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Graça Foster garante que Petrobras não perdeu 88 bi com corrupção

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26/03/2015 – 15h39

Em depoimento à CPI da Petrobras, nesta quinta-feira, a ex-presidente Graça Foster considerou como “justo” o valor contábil de R$ 88 bilhões referentes a perdas da estatal, conforme balanço da empresa apresentado ao Conselho de Administração da Petrobras em janeiro último. Foster negou, porém, que esse valor corresponda a perdas com corrupção verificadas pela Operação Lava Jato. “Esses R$ 88 bilhões representam o valor justo por conta de uma série de ineficiências, até mesmo por causa de chuva e outros, não são o número da corrupção”, disse. “Eu defendi na ocasião que o mercado deveria ser informado deste valor, mesmo que a metodologia usada para fazer o cálculo seja questionada”, afirmou Graça Foster.

Pelas declarações da ex-presidente, se as perdas de R$ 88 bilhões não foram provocadas por corrupção, a estatal não pode valer o que está valendo hoje: deve valer 80 vezes mais. Isso significa que estão jogando contra os interesses da estatal e contra os interesses nacionais.

No depoimento desta quinta-feira, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM_RS) perguntou a Foster se a presidente Dilma Roussef pediu para ela não divulgar o balanço. “Não, a presidente nunca me pediu isso”, respondeu Graça Foster.

Lorenzoni também questionou a ex-presidente da Petrobras a respeito da afirmação feita pela ex-funcionária Venina Velosa de que teria alertado Graça Foster a respeito de corrupção na Petrobras. A ex-presidente voltou a dizer que não foi informada de irregularidades.

Foi um erro dizer que Abreu e Lima custaria 2,5 bilhões de dólares

Graça Foster também disse que a empresa cometeu um erro ao divulgar o valor inicial da refinaria Abreu e Lima como sendo de US$ 2,5 bilhões. A refinaria, construída em Pernambuco, acabou custando US$ 18 bilhões.

Ao responder pergunta do deputado Carlos Marun (PMDB-MS), durante depoimento na CPI da Petrobras, Graça Foster disse que a diferença entre a previsão inicial e o custo final da refinaria foi causado pela falta de um projeto básico confiável. O projeto foi alterado ao longo do processo de construção, o que motivou seguidos aditivos contratuais.

“A previsão inicial correta seria um custo de cerca de US$ 14 bilhões”, disse a ex-presidente da estatal. Ela admitiu como razoável uma margem de diferença de preço de 20% acima do valor previsto em contratações. “Dá para trabalhar com margens menores que essa desde que haja um projeto básico realista”, disse ela.

Esquema de corrupção se formou fora da Petrobras

A ex-presidente da Petrobras afirmou ainda que o esquema de corrupção na empresa “se formou fora da Petrobras”. Ela disse isso ao responder pergunta do relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), a respeito das ações de controle sobre a empresa, feitas pelo Tribunal de Contas da União, bem como as auditorias externas feitas pela empresa Price Waterhouse.

Luiz Sérgio lembrou que o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli também disse à CPI que a corrupção era algo externo à empresa.

O relator perguntou a Graça Foster se procediam as afirmações atribuídas aos delatores da Operação Lava Jato Paulo Roberto Costa, Alberto Youssef e Pedro Barusco de que as licitações na Petrobras eram feitas de maneira muito correta. “Não conheço caso em que diretores da Petrobras tivessem tido informações de vencedores de licitações antes da abertura dos envelopes de propostas”, disse Foster ao negar o vazamento de informações privilegiadas.

Foster diz que não sabia de pagamento de propinas na estatal

Foster disse também que “nunca soube” de propinas na empresa. Ela disse isso ao responder pergunta do deputado Altineu Côrtes (PR-RJ), um dos sub-relatores da CPI da Petrobras.

O deputado mencionou depoimento de um dos delatores do esquema, o engenheiro Shinko Nakandakari, que confirmou à Justiça Federal pagamentos de propina ao ex-diretor da estatal Renato Duque e ao tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, em contratos da Diretoria de Energia e Gás, entre 2008 e 2013.A diretoria foi dirigida no período por Ildo Sauer e depois por Maria das Graças Foster.

Estes contratos também estão sob investigação da Polícia Federal na Operação Lava Jato. Foster não foi acusada de participação até o momento.

Corrupção na Petrobras não era sistêmica nem institucionalizada

A ex-presidente da Petrobras Maria das Graças Foster disse à CPI que investiga irregularidades na empresa que a corrupção na companhia não era sistêmica nem institucionalizada.

“Eu concordo com o ex-presidente (da Petrobras) José Sérgio Gabrielli, que disse isso à CPI”, disse ela. Graça Foster afirmou que só foi informada de um esquema de corrupção na empresa quando foi deflagrada a Operação Lava Jato. “O mecanismo de controle interno nunca detectou suspeitas de cartelização nem de sobrepreço nos contratos até então.”

A partir da Operação Lava Jato, segundo ela, a Price Waterhouse, que faz auditoria externa da estatal, recomendou a criação de uma comissão interna para investigar as suspeitar de corrupção. Essa comissão foi criada e duas empresas contratadas para fazer uma investigação interna, a TRW e a Gibson. “Os resultados dessa investigação ainda devem demorar dois anos”, informou.

Graça Foster disse que a Petrobras merecia um gestor melhor que ela. “Alguém que identificasse esse tipo de caso de corrupção”, disse ela.

O deputado Aluisio Mendes (PSDC-AM) perguntou à ex-presidente da Petrobras se ela não tinha percebido sinais exteriores de riqueza da parte dos ex-dirigentes que admitiram ter recebido propinas de empresas contratadas pela estatal: Paulo Roberto Costa e Pedro Bariusco. “Eu não tinha contato nenhum com eles fora da Petrobras”, respondeu ela.

Graça Foster disse também que nunca viu o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, apontado como destinatário de pagamento de propina. “Nunca o vi na Petrobras nem em lugar nenhum, só na TV”, disse ela.

Pasadena

A ex-presidente da Petrobras repetiu declaração dada por ela no ano passado à CPI Mista da Petrobras a respeito da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Ela disse que, na época, a operação de compra se justificava, mas isso acabou sendo um mau negócio em razão da queda do preço do petróleo. “Eu esperava que em 2014 a refinaria desse um resultado melhor, o que não aconteceu por causa da queda do preço do petróleo. Não foi um bom negócio, olhando com olhar de hoje”, disse.

Barusco, o admirável

Graça Foster classificou como “inimaginável” a confissão de recebimento de propina por parte do ex-gerente de Tecnologia da empresa Pedro Barusco. À CPI que investiga irregularidades na estatal, Barusco admitiu ter acumulado 90 bilhões de dólares em propinas de 1997 a 2010.

“Barusco sempre foi um engenheiro naval admirável no mercado, um grande quadro técnico da Petrobras”, disse Foster.

SeteBrasil

A ex-presidente explicou aos membros da CPI qual foi sua participação na criação da empresa privada SeteBrasil, para a qual Barusco foi nomeado diretor assim que pediu aposentadoria da Petrobras.

A SeteBrasil foi fundada em 2011 para construir sondas para exploração do pré-sal e firmou contratos de operação de sete sondas com a Petrobras e o Estaleiro Atlântico Sul. A Petrobras indicou para a diretoria da empresa Barusco e João Carlos de Medeiros Ferraz. O projeto foi financiado pelo BNDES e pelos fundos de pensão Petros, Previ (do Banco do Brasil), Valia (da Vale do Rio Doce), Funcef (da Caixa Econômica Federal), Petrobras e dos bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander.

Em 2011, a SeteBrasil foi contratada pela Petrobras para construir 28 sondas de perfuração, um total de US$ 22 bilhões. Segundo depoimento de Barusco à Justiça Federal, havia um acordo de pagamento de propina de 1% para os contratos entre a SeteBrasil e os estaleiros – percentual reduzido depois para 0,9%. Essa combinação foi feita entre Barusco, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e os estaleiros.

Graça Foster disse que o modelo de criação da SeteBrasil era “muito inteligente, muito bem estruturado”. “Eu lamento a propina”, disse.Ela admitiu também que participou, como presidente da empresa, da venda de ativos na Petrobras na África – ao responder pergunta do deputado André Moura (PSC-CE), um dos sub-relatores da CPI. Mas disse que a decisão de vender os ativos já havia sido tomada um ano antes de assumir a presidência da companhia.

Sobrepreço no Gasene

Graça Foster também contestou números apresentados por integrantes da CPI da Petrobras a respeito de sobrepreço e valores de contratações da estatal. O deputado Bruno Covas (PSDB-SP) questionou acórdão do TCU que apontou sobrepreço de até 1.800% na construção do gasoduto Gasene, entre o Espírito Santo e a Bahia. “O sobrepreço foi de 20% e esses 1.800% se referiam a uma manta geotérmica, um dos componentes da obra”, explicou.

Ela também rebateu afirmação do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) de que a empresa do marido dela, a C Foster, teria sido contratada por 616 milhões de dólares pela Petrobras. “O contrato foi de R$ 616 mil”, disse ela.

Contratos cancelados

A ex-presidente da Petrobras afirmou ainda que mandou cancelar todos os contratos da Petrobras com a empresa holandesa SBM Offshore assim que soube do pagamento de propinas a diretores pelo empresário Bruno Chabas, representante da própria SBM. “Eu disse a ele que cancelaria os contratos se ele não me dissesse quem pagou propina a quem, o que acabei fazendo”, disse, ao responder pergunta do relator da CPI da Petrobras, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ). Ela afirmou ter testemunhas da conversa com Chabas.

Graça Foster afirmou que a Petrobras analisou todos os contratos com a SBM, sem identificar sobrepreço ou indícios de corrupção. “Eu não consigo imaginar como pode ser verdadeira a fala do (Pedro) Barusco (ex-gerente de Tecnologia da Petrobras, que fez delação premiada) de que ele, sozinho, recebia propina. Até hoje não temos um retrato oficial da propina da SBM. Só temos a fala do Barusco. A Petrobras fez investigações nos contratos com a SBM: fomos à CGU, ao MPF (Ministério Público Federal), à Holanda e eles entendem que não sabem quem pagou propina para quem”, disse a ex-presidente da empresa.

Delação de Barusco

Barusco disse à Justiça Federal, que começou a receber propina da SBM em 1997 ou 1988, enquanto ocupava o cargo de gerente de Tecnologia de Instalações da Diretoria de Exploração e Produção da Petrobras. Como os contratos eram de longa duração, ele admitiu ter recebido propina regularmente até 2003, período em que era gerente de Tecnologia de Instalações. De 1997 (ou 1998) a 2010, disse ter recebido US$ 22 milhões de propina por conta de contratos entre a Petrobras e a SBM, dinheiro depositado em contas no exterior operadas por Júlio Faerman, representante da empresa.

Ao ser questionada pelo relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), sobre a criação da empresa Gasene – uma sociedade para fins específicos (SPE) aberta para construir um gasoduto entre o Espírito Santo e a Bahia – a ex-presidente disse que tinha “vergonha” do projeto em função da descoberta de propinas pagas pelas empresas contratadas a diretores da Petrobras. “Tenho orgulho de ter participado disso, mas tenho vergonha também”, explicou. Ela admitiu que o gasoduto acabou custando 20% a mais que o previsto. “Mas eu considero este adicional razoável. O valor justo do Gasene supera em alguns bilhões o valor contábil. Isso significa que não tivemos prejuízo com o Gasene”, disse ela.

Lava Jato fez “um bem imenso à empresa”

Foster disse que “a Operação Lava Jato da Polícia Federal fez um bem imenso à Petrobras, apesar de todos os transtornos que têm ocorrido com a empresa”.

A Lava Jato resultou em denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro, aceitas pela Justiça Federal no Paraná, contra diversos empresários contratados pela Petrobras, ex-dirigentes da empresa e operadores no esquema de desvio de recursos bilionários.

O líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR), afirmou que concorda com a fala de Graça Foster e que isso contradiz nota oficial do PT, que afirma que as investigações estão provocando prejuízos à empresa.(Jornal do Brasil)

A ex-presidente depõe na CPI da Petrobras

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