“O empresário, se porventura faz uma composição ilícita com algum político para pagar alguma coisa, se ele não fizer isto, e quem desconhece isso, desconhece a história do país. Não tem obra. Pode pegar aí uma prefeitura do interior, uma empreiteirinha com quatro funcionários. Se ele não fizer acerto, ele não põe um paralelepípedo no chão”. Já em ritmo de férias, depois da campanha eleitoral em que mais se destrinchou a corrupção brasileira nos últimos tempos, havia me programado para voltar a essas questões só depois de meu retorno da Europa, no início de janeiro. Mas como deixar passar em branco um gancho jornalístico tão apetitoso?
Pensei, cá com meus botões: trinta, quarenta, que sejam sessenta dias! é tempo suficiente para que a bombástica declaração do advogado Mário Oliveira Filho, que defende o lobista Fernando Baiano, na operação Lava Jato, surta efeito e mexa com os brios, que seja, também! de pelo menos algum prefeitinho com um pingo de vergonha na cara neste interiorzão de Brasil. Embora o calçamento das ruas de Dourados não seja à base de paralelepípedo, e não sendo Murilo Zauith nenhum “prefeitinho”, quem sabe não parta dele a iniciativa de chamar este advogado às falas para provar essa história de que ninguém assenta um paralelepípedo sem pagar propina? Onde já se viu uma coisa dessas, enlamear nomes de figuras notórias da República? Vou cruzar os oceanos, na ida e na volta, torcendo para que isto aconteça, até para não ser tentado a começar 2015 com algum post na linha do “lucupletemos-nos, todos!”.
Devaneios à parte, ante o mutismo sempre convencional e sepulcral de Zauith, quem sabe Reinaldo Azambuja! Não foi ele quem prometeu a tal mudança de verdade, cantando em prosa e verso que agora (a coisa) vai? Imagine o tucano eleito governador usando o limão do advogado do lobista que seria dos peemedebistas para fazer uma limonada! Como André Puccinelli não deixou quase nada para fazer nesta área, em vez de assentar paralelepípedos, mas, também sem pagar retornos, resolvendo problemas como o da saúde, que colocou como prioridade de seu governo! Vai para o trono (em lugar do Lula, de novo) ou não vai?
Tudo bem que não é pra se emocionar tanto assim. Reinaldo Azambuja pode até virar presidente da República e nisso, aliás, já entra ganhando de um a zero de André Puccinelli, impedido, por sua nacionalidade italiana, de sonhar com a cadeira da fada madrinha Dilma Rousseff. Para isso, nesses dias que faltam para a posse, precisa checar a folha corrida (a tal capivara) de alguns dos cotados para os cargos de confiança, e não apenas os de primeiro escalão. Mais, não pode também patrocinar candidatos à presidência da Assembleia envolvidos em esquemas como aquele, da Uragano, denunciado por Ary Rigo e até hoje abafado para que não caísse o Estado. Aliás, eis, aí, talvez, a oportunidade de ouro para Azambuja provar que a mudança de verdade não era um esforço de retórica apenas para ganhar a eleição. Lembrando, aos que acham que estou escrevendo bobagem, que antes dele outro campo-grandense, Jânio da Silva Quadros, virou presidente da República muito mais pela simbologia da vassoura com a qual prometia varrer a corrupção republicana do que por seu português cheio de mesóclises. E, quem sabe assim, desempatando a disputa política que restou do Sul com o Norte do velho Mato Grosso, que antes do esquisitíssimo Jânio já havia eleito o cuiabano Eurico Gaspar Dutra para o entremeio dos dois governos de Getúlio Vargas.
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