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Gaita a rodo para a festa da democracia

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23/10/2014 – 09h04

A imaginação que fica mais fértil, pelo excesso de adrenalina, sempre às vésperas das eleições, ou o Ministério Público Eleitoral e a Polícia Federal devem redobrar suas atenções com base no velho e surrado dito popular segundo o qual onde há fumaça é porque há fogo? Dois jatinhos procedentes de Brasília abarrotados de dinheiro vivo aterrissando numa pista clandestina na periferia da capital, sendo que um deles quase faz um pouso forçado em plena Avenida Lúdio Coelho, uma das que dão acesso ao aeroporto internacional; não sei quantas caminhonetes ou vans igualmente com fardos e mais fardos, do mesmo dinheiro, para abastecer bairros periféricos de Dourados e região, aldeias indígenas incluídas. Entre as muitas histórias da reta de chegada desta que é a mais acirrada e a de mais baixo nível das eleições dos últimos tempos, a da tocaia de espiões próximo a uma famosa estância na saída de Dourados para Ponta Porã, onde toda a grana a ser desovada neste sábado ficaria guarda num buraco que lembra o lendário destino do dinheiro desviado por Valdecir Artuzi nos tempos uragânicos, restando saber se tiveram o cuidado de copiar o método do ex-prefeito, protegendo o dinheiro nas bem vedadas garrafas pets.

De acordo com as últimas chamadas da rádio peão, nunca antes na história republicana se organizou um esquema tão grande de compra de votos. O que faz sentido, diante do que apontam as mais recentes pesquisas eleitorais: senão pelo desespero, só de pensar no tamanho da fila indiana para entrar no presídio da Papuda a partir de 2015, pelo medo, puro e simples, da perda das benesses do poder federal de toda a companheirada. Além, claro, do orgulho ferido do maior garganteador da história, que já não finca mais postes como antigamente, sem contar a nictofobia decorrente do estrago no resplendor do principal poste da Praça dos Três Poderes, em Brasília, tudo coisa de um tucaninho mineiro, mas dos maiores predadores do cerrado.

E pensar que, pelo menos nos moldes como agora se anuncia, tudo começou como que por brincadeira de Antônio Tonanni, nas eleições de 1982. Candidato a vereador na chapa de Braz Melo, o então diretor da Grande FM, profundo conhecedor dos costumes dos índios da Aldeia Jaguapiru, dos quais era lindeiro de fazenda, lançou essa moda de parcelamento na compra de votos. Com uma diferença: Tonanni prometia um par de tênis a quem votasse nele – um pé antes da eleição, outro depois – em caso de vitória, evidentemente. Pelo câmbio de ontem (22), a promessa era de trezentos pilas – metade sábado, em espécie, para voto casado na fada madrinha e seu pupilo pantaneiro.

Como isso tudo funciona? Mesmo estando em plena primavera, o eleitor não se deve deixar levar pelo melodioso canto do sabiá. A senha é o cantar do grilo. A ordem de comando parte da estância, onde o longevo discípulo de Maquiavel usa de todos os meios acumulados ao longo da carreira para evitar um triste fim. Até chegar aos cabos eleitorais, os que fazem o contato direto com a sempre sedenta tropa, sargentos, tenentes, capitães, coronéis e até generais. Eleitorais, bem entendido. Que polícia vai se meter com um exército tão aparelhado? É gaita, muita gaita, não gaita de boca, como daquelas tocada por Ailton Stropa, mas gaita que sai dificultosa do bolso do contribuinte, em forma de imposto, como se fosse para obras e serviços públicos nem sempre tão eficientes, mas que se perde na bifurcação dos retornos parlamentares, daí desaguando no ralo – ou em dutos, como os da Petrobras – da corrupção para enriquecer essa cambada. É a gaita que promove a espetacularização da compra de votos para animar a festa da democracia.

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Que dentadura, que nada. É gaita, em espécie

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