Este é o último texto da série inspirada em minha curta passagem pela sinuosa e aconchegante capital da Paraíba, a terra de João Pessoa. Não fui lá a turismo, mas por recomendação médica, para acalmar o coração, que andava acelerado demais. Uma água de coco aqui, outra ali, as ondas do Atlântico respingando em minha janela, e o assassinato que provocou a Revolução de 1930 — tema de qualquer passeio que se preze, pela boca dos guias de turismo — começou a se enredar na mente deste insubordinado da imprensa, cujo combustível é o fervo dos bastidores políticos do Mato Grosso do Sul.
Daí para atrelar os motivos que levaram outro jornalista a matar o presidente da Paraíba, João Pessoa, aos que levaram o então governador Reinaldo Azambuja a demitir seu vice, Murilo Zauith, nem precisei rebobinar tanto a fita. O tema ainda está quente, fumegando na memória dos eleitores — e o coração, esse eterno conspirador, continua tramando enredos onde a razão pede silêncio.
O coração, afinal, derruba mais governos do que a oposição e dá mais manchetes do que a própria imprensa. Foi assim com o assassinato de João Pessoa, quando cartas amorosas revelaram a vulnerabilidade do jornalista assassino — e é assim, quase um século depois, nas curvas não menos sinuosas do Parque dos Poderes, onde um rabo de saia foi o estopim para a derrocada de um vice-governador que sonhava com o trono antes da hora.
Na Paraíba de 1930, João Pessoa, o austero e moralista presidente, havia transformado a política em palco e a honra em espetáculo. Quando as cartas do jornalista, desafeto político e seu inimigo à namorada vieram a público, o que se viu foi o retrato de uma época em que a fronteira entre o público e o privado era uma cortina de renda fina. Pessoa, que pregava a pureza administrativa e a retidão dos costumes, não resistiu ao sabor da vingança. Tornou pública a correspondência íntima, não apenas para desmoralizar o adversário, mas para firmar-se como o homem acima das paixões — ironia das ironias, foi justamente sua paixão pelo poder e pelo prestígio que o empurrou para a emboscada fatal, em Recife.
A história, como se sabe, terminou em tragédia. O jornalista com os brios feridos matou João Pessoa, o que foi considerado o estopim para o golpe de Estado que depôs o presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao Palácio do Catete. Tudo começou com cartas de amor e terminou com tiros e sangue. A moral da história? O coração é péssimo conselheiro de gabinete.
Avançamos quase um século e mudamos de cenário, mas o roteiro é o mesmo — apenas trocamos as cartas por mensagens de celular e o confessionário por grupos de WhatsApp. No Mato Grosso do Sul, o vice-governador Murilo Zauith, homem ambicioso e de fala mansa, acreditou que poderia ser o herdeiro natural de Reinaldo Azambuja. Da Secretaria de Infraestrutura, onde despachava como um primeiro-ministro, costurava alianças, alimentava simpatias e sonhava alto.
Mas o poder, como o amor, tem ciúmes. E foi justamente por causa de um coração imprudente — um romance mal disfarçado nos corredores do poder — que o castelo ruiu. A história correu como rastilho de pólvora. Azambuja, avisado por fontes próximas, descobriu o entrelace perigoso e reagiu à sua maneira: com a frieza dos políticos que conhecem o peso da traição. Demitiu o vice sem pestanejar, num corte cirúrgico e sem anestesia.
Murilo nunca mais foi o mesmo. Reinaldo não matou seu vice, como o jornalista fez com o presidente paraibano, mas acabou com ele politicamente — deixando-o à deriva, um zumbi que não faz outra coisa a não ser panguar pelas padarias de fuxico. Nelas, entre o cheiro de pão quente e o burburinho das conversas alheias, sobrevive o ex-todo-poderoso, repetindo para quem quiser ouvir que ainda tem lenha pra queimar. Mas o fogo, todos sabem, virou brasa fria.
O curioso é que, se João Pessoa tivesse sobrevivido, talvez entendesse Murilo Zauith. Nenhum dos dois foi traído — apenas vítimas das próprias emoções. Possoa, movido por vaidade e moralismo, usou o amor alheio como arma política. Zauith, por sua vez, deixou-se levar pelo ciúme e pela disputa de uma secretária que acabou se bandeando para o lado de Azambuja. No fundo, o enredo é o mesmo: quando o coração entra na política, a razão se recolhe — e o resultado, quase sempre, é o mesmo. Ambos acabaram reféns de sentimentos que não cabem em gabinete algum.
A história se repete, primeiro como confidência, depois como manchete. Quando se mistura amor ou paixão com política, dificilmente se sai ileso — e os fofoqueiros, de ontem e de hoje, agradecem. Afinal, o coração tem razões que a própria razão desconhece.
