam não tem farra de dinheiro público como o BNDES fez com a São Fernando durante o governo Lula, tido como dono do empreendimento. Tanto que todo o complexo Bunge à margem da BR-463 já estaria à venda.

Que a prefeitura reveja, enquanto é tempo, entre outros projetos, o de implantação de um polo de serviços para o setor sucroancooleiro, antes que a ex-futura Califórnia brasileira acabe se transformando na nova Detroit, a poderosa capital americana do automóvel que de quinta mais populosa dos Estados Unidos, em 1950, com 1,8 milhão de habitantes, desabou para o 18º posto, com 700 mil habitantes, com 36% da população vivendo hoje abaixo da linha da pobreza. Antes que venha, pois, a débâcle, com imagens, por exemplo, dos condomínios de luxo hoje brotando tal qual outrora a soja em lugar do capim barba de bode podendo já já se confundir com nosso maior cartão postal, a Usina Velha, por coincidência, bravamente resistindo às intempéries ao lado de um desses novos empreendimentos.

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As ruínas, por enquanto só da Usina Velha, em Dourados, e Detroit

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