25/05/2015 – 09h34
Numa das melhores entrevistas que concedeu até hoje, desde que assumiu a presidência da República, a presidente Dilma Roussef falou de tudo ao jornal La Jornada, do México, para onde embarcou neste final de semana: de artes, literatura, política externa, partilha e até dos pedidos de impeachment, embora a orientação dada ao repórter fosse a de não fazer nenhuma pergunta sobre política interna.
Merecem destaque alguns aspectos pessoais da entrevista, especificamente aquele em que o repórter pergunta à presidente sobre o acidente ocorrido no seu depoimento no Senado, quando o senador José Agripino perguntou se ela mentiu nos seus depoimentos de presa política da ditadura. Dilma respondeu justificando, primeiramente, que Maia só lhe fez essa pergunta porque estava, na época, do outro lado, e acrescentou: “Quem não mente na tortura, tá lascado”. Nessa parte da entrevista, ao falar sobre tortura, Dilma destacou:
Tem outra coisa, que chama a dor, a dor. A dor é outra coisa que ela oprime, ela corrói, ela humilha, ela degrada. A dor degrada. Então, resistir é algo muito difícil. Não faz de ninguém herói, faz das pessoas só isso: gente. Você não vira herói, você vira gente.”
Eis alguns trechos da entrevista concedida pela presidente da República, Dilma Rousseff, ao jornal La Jornada:
Jornalista – Eu assumi um compromisso que (incompreensível), que foi não perguntar nada da política interna do Brasil. Mas, posso perguntar?
Presidente – Agora você tem mais duas perguntas.
Duas perguntas. Uma é essa. Há um setor, uma direita, que fala muito do impeachment. Isso é uma forma de golpismo branco?
Posso te dizer? Essa questão do impeachment…
Não é um (incompreensível) da direita?
Sem base real…
Claro, não. Claro.
Sem base real, porque o impeachment está previsto na Constituição, não é? Ele é um elemento da Constituição, está lá escrito. Agora,o problema do impeachment é sem base real, e não é um processo, e não é algo, vamos dizer assim, institucionalizado, tá? Eu acho que tem um caráter muito mais de luta política, você entende? Ou seja, é muito mais esgrimido como uma arma política, não é? Uma espécie de espada política, mistura de espada e de dama que querem impor ao Brasil.
Agora, a mim não atemorizam com isso. Eu não tenho temor disso, eu respondo pelos meus atos. E eu tenho clareza dos meus atos. Então…
Mas é uma, digamos assim, uma atitude de direita muito radical, que não era vista há tempos no Brasil, não?
É. De uma certa forma, todos os presidentes no Brasil tiveram esse processo. O Lula teve, o Fernando Henrique teve, antes do Fernando Henrique…
O Collor.
Não, o Collor foi tirado. O Itamar eu não lembro, acho que não. Mas eu estou te falando dos últimos tempos. Vira e mexe tem essa…
…Casa Civil só, mas não foi nada.
O Fernando Henrique, o Lula…
Tá, mas teve aquele episódio da Casa Civil só, mas não foi nada.
Bom, antes disso era praxe.
Antes disso era praxe. Eu faço a última: eu trouxe ali, para se a
senhora quer depois assinar, aquele livro muito bonito, que é aquele com o título “A Vida…” Bom…
“O que a vida quer de nós é coragem”? Sabe de quem é essa frase?
Não.
Essa frase, para mim, é de um dos maiores escritores brasileiros, chama João Guimarães Rosa. O texto inteiro é muito bonito. Se eu tivesse os meus 50 anos, eu te citaria ele, porque eu sei ele de cor mas não vou conseguir citar. Porque ele fala algo assim: que a vida esquenta e esfria, instiga e depois pacifica, radicaliza”… Me abre ali, por favor? A vida quer de nós a coragem.
Eu tenho ali, eu trouxe.
Não, aquele ali é o livro que fizeram, que o meu assessor de imprensa da campanha fez, e que tem coisa ali que não é verdade, tem coisa que é. Ele não é um livro autorizado.
Não é um livro autorizado?
Não. Mas tem muita coisa que está certa.
Mas por quê?
Eu não estou desautorizando o livro, estou só te dizendo que tem umas coisas que não são verídicas, assim, não foi daquele jeito que aconteceu. Porque tem isso, é muito difícil de você saber de que jeito aconteceu, não é? Quer pegar-me, por favor, o meu ipad? Porque é lindo o texto, deixa eu dar para ele.
Porque, a propósito desse…
É lindo, esse texto é lindo.
E claro que vou levar…
E o que a vida quer de nós é coragem, ela não quer outra coisa.
Para nós, o Jornal La Jornada, que é um jornal de esquerda, que respeita muito a luta dos que resistiram na ditadura, esse livro, mesmo que não tenha um relato absolutamente fidedigno do que aconteceu, está falando de uma mulher que tem uma coragem excepcional. Quando a senhora chegou ao poder, pela via dos votos, aquela força que a senhora construiu na resistência contra a ditadura foi uma enseñanza para enfrentar esses momentos difíceis do poder?
Do ponto de vista pessoal, aquilo está indelevelmente marcado dentro de mim. Não tem… Você… Ninguém pode chegar e dizer… Outro dia eu estava lendo um texto do Mujica, conversei muito sobre isso com o Mujica. Nós não nos arrependemos de nada. O que você tem de fazer é entender que naquele momento, naquelas condições, o que te levou a fazer daquele jeito, hoje não tem a menor condição de ocorrer.
Claro, claro.
Não é? Isso é a primeira coisa. A segunda coisa: você muda, mas você não muda de lado, que é a segunda coisa. Ou seja, muda porque você vê que em alguns, com alguns fatos que ocorreram, alguns equívocos cometidos, você vê que tem um pouco, também, da minha juventude. Não é? E eu não vou ser contra a minha juventude. Mas tem coisa que não estava correta. Agora, eu não mudei de lado. Eu posso achar que tudo aquilo ocorreu… Agora, tenho muito orgulho de muita coisa, não largo aquilo de lado, não. A minha vida é inquestionavelmente marcada por aquilo. E se vocês foram capazes… Porque uma vez, aqui, eu fui depor no Congresso.
Eu m lembro, eu m lembro. Estava o senador dos Democratas, Agripino Maia, aquela conversa, não é?
Eu fui depor no Congresso e falaram assim para mim.
Na tortura a senhora mentiu, não foi isso? Isso foi uma segunda tortura, digamos, de novo, Presidente?
Nem perto. Não passa nem perto da tortura aquilo. Que é isso? Uma pergunta de um senador no Congresso Nacional, com o Brasil democrático? Que é isso? Moleza. Ele me perguntar: “Na tortura você mentiu?” Por que ele perguntou isso? Porque ele não estava do meu lado, ele não era do meu lado, ele era de outro lado. Quem não mente em tortura, lá lascado. Você entrega companheiro, tem gente que é seu amigo, seu irmão, que você vê morrer. Ou mente ou você se destrói. Quantas pessoas eu vi destruídas? E eu não julgo essas pessoas também. É muito difícil, eu disse para o senador: “Senador, é muito difícil mentir”, porque na tortura todo o incentivo é: “se você falar eu paro, se você falar eu paro”. É uma luta para você aguentar não falar, porque todos nós somos o que somos, não tem heróis. Cada um de nós encontra, dentro de si, forças.
E eu falo, sabe por que que não tem heróis? Porque eu vi as pessoas mais variadas, é uma questão de resistir. Se você tem convicção que está certo, você tem de resistir. Resistir, tem hora até que você resiste se enganando. Você fala: “Ah, eles vão voltar”. Porque eles falam assim para você: “Nós voltamos daqui a uma hora, pensa bem”. Aí te pendura outra vez, bota no pau-de-arara, te dá um choque, etc. Qual é a estratégia, o que que é que você tem de fazer? Primeiro, você não pode pensar, você tem de impedir, você tem de fazer um esforço quase… Como é que chama aquilo que uma vez me falaram: “Você tem de fazer treinamento de…”. Aquele que a gente para fica assim: “Ummmmm”.
Meditação
Meditação. Você faz meditação. Você sabe o que é fazer meditação espontânea? Você tem de tirar aquilo da sua cabeça. Porque se você não tirar aquilo da sua cabeça, o medo toma conta, não é? E o medo, ele te corrói, o medo é uma coisa que tem dentro de você, não tem fora. O medo é tudo que a natureza, ao longo de toda a nossa evolução, colocou dentro de nós, para a gente poder sobreviver. Há alguém querendo nos comer, não é? Há o raio, há o diabo. Há o diabo, por isso que tem adrenalina.
Então, você tem de resistir, sabendo que você está resistindo contra toda a sua… toda a sua natureza.
Portanto, a senhora resistiu àquilo, as pressões de hoje são nada.
Olha, eu te digo que elas são bem mais fáceis. Não que sejam facílimas ou que elas não são relevantes.
Mas quando a gente é preso está muito preparado para sofrer as pressões.
Mas eu te digo o seguinte: não passa perto. Tem, outra coisa, que chama a dor, a dor. A dor é outra coisa que ela oprime, ela corrói, ela humilha, ela degrada. A dor degrada. Então, resistir é algo muito difícil. Não faz de ninguém herói, faz das pessoas só isso: gente. Você não vira herói, você vira gente.
Ou vira Presidenta.
É. Agora, eu acho que você pode virar presidente sem passar por tortura. Inclusive defendo isso como sendo uma bandeira: não precisa, não precisa.
Posso fazer a última, a última, a última pergunta?
Não, você vai esperar, porque “A vida quer é coragem”.
Claro.
Ah, não, espera lá
Claro que sim, Presidenta, nós não temos pressa nenhuma.
Guimarães Rosa. Se tivesse o Pìmentel aqui, ele tem.
Ele falaria.
Óbvio. Porque eu e o Pimentel gostamos disso…
Foram companheiros de militância, não é?
Sim, por causa que no passado a gente descobriu. Eu e o Pimentel, eu conheci o Pimentel ele tinha 17 anos, eu acho que eu tinha 19.
Os dois eram combatentes, não era?
Éramos. Eu conheci o Pimentel, ele era bem novinho. Ele sempre disse que eu tinha 4 anos mais que ele, mas é mentira, eu tinha só 2. Ele fala isso: eu sou muito mais novo que ela, tenho 4 anos menos. Mentira, mentira.
Ok. (…) sua palavra.
Bom, eu não estou achando.
Eu tenho duas. Tenho a sorte jornalística e humana de ter três longas entrevistas com a doutora que foi sua advogada.
A Rosa?
A Rosa, ela deu para mim.
Eu lembro da Rosa.
É, que ela também teve a coragem, como a Presidenta, quando estava presa, de assumir ser sua advogada nesse momento tão difícil.
E foi mesmo, mas não era só minha não, viu? Ela teve a coragem de ser a advogada de uma porção de presos políticos, muitos presos políticos.
Eu vi o caráter como que ela trabalhou muito na Comissão da Verdade.
É, ela é uma pessoa muito determinada, a Rosa. E era difícil, porque era complicado.
Aqui, Presidenta.
Você achou? “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria; aperta e daí afrouxa; sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Depois posso repetir para…
Sim. Chama João Guimarães Rosa.
Por quê? Porque ela estava à frente da Comissão do Plano Condor e ela…
Quem? A Rosa?
A Rosa, dentro da Comissão da Verdade.
Ah, é? Eu não sabia.
E trabalhamos muito sobre o caso Goulart. E ela falou para mim, igual que falou para mim…
O caso…?
Do presidente Goulart.
Ah, o Goulart.
E ela falou para mim, e também o procurador da Argentina, o (…), e também o procurador (…) na Itália, que seria fundamental poder algum dia falar com o presidente, com o ex-secretário de Estado Henry Kissinger. A senhora gostaria de alguma vez Henry Kissinger falar sobre o que aconteceu no Plano Condor?
Sem problema, se ele quiser falar comigo, eu aceito.
E acharia que isso é importante para…
Eu, se eu falasse com o Kissinger, você vai me desculpar, não era sobre isso que eu ia falar, não, sobre esse livro dele, chamado “World”, “International World”, extremamente, eu diria, agudo, nas suas percepções. Acho que ele faz a análise bem… Óbvio, eu não tenho a mesma compreensão do mundo, mas eu respeito um conservador lúcido. Ele é, este livro dele, e mesmo o sobre a China, são muito interessantes. Mas eu gostei muito deste último. Agora, perguntaria a ele sobre… Não tenho problema, se ele quiser responder, responde.
Sobre o Plano Condor?
É.
Por quê? Porque a Justiça do Brasil, a procuradora que está seguindo o caso, num jornal falou também que ela gostaria de o Kissinger falar. Isso seria bom para que a gente finalmente soubesse a verdade do Plano Condor?
Olha, eu acho importante. Agora, não sei se ele quer falar. Não cabe a mim constranger ninguém. Porque aí, nesse caso, eu sou chefe de Governo, não é? No caso… Aliás, chefe de Estado, não cabe eu fazer isso.
Está bom. Muito obrigado, Presidenta.

