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sábado, janeiro 24, 2026

Soraya em Orlando: Entre o falso moralismo e o “fato” político

Por que o vídeo de férias da senadora causou tanto barulho, enquanto o trabalho parlamentar e o respeito à vida privada são ignorados?

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Diz o ditado preferido do ex-presidente e também presidiário Collor de Melo, que o tempo é o senhor da razão, mas na era das redes sociais, o tempo é apenas o intervalo entre um “print” e um linchamento. A bola da vez é a senadora douradense Soraya Thronicke. O crime? Estar em Orlando, numa loja de grife, acompanhada da família e de um empresário, Silvio Assis. Um vídeo de dois minutos, gravado por algum “vigilante da moral alheia” com Wi-Fi liberado, foi o suficiente para acender a fogueira das vaidades e dos ressentimentos.

Vamos colocar as cartas na mesa, como se faz nas rodas de conversa da nossa velha padaria do fuxico, em Dourados. Soraya, como bem sabemos, é fruto daquela “onda 17” que varreu o país e transformou desconhecidos em Excelências sob a sombra de Jair Bolsonaro. De lá para cá, ela mudou de rota, rompeu com o ex-presidente e virou alvo preferencial da mesma tropa que um dia a carregou no colo.

Particularmente, este escriba não tem motivos para afagos. Em sete anos de mandato, a senadora nunca mandou um release sequer para o contrapontoMS, nunca prestigiou este espaço e parece ter esquecido que o jornalismo do interior também respira. Mas, entre o ressentimento pessoal e a justiça dos fatos, eu fico com a segunda opção.

O Machismo com CEP de Luxo

O que se viu na repercussão desse vídeo não foi uma fiscalização republicana, foi um voyeurismo barato regado a machismo estrutural. Se fosse um senador barbado, de terno e voz empostada, jantando lagosta com lobistas em Nova York, a crítica seria sobre a “articulação política”. Como é uma mulher, advogada e bem-sucedida, o julgamento vira um ataque à honra e à vida privada.

Questionam o luxo de quem tem patrimônio declarado e profissão antes da política. É a velha tática de desviar o olhar do Diário Oficial para focar na vitrine da loja de grife.

Entre o Ruído e os Números

Enquanto a rede social espuma, os números de Soraya — quer se goste dela ou não — são fatos teimosos. Só em 2025, foram R$ 150 milhões destinados aos 79 municípios do nosso Mato Grosso do Sul. Da Caravana da Castração ao Prospera MS, o recurso chega na ponta, longe do ar-condicionado de Orlando.

O empresário Silvio Assis, pivô da discórdia no vídeo, atua com RelGov (Relações Governamentais). No Brasil, o lobby ainda é visto como pecado capital por quem finge não saber como as engrenagens do poder giram. Nos EUA, onde o vídeo foi gravado, é profissão regulamentada. Estar ao lado de quem transita no poder não é crime; criminalizar a amizade por pura ilação é que beira a patologia democrática.

Aposentadoria de Julgamentos

Soraya Thronicke pode ter caído de paraquedas na política, mas aprendeu a voar sozinha — e para longe do ninho onde nasceu politicamente. Se ela é ou não a parlamentar dos seus sonhos, o voto em 2026 resolverá. Mas usar um vídeo de férias para tentar desconstruir seis anos de mandato é, no mínimo, preguiça intelectual.

O episódio de Orlando revela menos sobre a senadora e muito mais sobre o nível rasteiro do nosso debate público. No fim das contas, a mentira e a fofoca correm o mundo de jatinho, mas o trabalho consistente costuma deixar rastro, mesmo que leve tempo para ser notado por quem só olha para a tela do celular.

Ao mandar esse abraço de “conterrâneo esquecido”, assino embaixo da defesa contra o linchamento. Antes tarde do que nunca para um bom contraponto.

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