Valfrido Silva
Há mais de 160 anos, os Espíritos que orientaram Allan Kardec descreveram um mundo onde a inteligência avançaria mais rapidamente que a moral, onde a força continuaria se impondo ao direito e onde o progresso material conviveria com profundas desigualdades e sofrimentos humanos. Relendo hoje o capítulo III de O Evangelho Segundo o Espiritismo, a sensação é desconcertante: não estamos diante de uma reflexão sobre o século XIX, mas da edição mais recente dos jornais do planeta.
Talvez por isso a leitura provoque tamanho desconforto. Porque os Espíritos não estavam falando de uma guerra específica, de um país específico ou de um governante específico. Falavam de uma condição moral da humanidade. Falavam de um estágio civilizatório em que a inteligência seria capaz de produzir maravilhas tecnológicas enquanto o coração humano continuaria preso aos velhos impulsos da dominação, do egoísmo, da vaidade e da violência.
É impossível percorrer aquelas páginas sem enxergar nelas as imagens que diariamente atravessam nossas telas. Gaza transformada em ruínas. A Ucrânia consumida por uma guerra sem horizonte. Povos inteiros da África sobrevivendo entre a fome, os conflitos armados e o abandono internacional. Milhões de refugiados atravessando fronteiras, desertos e mares. Crianças que morrem antes mesmo de descobrir o significado da palavra futuro.
A tragédia talvez seja ainda maior porque a humanidade jamais foi tão rica. Nunca produziu tanta comida. Nunca acumulou tanta tecnologia. Nunca teve tanta capacidade de aliviar o sofrimento humano. E, paradoxalmente, nunca foi tão visível a convivência entre a abundância extrema e a miséria extrema, entre os que discutem turismo espacial e os que ainda lutam por um copo d’água.
Enquanto isso, as grandes potências seguem discutindo influência geopolítica, zonas estratégicas, hegemonia econômica, mercados, sanções e armamentos. Mudam os discursos. Mudam as bandeiras. Mudam os líderes. Mas permanece a velha ilusão de que a violência, quando exercida pelos vencedores, adquire alguma aparência de legitimidade.
Sob a ótica espírita, porém, o critério de julgamento é outro. Kardec não mede a evolução de uma sociedade pela quantidade de riquezas acumuladas, pelo tamanho dos exércitos ou pela potência de seus arsenais. O critério é moral.
E sob esse critério pouco importa se a violência parte de uma facção criminosa, de uma organização extremista, de uma milícia, de um Estado ou de uma superpotência. A pergunta permanece a mesma: quantas vidas humanas são sacrificadas para sustentar projetos de poder?
É nesse contexto que surgem discussões inquietantes, como a intenção de Donald Trump de classificar organizações criminosas latino-americanas como grupos terroristas. A proposta pode soar sedutora aos ouvidos de quem vê o avanço da criminalidade organizada. Mas a história ensina que conceitos criados para enfrentar ameaças excepcionais costumam ganhar elasticidade conforme os interesses dos que exercem o poder. Hoje são criminosos. Amanhã podem ser opositores, dissidentes, movimentos sociais ou qualquer outro grupo inconveniente.
A experiência humana recomenda prudência sempre que governantes reivindicam poderes extraordinários em nome de ameaças extraordinárias.
A ironia é que, observando o planeta sob uma perspectiva exclusivamente moral, certas organizações criminosas parecem quase provincianas diante da escala de sofrimento produzida pelas guerras contemporâneas. Não controlam arsenais nucleares. Não mobilizam exércitos nacionais. Não determinam o destino de milhões de refugiados. Não possuem capacidade de transformar regiões inteiras do planeta em campos permanentes de devastação humana.
E, no entanto, o mundo continua assistindo líderes globais discursarem sobre democracia enquanto financiam guerras, falarem sobre paz enquanto ampliam arsenais e invocarem valores humanitários enquanto justificam mortes em escala industrial.
Trump. Putin. Netanyahu. Os aiatolás iranianos. Generais de todas as bandeiras. Senhores da guerra de todas as ideologias. Personagens diferentes ocupando papéis antigos numa peça que a humanidade insiste em reapresentar há milênios.
Talvez Kardec enxergasse nisso a evidência mais clara de que continuamos vivendo muito abaixo de nossas possibilidades morais. Produzimos inteligência artificial, dominamos o átomo, exploramos o espaço, mapeamos o genoma humano e sonhamos colonizar outros planetas. Mas seguimos fracassando diante de uma lição ensinada numa estrada poeirenta da Palestina há dois mil anos: amar ao próximo como a si mesmo.
E é justamente nesse ponto que a velha obra espírita encontra, de maneira surpreendente, a literatura de Gabriel García Márquez. Em Crônica de uma Morte Anunciada, todos conhecem o desfecho. Os sinais estão espalhados por toda parte. Os avisos são públicos. Os presságios se acumulam. E, ainda assim, a tragédia acontece.
A humanidade parece repetir esse mesmo enredo. Os alertas foram dados pelos profetas. Foram repetidos pelo Evangelho. Foram retomados por Kardec há mais de um século e meio. Estão registrados na História, nas ruínas das civilizações, nos campos de batalha e nos cemitérios de todas as épocas.
E, ainda assim, continuamos caminhando em direção às mesmas tragédias como se cada guerra fosse uma surpresa inédita. E o mais impressionante não é que existam guerras em 2026. Guerras sempre existiram.
O impressionante é que, depois de dois mil anos de cristianismo e de mais de 160 anos das advertências contidas na Doutrina Espírita, a humanidade continue procurando soluções militares para problemas que são, essencialmente, morais.
Talvez por isso a leitura de Kardec continue tão atual. E tão incômoda. Porque ela sugere que os verdadeiros campos de batalha não estão apenas em Gaza, na Ucrânia, na África esquecida ou nos corredores do poder mundial. Eles continuam dentro de nós.
