07/11/2019 – 15h04
Após ser chamado de covarde, Nunes partiu para agressão física durante programa Pânico, na rádio Jovem Pan
Os jornalistas Augusto Nunes, 70, e Glenn Greenwald, 52, fundador do site The Intercept Brasil, trocaram socos durante o programa Pânico, da rádio Jovem Pan, nesta quinta-feira (7). Os dois iniciaram uma dura discussão, quando Glenn passou a chamar Augusto de covarde, que então partiu para a agressão física. “Você é um covarde, Augusto Nunes. Você é um covarde”, disse Glenn.
Augustoresponde: “Se falar em covarde… Eu vou te mostrar”. Nesse momento, Augusto agride Glenn. “Eu te mostro o que é covarde. Eu te mostro quem tem coragem [inaudível]. Eu te mostro quem tem”, seguiu Augusto. Glenn, em seguida, parte para cima e tenta acertar um soco no rosto de Augusto.
Glenn é fundador do The Intercept Brasil, site que tem publicado uma série de reportagens baseadas em mensagens trocadas no aplicativo Telegram por procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato e pelo ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept e divulgadas até este momento pelo site e por outros órgãos de imprensa expuseram a proximidade entre Moro e os procuradores da Lava Jato e colocaram em dúvida a imparcialidade como juiz do atual ministro da Justiça no julgamento dos processos da operação.
Quando as primeiras mensagens vieram à tona, em 9 de junho, o Intercept informou que obteve o material de uma fonte anônima, que pediu sigilo. O pacote inclui mensagens privadas e de grupos da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, no aplicativo Telegram, a partir de 2015.
Em resumo, no contato com os procuradores, Moro indicou testemunha que poderia colaborar para a apuração sobre o ex-presidente Lula, orientou a inclusão de prova contra um réu em denúncia que já havia sido oferecida pelo Ministério Público Federal, sugeriu alterar a ordem de fases da operação Lava Jato e antecipou ao menos uma decisão judicial. Moro tem repetido que não reconhece a autenticidade das mensagens, mas que, se verdadeiras, não contêm ilegalidades.
No programa da Jovem Pan, Glenn chamou o outro jornalista de covarde ao relembrar um comentário feito anteriormente por Augusto na rádio, no qual mencionou os dois filhos adotados pelo jornalista americano e por seu marido, o deputado federal David Miranda (PSOL).
Na ocasião, Augusto indagou: “Quem é que cuida das crianças que eles adotaram? Isso aí o juizado de menores deveria investigar”.
“O Glenn Greenwald passa o dia tendo chiliques no Twitter ou trabalhando como receptador de mensagens roubadas. Esse David fica em Brasília ou lidando com rachadinhas, que essa é a suspeita aí, que isso dá trabalho”, afirmou ainda o jornalista.
Glenn compartilhou um vídeo com a fala e relatou que fez “jornalismo em dezenas de países no mundo democrático. Um limite absoluto, até em combate político, é não usar os filhos menores como alvo”.
Na época, Augusto respondeu a ele em uma rede social: “Glenn me acusou de alvejar seus filhos. Fake news. Apenas constatei q ele lida em tempo integral com mensagens roubadas, o maridão só pensa no caso da rachadinha em q se meteu e nenhum tem tempo p/ cuidar dos filhos. Pare de mentir, Glenn. É outro mau exemplo para as crianças”.
Nesta quinta-feira, depois da agressão ao companheiro, David reiterou as afirmações que Glenn fez diretamente a Augusto. O parlamentar escreveu em uma rede social: “Augusto Nunes é um indigno. Covarde, sem escrúpulos. É do tamanho da reação lamentável que teve hoje na Jovem Pan”.
O deputado também disse: “Esse canalha usou nossos filhos p/ atacar o trabalho do meu marido. É tão covarde que não consegue escutar a verdade cara a cara e partiu para agressão física. Se os veículos em que ele trabalha forem sérios, vão demitir esse jornalista sem ética e escrúpulos. #SomosTodosGlenn”.
Augusto disse à Folha que não se arrepende “nem um pouco” do que fez e que ele foi agredido primeiro, verbalmente, pelo americano.
“Eu fui insultado moralmente. Aí adverti para que ele não usasse a palavra ‘covarde’, que é insultuosa, que é grave. Adverti cinco vezes, ele insistiu. Eu tinha duas opções: ou reagir com altivez ou engolir o insulto. Não tive alternativa”, afirmou. “Eu reagi como qualquer homem reagiria”, acrescentou. “O agredido fui eu. Eu reagi a uma agressão.”
O jornalista disse ainda que falou a Glenn para “aprender o significado da palavra ‘covarde’ na língua portuguesa, que é uma acusação grave, e talvez ele não saiba”.
Augusto afirmou que fará “a mesma coisa toda vez que for insultado repetidas vezes mesmo diante de uma advertência”, que se considera um homem honrado e que, caso Glenn queira tomar providências legais, “ele pode fazer o que quiser”.
“Eu me sinto completamente tranquilo. Saí de lá [do estúdio] em paz comigo mesmo. Não havia o que fazer”, disse. O jornalista reiterou que o comentário sobre os filhos que motivou a reclamação de Glenn foi uma ironia. “Onde eu propus, como ele disse, que ele perdesse a guarda das crianças? Tudo é ilação. Eu disse a ele: ‘Prove que eu disse isso, prove que eu sugeri que fosse retirada a guarda das crianças’. Foi um comentário irônico.”
Glenn, que continuou sendo entrevistado pelo programa de rádio depois da briga, disse considerar que o ponto mais grave do episódio é o uso de força física, de violência, no debate político. “É a coisa mais grave e perigosa para uma democracia. É justificável Augusto Nunes me agredir? Não, assim como não é para qualquer um atacar fisicamente na rua qualquer pessoa que tenha uma opinião diferente”, afirmou.
O jornalista criticou ainda o fato de “integrantes do partido do presidente [Jair] Bolsonaro estarem aplaudindo, apoiando o uso da violência no debate político, o que é uma ameaça grave para a democracia. Comportar-se como fascista é algo totalmente inaceitável”.
“Para ser totalmente honesto, ele [Augusto] não me machucou, foi [um ataque] fraco. Essa é a verdade. Nunca aconteceu algo assim na minha carreira, como advogado e jornalista, e estou envolvido em temas muito polêmicos. Nunca fui agredido na minha vida, porque adultos não se comportam assim”, completou.
Segundo ele, o sentimento no momento da agressão foi de choque, e sua reação foi “um instinto para retornar [revidar] aquela agressão”. Glenn relatou também que ouviu de representantes da Jovem Pan a promessa de que a rádio pediria desculpas publicamente e se posicionaria contra a atitude do comentarista.
“Também me disseram que Augusto tem que pedir desculpas e admitir que o que ele fez é errado. Mas ele falou com vocês [da Folha] e fez exatamente o oposto”, afirmou Glenn. Ele disse esperar o cumprimento do acordo e falou que não sabe se tomará medidas legais.
O jornalista refutou ainda a afirmação de Augusto de que sua fala sobre os filhos do casal tinha conteúdo irônico. “Qualquer pessoa pode assistir àquele vídeo, e não tinha nada leve. Eles estavam discutindo se eu vou ser preso, se eu paguei a hackers. Não tinha nada leve, nada irônico.”
Augusto Nunes é comentarista da Jovem Pan e da TV Record, além de colunista da revista Veja. Já dirigiu Redações de importantes veículos de comunicação e foi apresentador do “Roda Viva”, na TV Cultura.
Americano radicado no Rio de Janeiro, Glenn Greenwald conquistou em 2014 o prêmio Pulitzer, na categoria serviço público, pelas reportagens sobre o vazamento dos documentos do ex-agente da Agência Nacional de Segurança, Edward Snowden.(Folha de S.Paulo)

