Na política brasileira existe um ritual quase imutável. Parlamentares costumam percorrer cidades anunciando novas emendas, fazendo promessas, participando de reuniões políticas, posando para fotografias e seguindo viagem. Prestação de contas, quando acontece, normalmente fica em segundo plano. O senador Nelsinho Trad resolveu inverter essa lógica. Depois de visitar o prefeito Marçal Filho e conversar com lideranças políticas de Dourados, entre elas deputados estaduais e federais que disputarão a reeleição, reuniu a imprensa não para anunciar novos recursos, mas para colocar sobre a mesa os números do próprio mandato. Antes de pedir um novo voto de confiança, decidiu mostrar o que afirma ter entregue ao município durante os quase oito anos de Senado.
Antes de abrir a pasta com números, preferiu abrir o álbum de lembranças. Disse que Dourados também faz parte de sua história muito antes da política. Recordou que ainda menino caminhava pela Avenida Marcelino Pires quando a principal artéria da cidade sequer havia recebido pavimentação asfáltica. Falou do tio Izaat Bussuan, da tia Afife Bussuan — uma das pioneiras do Lar Santa Rita de Cássia — e dos primos William e Luiz Antônio Bussuan, um engenheiro e outro médico, que continuam escrevendo suas trajetórias profissionais na cidade. Era uma maneira de explicar que sua ligação com Dourados não começou no Senado nem terminará com uma eleição.
Foi então que resumiu esse sentimento numa frase que parece sintetizar a visita inteira: “Não é preciso nascer aqui para ser douradense. Eu me considero douradense muito mais pelo que fiz por Dourados como senador do que propriamente pelos vínculos familiares.”
A partir daí, a memória deu lugar aos números. Mas não por intermédio de assessores ou apresentações em telão. O próprio senador distribuiu aos jornalistas um portfólio com a prestação de contas do mandato, transformando a entrevista numa espécie de balanço administrativo. É um gesto incomum na política brasileira, onde normalmente se presta muito mais atenção às promessas do que às realizações.
O material reúne cifras que ajudam a dimensionar a atuação do parlamentar. Segundo o levantamento, Dourados recebeu mais de R$ 347 milhões entre emendas parlamentares, investimentos estruturantes e financiamentos viabilizados durante o mandato. No conjunto do Estado, o volume de recursos ultrapassa R$ 4,8 bilhões.
Entre as ações destacadas aparecem obras e investimentos de natureza bastante diversa. Na saúde, recursos para fortalecer a rede pública, incluindo mais de R$ 7,8 milhões destinados à ampliação da capacidade de atendimento, além de R$ 6 milhões para o enfrentamento da epidemia de chikungunya e R$ 2,35 milhões destinados ao fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Também constam investimentos para a construção do Instituto da Mulher e da Criança no Hospital Universitário e R$ 10 milhões para o custeio do Hospital Regional.
Na infraestrutura, o folder relaciona quase R$ 12 milhões aplicados em drenagem, pavimentação, acessibilidade, mobilidade urbana e segurança viária, além da construção do novo terminal de passageiros do Aeroporto Regional. Na educação e cultura aparecem obras como a reforma da quadra da Escola Municipal Armando Campos Belo, a revitalização do Teatro Municipal e ações de fortalecimento da UEMS.
Há ainda um capítulo que o senador faz questão de destacar como um dos mais importantes de sua atuação em favor do município. Trata-se da viabilização do financiamento internacional junto ao Fonplata, que garantiu cerca de R$ 200 milhões para aquele que considera o maior pacote de desenvolvimento urbano da história de Dourados, abrangendo obras de mobilidade, infraestrutura, áreas verdes e regularização fundiária.
Não por acaso, Nelsinho sustenta que nenhum outro senador destinou tantos recursos ao município durante um mandato. Mais do que uma afirmação política, procura sustentá-la com uma prestação de contas detalhada, entregue em papel aos jornalistas e colocada à disposição de quem desejar conferir cada investimento relacionado.
Confiante na disputa pela reeleição, o senador revelou que a conversa com o prefeito Marçal Filho não ficou restrita ao balanço do passado. Segundo ele, os dois já começaram a discutir as prioridades que Dourados deverá apresentar para o próximo exercício orçamentário. Na visão do parlamentar, a prestação de contas não representa um ponto final, mas um capítulo de uma relação que pretende continuar escrevendo.
Em tempos de campanhas cada vez mais marcadas por slogans, vídeos curtos e disputas nas redes sociais, a visita produziu uma cena pouco frequente. Em vez de pedir um voto de confiança baseado apenas em promessas futuras, um senador escolheu apresentar primeiro a conta do que afirma ter entregue. A estratégia recoloca em pauta uma prática que nunca deveria sair de moda na vida pública: a de que mandato também se mede pela capacidade de prestar contas à sociedade. E, nesse aspecto, Dourados acabou assistindo a uma visita diferente das tantas que costumam marcar os calendários eleitorais.
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