29/07/2015 – 09h48
Passa pela cabeça de alguém minimamente antenado às coisas da politica ou da polícia que um gangster como Jerson Domingos, ainda mais investido no cargo de presidente da Assembleia Legislativa, pudesse se assustar com alguma coisa? Até por sua especialidade, em bichos, tão afoito e corajoso que liberou geral a jogatina pelos corredores do poder! Embora a fala de seu colega Antônio Carlos Arroyo dando conta de que o poderoso chefão era “o único assustado nessa história” esteja no contexto do imbróglio de sua abortada indicação para o Tribunal de Contas, não deixa de ser preocupante que a coisa tenha chegado a esse ponto. Depois, claro, do estouro do escândalo da “Lama Asfáltica”, como agravante da Uragano, cujas denúncias, não menos estrondosas e bombásticas, devem ter lá seus cem mil motivos para continuarem repousando nos escaninhos do Superior Tribunal de Justiça.
A “manobra teatral”, como foi colocada pela Polícia Federal, do vai-não-vai do deputado Arroyo para o Tribunal de Contas, escancara o compadrio e a podridão entre os três poderes. Se é que, na acepção da palavra, o Tribunal de Contas do Estado possa ser entendido como poder. Quando decisões desse nível, como a indicação de um pretenso julgador das contas públicas, precisam passar pelo crivo de João Amorim, o empreiteiro que banca a politicalha corrupta, é porque não há mais o que esperar das ditas “lideranças” políticas. Pior, todo o teatro para que se pudesse ganhar tempo, guardando para o mestre de obras esfareladas, Edson Giroto, o cargo prometido por André Puccinelli a Arroyo.
Arroyo só não dá nome aos bois, como o então primeiro secretário (o homem que assinava os cheques com Londres Machado) Ari Rigo fez quando denunciou a triangulação do dinheiro público desviado pelo executivo para repartir com o legislativo e o judiciário. “É muita estrutura, você sabe do que estou falando, não gostaria de tomar as atitudes que vou tomar, infelizmente vai entrar gente que não teria culpa”, choraminga o deputado sobrinho de Pedrossian ao empreiteiro sobrinho do finado Harry Amorim Costa. A ameaça a André Puccinelli, por quem se diz traído, é implícita: “Avisa o Osmar (Jerônymo, braço direito do ex-governador) que ele não toma posse”, diz, ameaçando entregar documentos para a imprensa e prevendo que “até lá a casa já caiu”. Daí o seu sentimento de que “o Jerson (então presidente da Assembleia) é o único assustado nessa história”, acrescentando que “isso é só a ponta do iceberg”. E, ante as tentativas de contemporização de um jeitoso Amorim, disparando: “Vocês acham que estou brincando, estão achando que não vou no (sic) limite, já passei do limite”. Como Amorim não desiste, dizendo estar à disposição para ajudar no processo, “pelo menos de susto”, Arroyo aceita tomar um cafezinho com ele no dia seguinte, aí já abaixando o tom, dizendo estar tentando “não deixar quebrar o cristal” porque, segundo ele, “se quebrar o cristal todo mundo perde”.
Como, além de Osmar Jerônymo, o bicheiro Jerson Domingos também tomou posse no Tribunal de Contas e nada de diferente aconteceu até que viesse a “Lama Asfáltica”, certamente que João Amorim deve ter substituído o cafezinho requentado de sempre por um cappuccino para esperar por Arroyo, além, claro, de uns ingressos de circo para ele se distrair com a família em vez de ficar pensando na enfadonha tarefa de julgar processos no Tribunal de Contas. Diante disso tudo, o negócio, ou, melhor dizendo, o jeito é esperar pelos novos deputados, se é que ainda tem algum que ainda não foi tomar cafezinho com João Amorim, que não ganhou pacoteiras de ingressos de circo, como Maurício Picarelli, ou uma caroninha no jato “cheio de charme”, para ver se sobra alguém do naufrágio que parece inevitável.
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