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Falar é fácil e fazer ouriçar é gostoso

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21/06/2015 – 11h26

Foi na última sexta-feira, na Associação Comercial e Empresarial de Dourados, a noite de autógrafos de “O choro dos Anjos”, terceiro livro de José Alberto Vasconcelos. Transcrevo aqui, o prefácio que fiz para ele:

Honrado com o convite para prefaciar O choro dos Anjos, de José Alberto Vasconcelos, que conheci “Juca Paulista”, em 1970, quando, tipógrafo na Folha de Dourados, compunha seus já polêmicos textos, pensei, cá com meus botões: a prevalecer o título, o Vasco, como o autor é popularmente conhecido, deve vir mais ligth neste livro. Ledo engano. Com seu feeling apuradíssimo para o bom jornalismo, aproveitando-se, como sempre, de fina ironia para tocar fundo nas chagas da sociedade, ataca sem dó nem piedade os grandes responsáveis por elas – os políticos. E, assim, de angelical, nos textos como o que dá nome a esta obra, só mesmo um ou outro título.

Dono de indiscutível credibilidade, este paulista (por vezes apresentando-se também como gaúcho titulado) de Promissão aproveita o tempo de sua tranquila aposentadoria na produção de textos que retratam o cotidiano e os problemas da cidade, denunciando suas mazelas, doa a quem doer. Um ano depois de ingressar por concurso, como faz questão de frisar, no Banco do Brasil, chegou a Dourados, em 1962. Graduado em Direito pela Faculdade do Triângulo Mineiro, inicia a militância na advocacia em 1976. Foi procurador regional do Estado de Mato Grosso do Sul, vereador, mas, pelo temperamento e, muito mais pelas convicções, preferiu abandonar a política partidária. Sua tribuna preferida é uma coluna semanal que assina em O Progresso. Dela, saíram textos para Testemunha da Lembrança, sua primeira coletânea, publicada em 2008. E, depois, em 2010, Fadas, raposas e lobisomens.

Ligth e hilário, não apenas nos títulos dos textos e dos livros, José Vasconcelos usa em seus escritos o velho truque de quem costuma comer mingau quente pelas beiradas. Com seu proverbial e sempre recorrente In verbis, vai ganhando o leitor devagarinho. Uma pitada de bom humor aqui, gastando seu latim ali, mas sempre recheado de muita informação, e, como o bom cozinheiro que é, misturando e temperando tudo para servir ao ponto a seus leitores. Claro que, sobrando sempre para os (ir) responsáveis do ou pelo poder.

Crítico, contumaz e imparcial. O maior exemplo disso é quando encarna o repórter que narra a saga da família, pela ótica de quem aos sete anos de idade viu a mãe se amancebar com um “cafajeste”, e que, depois, como delegado de polícia, desengaveta o inquérito em que o avô aparecia como réu por ter dado fim ao padrasto indesejado. Ou quando, profundo, recorre à palestra de um jurista alemão, na Sociedade Jurídica de Viena em 1782 abordando o vilipêndio dos direitos fundamentais do cidadão para fundamentar sua crítica à nomeação para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal dos deputados petistas José Genoíno e João Paulo Cunha, “ambos condenados à segregação em jaula corretiva, conforme sentença exarada no bojo dos autos 470/STF (processo do mensalão). Além de hilário, ferino, como sempre, acrescentando: “há que observar que participou do “aproveitamento” o deputado Paulo Maluf, fugitivo da Interpol”.

No texto que dá título a esta obra, depois de falar da “obtusa e ineficiente repressão aos hediondos e abomináveis crimes contra os pequerruchos”, no caso, os anjos que choram, o autor faz um rodeio danado para a comparação que deixa claro o descaso das autoridades com as crianças brasileiras, com uma pergunta que teria efeito destruidor sobre burocracia, com seus estilhaços suficientes para ajudar a extirpar de uma fez por todas a corrupção, desde que, claro, estivéssemos num país sério: “o político corrupto, que furta os recursos da saúde, seria diferente daquele sujeito que assassina o bebê que chora de fome?”. Heresia na política? Vasconcelos tira de letra, com base em suas observações durante as missas dominicais na Catedral a duzentos metros do cafofo onde busca inspiração para o deleite de seus leitores: No antológico A política, a confissão e o padre, ele observa que “nesse ponto – o da confissão – é que a pulga pega, para outra pergunta pra lá de capciosa: “Você acha que o político vai dizer ao padre que embaralhou o público com o particular; que furtou, roubou, meteu a mão, enfiou na cueca ou simplesmente sumiu com o dinheiro dos cofres públicos? Claro que não!”.

Mais atual que nunca não só na arte de cutucar a classe política, José Alberto Vasconcelos está atendo também a outro tipo de cutucão, este que se espalha como uma praga no mundo moderno: o da tecnologia. E aqui também ele é impagável: “o que se vê é o ser humano, das várias etnias esparramadas pelo mundo, no deserto, nas tendas dos beduínos; nas zonas congeladas, nos iglus; no regaço das florestas, nas tabas; todos, concentrados, cutucando um celular. Não conversam mais! Não trocam ideias e tampouco interessam-se por aprender coisas novas. Num ajuntamento, cada uma delas cutuca, sem parar e por tempo indeterminado, o tal celular. Hoje não há diferença entre o interior de um restaurante e um velório. O silêncio toma conta do ambiente, ninguém conversa, apenas ouve-se o tic-tic das teclas do celular sendo dedilhadas, nervosamente, pela “platéia” estacionada no local. Todos com o olhar fixo no nada e com cara de parvo, cutucando… cutucando… cada um, o seu celular!”. Deste inconformismo, sua crítica à falta de interesse cultural das novas gerações, que ele lamenta não saber, por exemplo, que foi Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, quem primeiro disse que “o nordestino é, antes de tudo, um forte!”, ou Antônio Conselheiro, o fanático que se dizia enviado de Deus quem “previu” que “o mar vai virar sertão e o sertão vai virar mar!”.

Pode ser até que José Alberto Vasconcelos nem tenha se dado conta, mas não apenas Euclides da Cunha e Antônio Conselheiro passam batido ante ao descomunal processo de desinformação das novas gerações, mas também o próprio Juca Paulista, o pseudônimo que o escritor usava para escapar de qualquer encrenca com a censura nos anos de chumbo da ditadura. Sim, Juca Paulista, que quarenta e quatro anos atrás, preocupado com as trombetas do apocalipse que ameaçavam tocar na virada daquele século recorria ao Clarim do nosso bispo (dom Theodardo Leitz) alertando para os graves problemas de infraestrutura do hospital regional aqui construído pela Organização Mundial de Saúde – o mesmo hospital que, depois de várias trocas de nomes, hoje conhecido como Hospital da Vida, nunca deixou de ser o “hospital da morte”. Juca Paulista que, vendo o diretor da Folha de Dourados Theodorico Luiz Viegas ir parar na cadeia só porque criticara a construção de um presídio em Dourados, resolveu fazer um desagravo ao jornal em que escrevia, com tiradas bem ao seu estilo: “a verdade às vezes dói e há os sensíveis às criticas que se ouriçam ao menor toque, isto para o jornalista é incentivo, porque o jornal foi feito para incomodar e não para acomodar”. Isto, no texto Falar é fácil e fazer ouriçar é gostoso, de 8 de março de 1971, dia em que a Folha comemorava seu terceiro ano de circulação. Precisa dizer mais? Grande Vasco! Leitura obrigatória ontem, hoje e sempre!

Valfrido Silva

Uma dedicatória especial, do autor José Vasconcelos ao autor do prefácio de

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